Relatório do UBS avalia que vulnerabilidades estruturais e risco fiscal reduzem a margem de proteção do colchão externo
As reservas internacionais brasileiras somam hoje cerca de US$ 367 bilhões, um nível que, à primeira vista, parece sólido e dentro dos parâmetros de adequação definidos pelo FMI. No entanto, relatório do UBS Global Wealth Management alerta que esse colchão externo já não oferece o mesmo conforto de anos atrás. O motivo é simples: enquanto o estoque de reservas se manteve relativamente estável, o passivo externo líquido disparou e atingiu 54% do PIB em abril de 2026, o pior nível da série histórica.
O estudo do banco, assinado por Solange Srour, Débora Nogueira e Victoria Brant-Roquett, destaca que a vulnerabilidade não está apenas no tamanho da dívida, mas na sua composição. O Brasil tem uma dependência crescente de serviços importados, especialmente em propriedade intelectual e tecnologia, o que pressiona estruturalmente a conta corrente. Além disso, o déficit em rendas primárias segue em alta, puxado pelas remessas de lucros e dividendos ao exterior. A melhora recente do saldo externo veio do petróleo, mas trata-se de um fator conjuntural, incapaz de reverter a deterioração estrutural.
Outro ponto de atenção é o financiamento do déficit. O investimento direto estrangeiro continua sendo a principal fonte, mas uma parcela significativa corresponde a empréstimos intercompanhia, que podem ser revertidos em cenários de estresse global. Os fluxos de portfólio também se mostram voláteis e sensíveis ao risco fiscal. Até mesmo os criptoativos entraram na equação: nos últimos 12 meses até abril, as saídas por stablecoins somaram US$ 23 bilhões, quase 1% do PIB.
O relatório do UBS ressalta ainda o papel do quadro fiscal na vulnerabilidade externa. Com a dívida bruta do governo geral projetada para superar 80% do PIB em 2026 e a Selic em patamar elevado, o desequilíbrio fiscal impacta diretamente a credibilidade, o câmbio e a disposição de investidores estrangeiros em manter ativos domésticos. Em cenários de estresse, esse fator pode catalisar saídas de capitais e reduzir a efetividade das reservas como proteção.
Na avaliação do banco, o Brasil não enfrenta risco imediato de crise de balanço de pagamentos. O déficit em conta corrente deve se estreitar em 2026 e as reservas continuam acima do limiar de adequação. Porém, o conforto externo está sob avaliação. O mesmo nível nominal de reservas que parecia amplamente firme há uma década hoje oferece proteção relativa menor diante de um passivo externo mais elevado, de uma conta de serviços mais deficitária e de um quadro fiscal mais pressionado.
