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Da paz à porrada em três meses

E a fase “paz e amor” do presidente Jair Bolsonaro terminou depois de um período ligeiramente superior a três meses. Iniciada no dia 18 de junho, logo após a prisão de Fabricio Queiroz, ex-assessor do filho Flavio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, acabou oficialmente no dia de ontem, quando o presidente disse a um repórter do jornal O Globo: “Vontade de encher a tua boca com uma porrada, tá?”. O que motivou a frase de Bolsonaro? Justamente uma pergunta sobre depósitos em cheques feitos por Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

A obrigação de um jornalista é fazer perguntas às autoridades. E, no início de agosto, a revista Crusoé havia revelado que Michelle recebera 21 cheques do ex-assessor entre outubro de 2011 a dezembro de 2016. Estes cheques, depositados em somas que varia de R$ 3 000 e R$ 4 000, contabilizam R$ 72 000. Não se trata de um valor astronômico, é verdade, mas contradiz a versão de que a primeira-dama havia recebido apenas R$ 40 000 pela quitação de um empréstimo feito entre a família do presidente e Queiroz.

A essa altura do campeonato, o mandatário já deveria ter percebido que o melhor é ignorar perguntas indesejáveis e usar saídas consagradas pelo ex-presidente Michel Temer e pelo ex-governador Paulo Maluf. Mesmo assim, preferiu voltar ao confronto e exibir uma agressividade típica de seus primeiros meses de governo. O presidente, contudo, incorporou o personagem Massaranduba, do extinto programa Casseta & Planeta, aquele que dizia que resolveria tudo na base do muque (o bordão deste quadro era “Vou dar porrada!”).

O aspecto grosseiro da frase chama atenção. A autoridade máxima do país acreditou mesmo que iria encerrar o assunto dessa forma? Obviamente, o efeito foi o oposto. A sentença ganhou o noticiário e acabou formando o espírito de corpo tradicional que se cria nos órgãos de imprensa quando um repórter é fustigado.

Se Bolsonaro tivesse ficado de boca fechada, a questão levantada pelo jornalista de O Globo estaria, neste momento no limbo de tentativas já feitas para provocar mandatários. O repórter, cumprindo seu dever, questionou sobre um assunto polêmico e, no fundo, deveria estar torcendo para receber uma resposta agressiva. Foi exatamente o que aconteceu. Algo que o presidente deveria ter antecipado e pensado duas vezes antes de atacar pessoalmente o jornalista.

A atitude de Bolsonaro lembra a do general Newton Cruz, ocorrida em 17 de dezembro de 1983. Naquela ocasião, a vítima foi o jornalista Honório Dantas. Cruz empurrou o repórter e mandou um “cala boca” memorável. O jornalista desligou o gravador e disse que tinha sido empurrado pelo militar. Cruz, que já se retirava do local, deu meia-volta e, possesso, agarrou o jornalista pela camiseta e o intimou a pedir desculpas, em um dos episódios mais lamentáveis já vivido entre um profissional de imprensa e uma autoridade. Quase todo o incidente pode ser conferido aqui (https://www.youtube.com/watch?v=taEmBwCLXxc).

Há duas diferenças cruciais entre este acontecimento e o de ontem. A primeira é que estávamos, em 1983, em pleno regime militar – já em ritmo de distensão política, é verdade, mas ainda uma ditadura. E Newton Cruz, conhecido por sua bestialidade, não era presidente da República e sim chefe do então Serviço Nacional de Informações, além de titular do Comando Militar do Planalto.

Bolsonaro, desde que assumiu o poder, nunca agiu exatamente como manda a liturgia de seu cargo. Sempre esteve disposto a brigar e, por pouco mais de três meses, controlou seus ímpetos e manteve um perfil discreto. Talvez, durante esse tempo todo, tenha sofrido uma grande síndrome de abstinência que explodiu na tarde de ontem, gerando um episódio vituperioso.

Não encontro na memória alguém que tenha ameaçado tão explicitamente um jornalista. No passado, também houve casos graves de desentendimentos entre mandatários e a imprensa – mas nada que envolvesse uma manifestação de agressão física. Um exemplo foi o de Luiz Inácio Lula da Silva. Irritado com um artigo publicado no New York Times, pediu a expulsão do correspondente do jornal, Larry Rohter. O jornalista escreveu que Lula “nunca escondeu sua predileção por um copo de cerveja, um shot de whiskey ou, melhor ainda, uma dose de cachaça. Mas alguns brasileiros estão considerando se a predileção do presidente por bebidas fortes está afetando sua performance à frente do governo”. Esse caso, no entanto, não deu em nada e Rohter ficou em solo brasileiro por mais algum tempo.

O impulso de Bolsonaro traz duas consequências. A primeira é que os repórteres podem caprichar ainda mais na arte de provocar, uma vez que o presidente gerou notoriedade profissional ao jornalista que o inquiriu. Por isso, daqui para frente, haverá o seguinte tipo de diálogo nas redações:

– Fulano? Nunca ouvi falar.

–  É aquele que o Bolsonaro disse ter vontade de dar porrada.

– Ah, agora sei quem é.

O outro impacto da frase de Bolsonaro está na segurança pessoal dos jornalistas no futuro. Os seguidores mais radicais do presidente são conhecidos pela agressividade. Se o líder diz que tem vontade de agredir um repórter (mas provavelmente não chega às vias de fato por conta do cargo que ocupa), o bolsonarista anônimo se sente no direito de descer o sarrafo nos profissionais de imprensa.

O ministro Fábio Faria bem que tentou segurar a natureza do presidente, mas ele se mostrou incontrolável nesse final de semana. Haverá outras recaídas? Muito provavelmente. Enquanto a agressividade de Bolsonaro se concentrar na imprensa e poupar Legislativo e Judiciário, os problemas se concentrarão apenas na área da comunicação. Porém, se as baterias forem voltadas a deputados, senadores e juízes, podemos esperar por mais solavancos no cenário político daqui para frente.

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