PATROCINADORES

Quem está no grupo de Vorcaro que vigiava autoridades e queria atacar jornalista

Rodrigo Dias
4 de março de 2026
Além do banqueiro e de seu cunhado, Fabiano Zettel, foram detidos um capanga e um PF aposentado. Um ex-diretor e um ex-servidor do BC foram alvos de busca e apreensão por envolvimento na fraude bilionária

A nova fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que nesta quarta-feira (4) colocou em prisão preventiva Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, seu cunhado, Fabiano Zettel, o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de Sicário, que atuaria como jagunço.

Também foram alvos de mandados de busca e apreensão dois funcionários corrompidos do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que repassavam informações sobre o caso. Os mandados de prisão e 15 de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais foram expedidos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O BC informou apoia as investigações, que expõem falhas graves de compliance no Master, liquidado extrajudicialmente no ano passado.

Todos tentavam atrapalhar as investigações e intimidar desafetos, atuando como grupo estruturado e criminoso para dificultar a descoberta dos mecanismo de funcionamento do esquema de venda de títulos de crédito falsos que podem somar R$ 47 bilhões, a maior quebra de uma instituição financeira na história do Brasil​.

O núcleo de vigilância era identificado nas trocas de mensagens como A Turma, formado por Roseno da Silva e Sicário, também chamado de Felipe Mourão. Eles pretendiam atacar o colunista do Globo, Lauro Jardim, cujas reportagens e notas incomodavam Vorcaro.

Com base em relatórios da PF, o ministro Mendonça descreveA Turma como: “estrutura utilizada para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse do grupo investigado, bem como pela prática de atos de coação e intimidação de pessoas”, dentre as quais concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas. Em mensagens trocadas com Mourão, o banqueiro diz ao comparsa ter que “moer essa vagabunda”, referindo-se a uma empregada que o estaria ameaçando e um ex-chef de cozinha.

Mourão teve a prisão decretada por Mendonça, que o descreveu como “responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”. Segundo as investigações, o Sicário recebia pagamentos mensais de R$ 1 milhão

Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana comandaram o Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Eles já não exercem os cargos e foram alvo de sindicância interna do BC. Santana foi quem assinou documentos enviados ao Ministério Público Federal (MPF) sobre o Master.

O papel de Zettel era pagar A Turma e os funcionários corruptos do BC, como revelam trocas de mensagens. As investigações apontam que ele atuava em conjunto com o grupo familiar, movimentando ativos ligados ao esquema criminoso com apoio de agentes públicos já investigados pelo BC. Zettel é dono de um fundo de investimentos e já havia sido alvo em fases anteriores da operação, inclusive ao tentar embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes. Ele se apresentou voluntariamente às autoridades por volta das 9h, enquanto Vorcaro.

Os dentes de Lauro Jardim

O ministro destacou a dinâmica violenta do grupo dando como exemplo também mensagens trocadas entre Mourão e Vorcaro sobre um jornalista que havia publicado uma notícia contrária aos interesses do banqueiro. Na manhã desta quarta, Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, declarou ser ele o alvo das conversas citadas na decisão do ministro. 

Em uma troca de mensagens, Vorcaro afirma: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto“, referindo-se ao jornalista.

Em outra: “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele”. Ao que Mourão responde: “Vou fazer isto.” Seguido de: “Pode? Vou olhar isso”. Vorcaro confirma: “Sim.”

“A partir de todos esses diálogos verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar fisicamente o jornalista em questão e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”, escreveu o ministro André Mendonça. 

O último integrante d’A Turma é o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Ele atuava na obtenção de informações e dados sensíveis, valendo-se de sua experiência e contatos na carreira policial. Roseno da Silva também vigiava alvos escolhidos por Vorcaro. 

Oficialmente, a PF informa investigar a prática dos seguintes crimes: 

  • crimes contra o sistema financeiro nacional, 
  • corrupção ativa e passiva, 
  • organização criminosa, 
  • lavagem de dinheiro, 
  • violação de sigilo funcional, 
  • fraude processual e obstrução de justiça.

PGR 

A Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se contrariamente às medidas solicitadas pela PF, que foram feitas em 27 de fevereiro. Mendonça deu prazo de 72 horas para parecer do órgão acusador, prazo descrito pela PGR como impossível de cumprir. 

A PGR informou ainda não ver nos pedidos “a indicação de perigo iminente, imediato, que induza à extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito”. 

Em resposta, Mendonça disse lamentar que a PGR não tenha visto a urgência das medidas, mesmo “diante da concreta possibilidade de se prevenir possíveis condutas ilícitas contra a integridade física e moral de cidadãos comuns, de jornalista e até mesmo de autoridades públicas”. 

O ministro apontou ainda para os indícios de que o grupo criminoso teve acesso a sistemas sigilosos do próprio Ministério Público e da PF, indicando “risco concreto de interferência” nas investigações. “A liberdade dos investigados compromete, assim, de modo direto, a efetividade da investigação e a confiança social na Justiça penal. Permitir que permaneçam em liberdade significa manter em funcionamento uma organização criminosa que já produziu danos bilionários à sociedade”, afirmou Mendonça. 

O que MR publicou

COMPARTILHE:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também

Em breve