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O tanto que ficou de fora do tarifaço

Lorena Scavone Giron
30 de julho de 2025
Trump impõe tarifa de 50% sobre importações do Brasil a partir de 6 de agosto, mas poupa Embraer, suco de laranja, veículos, metais, energia, óleos e derivados de petróleo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (30) uma ordem executiva que impõe uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados. A decisão, com entrada em vigor prevista para o dia 6 de agosto, foi justificada com base em supostas ameaças à segurança nacional e à política externa americana, com menções diretas ao governo brasileiro e ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Apesar da retórica dura, a medida veio acompanhada de uma extensa lista de exceções, muitas delas negociadas previamente pelo governo brasileiro, com articulação do vice-presidente Geraldo Alckmin e representantes do setor produtivo. Entre os itens poupados estão aeronaves e peças da Embraer, suco de laranja, castanhas, fertilizantes, petróleo e derivados, além de produtos de madeira, celulose, metais preciosos e energia.

As exceções representam um alívio para setores estratégicos da economia nacional e foram fundamentais para evitar um impacto ainda maior na balança comercial. A ação da Embraer, por exemplo, chegou a oscilar fortemente com os rumores sobre o tarifaço, mas fechou em alta de mais de 10% após a confirmação da isenção.

Fora da nova cobrança
  1. Artigos de aeronaves civis: aviões, motores, peças, simuladores, pneus, estruturas metálicas, mangueiras e sistemas elétricos.
  2. Veículos e peças específicas: sedans, SUVs, minivans, vans de carga, caminhões leves e seus componentes.
  3. Produtos de ferro, aço, alumínio e cobre: itens semiacabados e componentes industriais.
  4. Fertilizantes: alguns de amplo uso.
  5. Produtos agrícolas: suco de laranja, polpa de laranja, castanha-do-brasil, fios de sisal ou de agave.
  6. Celulose de madeira
  7. Madeiras: tropicais serrada, lascada longitudinalmente, fatiada ou descascada, com espessura superior a 6 mm.
  8. Metais e minerais específicos: silício, ferro-gusa, alumina, ferroníquel, ferronióbio e outros produtos ferrosos.
  9. Ouro: não monetária, em lingotes ou pré-refinada.
  10. Prata em lingotes ou pré-refinada.
  11. Silício: certos tipos, como mica bruta para cosmética.
  12. Estanho: concentrados.
  13. Alumina metalúrgica.
  14. Energia e produtos energéticos: carvão, gás natural, petróleo, querosene, óleos lubrificantes, parafina, coque de petróleo, betume, misturas betuminosas e até energia elétrica.
  15. Bens retornados aos EUA: produtos enviados para conserto, modificação ou processamento sob certas condições.
  16. Bens em trânsito: mercadorias que saíram antes da vigência da medida e chegam até 5 de outubro.
  17. Produtos de uso pessoal: itens em bagagens de passageiros.
  18. Materiais informativos: publicações, filmes, pôsteres, discos fonográficos, fotografias, microfilmes, microfichas, fitas, CDs, CD-ROMs, obras de arte e feeds de notícias.
  19. Donativos e materiais informativos: doações de alimentos, roupas, medicamentos, livros, obras de arte, filmes e conteúdo jornalístico.

Serão taxados
  • Carnes
  • Café
  • Frutas
  •  Máquinas agrícolas e industriais (estão fora itens para a indústria de papel e celulose)
  • Móveis (foram isentados assentos e móveis de metal ou plástico usados em aeronaves civis)
  • Têxteis (fio de sisal para enfardamento e certos produtos destinados a aeronaves civis, foram excluídos da tarifa adicional de 40%)
  • Calçados


Impacto para o Brasil

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, avaliou que, apesar das exceções à tarifa imposta pelos Estados Unidos representarem um cenário menos severo do que o inicialmente projetado, os impactos sobre a economia brasileira ainda serão significativos. Segundo ele, os efeitos devem ser analisados com cautela, setor a setor, já que áreas como as de carnes, frutas e café, essenciais para o agronegócio, ficaram de fora da lista de isenções e serão diretamente afetadas pela sobretaxa.

Ceron afirmou ainda que o governo já possui um plano de mitigação pronto para responder ao tarifaço. A proposta aguarda apenas a autorização do presidente para ser anunciada e será calibrada de acordo com o grau de impacto em cada segmento da economia.

A decisão evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a dependência excessiva de poucos mercados estratégicos, como os próprios EUA. Apesar de setores como aviação, energia e derivados de petróleo terem sido poupados após articulação do governo brasileiro, produtos de alto valor nas exportações nacionais, como carne, café e frutas, ficaram de fora das exceções e agora enfrentam perda de competitividade no mercado americano. Isso ameaça diretamente o agronegócio, um dos motores da economia do país.

Por outro lado, Trump sai fortalecido do episódio: aplica uma sanção simbólica ao Brasil sem afetar setores estratégicos dos EUA e alimenta sua base política com o discurso de proteção nacional e combate a governos que ele classifica como “autoritários”. Em ano eleitoral, a medida lhe rende ganhos de imagem com baixo custo econômico interno. Para o Brasil, o tarifaço é um alerta sobre a urgência de diversificar mercados, revisar acordos comerciais e adotar uma política externa mais assertiva e técnica, menos vulnerável a choques ideológicos.


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