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Quem é Delcy Rodríguez, a vice de Maduro que assume com aval de Trump

André Vargas
4 de janeiro de 2026
Está claro que a remoção de Maduro do poder contou com ajuda de parte da cúpula chavista interessada em preservar poder

Do virtual anonimato à posição de mulher de maior destaque no cenário político global nos próximos dias. Essa é Delcy Rodríguez, vice-presidente que assumirá o comando da Venezuela na sequência da deposição do ditador Nicolás Maduro, levado aos Estados Unidos para julgamento após um ataque na capital Caracas que o capturou. Discutir se a ação violenta teve algum respaldo jurídico se tornou um fato secundário no país sul-americano no momento, já que há muito mais em jogo.

A ordem do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela dada neste sábado (3) para que Rodríguez assuma de forma interina os poderes e funções de Maduro foi mais que uma ação de ofício prevista em lei. A decisão afirma que ela seguirá no ” cargo de Presidente da República Bolivariana da Venezuela, a fim de garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”. Ou seja, indica o que já era esperado. O ataque americano para derrubar o ditador contou com o apoio de forças internas firmemente instaladas no poder. Caso não, manter uma chavista Rodríguez no comando seria trocar seis por meia dúzia.

Mas quem é ela? Delcy Rodríguez, de 56 anos, é advogada, foi ministra das Relações Exteriores e da Comunicação e Informação de Maduro. Como chanceler, manteve contato direto com líderes estrangeiros, como Lula, Emmanuel Macron, da França, e Alberto Fernandez, ex-líder da Argentina. Na Comunicação, conheceu os meandros da propaganda e da censura da ditadura chavista, atuando com lealdade e dedicação partidária.

De uma linhagem da esquerda ortodoxa, é filha de Jorge Antonio Rodríguez, guerrilheiro marxista fundador da Liga Socialista da Venezuela. Ela tinha 7 anos em 1976, quando seu pai foi torturado até a morte na sede da Disip, a polícia política de então. O crime ocorreu justo quando o país vivia sob eleições livres e um governo nacionalista de centro-esquerda com Carlos Andrés Pérez. Seu irmão, Jorge Rodríguez, é presidente da Assembleia Nacional. Estrategista político de Maduro, se houvesse democracia na Venezuela Jorge seria uma junção do senador Davi Alcolumbre com o deputado Hugo Motta, o procurador-geral Paulo Gonet e algum torturador com laivos do general-ministro Golbery do Couto e Silva.

As comparações dão ideia do conhecimento e trânsito interno da vice que em tese cuidará da mudança de poder. Por isso, a queda de Maduro assume tons cinzentos desde o início. A começar pela legitimidade de sua remoção para julgamento no exterior. Aos olhos da opinião pública internacional, foi uma intervenção militar estrangeira ilegal, um golpe e a derrubada legítima de uma ditadura que levou um país à miséria. Mas no bairro Las Mercedes, em Caracas, que concentra as residências da cúpula chavista, está claro que Maduro foi entregue quase de bandeja pela vizinhança.

Realpolitik bolivariana

De acordo com o New York Times, enquanto Maduro se isolava e promovia bravatas, Delcy Rodríguez era apontada pela Casa Branca como uma candidata “aceitável” para uma transição mais segura e com menos derramamento de sangue. Articulada, discreta e com conexões em Londres e Paris, onde estudou, e no Texas, onde atuam parte da petroleiras estadunidenses, foi apresentada ao Departamento de Estado por intermediários venezuelanos no governo e no exílio como alguém que manteria a ordem na casa e “defenderia os investimentos energéticos americanos no país”. No terreno interno, ao longo dos anos ela construiu ligações com setores econômicos e conseguiu manter a produção de petróleo mediante negociações difíceis com outros produtores internacionais.

Em troca, preservaria parte da cúpula do governo, os militares mais cordatos, a influência da petroleira estatal PDVSA e alguns dos arranjos sociais criados desde a chegada de Hugo Chávez (1954-2013) ao poder, em 1999. Explica-se: o entranhamento do governo e das forças armadas na sociedade venezuelana é tamanho que decepar as estruturas vigentes deixaria ingovernável um país já em profunda crise econômica e social.

Delcy preencheria os requisitos melhor que candidata aparente mais óbvia, a Nobel da Paz Maria Corina Machado. Diplomatas afirmam que desde o início Donald Trump procurou um substituto a Maduro. Organizadora da campanha vitoriosa de Edmundo González nas eleições fraudadas por Maduro em 2024, Machado nunca esteve nas graças do presidente americano. Ela seria uma figura por demais mais voluntariosa e dona de opiniões próprias. E pior. Machado quase certamente enfrentaria resistência armada das milícias chavistas.

Pragmatismo adotado, faltam os ajustes. Ainda é cedo, mas logo será preciso definir se eleições livres serão marcadas, quando os presos políticos serão libertados, se e quando os exilados voltarão, se haverá uma anistia geral, como no Brasil, e se as acusações trumpistas de envolvimento do governo venezuelano com o narcotráfico se manterão ou serão esquecidas por conveniência.

O que parece certo desde ontem é que os embargos de petróleo ficarão vigentes por algum tempo, bem ao estilo negociador de Trump, que afirmou que irá “administrar” a Venezuela para recuperar os interesses petrolíferos dos EUA – assim como disse que transformaria a Faixa de Gaza em um imenso resort. Do outro lado, Rodríguez pode ter limites para sua colaboração, afinal, o chavismo persiste.

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