Nova taxa de 17% sobre o tomate mexicano atinge em cheio o consumidor e pequenos negócios, agravando cenário de inflação recorde em alimentos essenciais como carne, ovos e café
Após anos lidando com aumentos nos preços de carne, ovos e café, os consumidores dos Estados Unidos agora veem mais um item essencial subir de valor: o tomate. A fruta, base de molhos, pizzas e do inseparável ketchup, está no centro de uma nova disputa comercial que pode inflacionar ainda mais as refeições dos americanos.
Desde o dia 15 de julho, os tomates importados do México passaram a ser taxados com uma tarifa de 17%, após o governo dos EUA encerrar unilateralmente um acordo de suspensão de tarifas que vigorava desde 1996. A medida foi anunciada pelo Departamento de Comércio como uma forma de proteger os produtores norte-americanos contra o que chama de “práticas comerciais desleais”, em especial, o dumping, prática de vender produtos a preços artificialmente baixos.
O impacto, no entanto, tende a ser imediato no bolso dos consumidores. Cerca de 70% dos tomates frescos consumidos nos EUA vêm do México, especialmente no inverno, quando a produção local cai. Segundo o economista agrícola David Ortega, da Universidade Estadual de Michigan, mesmo um aumento de poucos centavos por quilo pode fazer diferença em um cenário em que a inflação já pressiona orçamentos familiares há anos.
O ketchup no fogo cruzado
O tomate é ingrediente fundamental no molho mais amado dos EUA: o ketchup. Embora marcas como Heinz usem apenas tomates produzidos domesticamente, muitos restaurantes e pequenos negócios dependem de matéria-prima mexicana. Para alguns deles, como as pizzarias e casas de massas na Califórnia, os novos preços podem ser fatais.
“Dou três meses para quebrar se isso continuar”, afirmou , à CNN Teresa Razo, dona de dois restaurantes ítalo-argentinos no sul da Califórnia. A empresária disse já ter parado de acompanhar o noticiário econômico por conta da ansiedade causada pelas incertezas. “As tarifas criaram um clima de instabilidade e medo. E não precisamos de mais disso — já temos o suficiente.”
Inflação no prato americano
A alta no preço do tomate coincide com outros aumentos significativos em alimentos básicos nos EUA. Segundo o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) divulgado neste mês:
- O preço da carne bovina subiu 10,6% em junho, em relação ao ano anterior;
- Ovos ficaram 27,3% mais caros;
- O café, 13,4%.
Diferente do tomate, esses aumentos não estão ligados diretamente às tarifas, mas a fatores como mudanças climáticas, doenças e secas. A carne subiu por conta da redução do rebanho após uma forte seca em 2022. Os ovos foram impactados pela gripe aviária. E o café sofreu com perdas de safra no Brasil e no Vietnã, principais fornecedores globais.
Ainda assim, as tarifas têm agravado o cenário. Um imposto de 10% sobre quase todos os alimentos importados encarece itens como a carne magra brasileira, usada na produção de hambúrgueres. E o presidente Donald Trump ameaça impor tarifas de até 50% sobre produtos do Brasil (incluindo carnes, laranja e suco de laranja) a partir de 1º de agosto.
Pequenos no limite
Restaurantes de pequeno e médio porte estão entre os mais afetados. Muitos não têm margem para repassar os custos ao consumidor, como é o caso da pizzaria Apollonia’s, em Los Angeles. “Já estamos pagando mais por queijo e agora teremos de arcar com tomates mais caros. Isso vai se somando”, disse o cofundador Justin De Leon, à revista Time.
Alguns empresários tentam se adaptar trocando fornecedores ou absorvendo os custos. Outros, como Teresa Razo, afirmam que, se não encontrarem rapidamente alternativas viáveis nos EUA, terão de subir os preços ou fechar as portas.
O que vem pela frente
Os efeitos mais duros das tarifas sobre o tomate devem ser sentidos a partir do outono, quando a produção nacional diminui e a dependência das importações mexicanas cresce. Enquanto isso, as tarifas alimentares começam a aparecer de forma mais visível nos relatórios de inflação e no dia a dia dos americanos.
“Este é o primeiro relatório em que os efeitos das tarifas começam a se manifestar de forma material em categorias-chave, de eletrodomésticos a alimentos”, afirmou Daniel Hornung, pesquisador do MIT, também à Time. “E não deve ser o último.”
