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As contradições dentro da esquerda

O ex-ministro Aldo Rebelo é um caso interessante de político que, com origens comunistas, é respeitados por vários militares de alta patente. Ele teve uma infância humilde, como filho de colono em fazenda do falecido senador Teotônio Vilella no interior de Alagoas. Tornou-se presidente da União Nacional dos Estudantes em 1980, já como militante do PC do B, e foi eleito deputado federal onze anos depois. Chegou à presidência da Câmara e à Esplanada dos Ministérios – sempre com o apoio do PT.

Quando ocupou o ministério da Defesa, em 2015, esperava-se atrito com generais, brigadeiros e almirantes. Afinal, ele havia sido filiado a uma organização de esquerda (Ação Popular) que pregava, nos anos 1960 e 1970, a tomada do poder através de uma guerra civil. Ocorre que Rebelo conseguiu um relacionamento sereno com as Forças Armadas e saiu da pasta admirado por muitos comandantes militares (ele deixou a sigla dos comunistas em 2017).

Nesta semana, o ex-deputado participou de uma seminário organizado pelo general Eduardo Villas Boas, que foi comandante do Exército e hoje é assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. E, em suas intervenções, foi contra duas bandeiras da esquerda.

Uma é o uso da linguagem neutra, com palavras que não refletem os gêneros masculino ou feminino (exemplo: “prezades alunes” em vez de “prezados alunos” ou prezadas alunas”). Para ele, é algo inaceitável e uma tentativa de “impor à sociedade uma outra forma de expressão da cultura”. Neste aspecto, o ex-ministro permanece fiel ao passado. Foi ele, por exemplo, que defendeu um projeto de lei que coibia o uso de estrangeirismos na língua portuguesa.

A carreira de Rebelo como parlamentar também tem um lado folclórico. Seguindo a linha nacionalista, chegou a propor que fosse instituído no Brasil o dia do Saci em 31 de outubro, para substituir o crescente costume (importado dos Estados Unidos) de se comemorar o Dia das Bruxas nessa data. Além disso, ele apresentou um projeto que proibia “a adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra”. Ou seja, o Estado deveria ficar na Idade Média para preservar os empregos de quem exercia funções ultrapassadas.

Voltando ao seminário: Rebelo também afirmou que o Brasil é um país “essencialmente mestiço” e que tentam transformá-lo em uma nação de “pretos e brancos”. Aqui, vê-se um confronto direto com muitos movimentos de esquerda, que afirmam ser o Brasil um país racista – além de um alinhamento com muitos porta-vozes da direita, que afirmam não existir preconceito racial por aqui.

Rebelo é um dos poucos políticos alinhados à esquerda que desafiam a agenda de costumes pregada por muitos militantes do PT e do PSOL – um caldeirão de ideias que, diga-se, não é restrito apenas aos petistas e psolistas, mas bastante forte dentro de determinados segmentos da população mais jovem.

Ainda não se enxerga na esquerda, porém, quem critique o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele defendeu, recentemente, controle sobre as redes sociais – quando existem regras já estabelecidas pelo Marco Civil da Internet e outras engendradas pelas próprias empresas que abrigam as redes, frequentemente acusadas pela direita e perseguir influenciadores conservadores.

Lula, ainda, deu uma entrevista ao jornal El País na qual defendeu o indefensável. Uma das jornalistas que conduziram a entrevista perguntou o que ele achava das eleições na Nicarágua, que não foram reconhecidas como legítimas pela comunidade internacional. Depois de dar algumas voltas, o ex-presidente disse o seguinte: “Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega não? Por que Margaret Thatcher pode ficar 12 anos no poder, e [Hugo] Chávez não? Por que Felipe González pôde ficar 14 anos no poder?”. A jornalista fez o contraponto imediatamente: “Mas Merkel e González não prenderam seus opositores”, lembrando que Ortega colocou na cadeira sete candidatos de oposição à presidência nicaraguense.

Mais à frente, ocorre o seguinte diálogo:

“EL PAÍS: Outro caso de limitação de direitos na América Latina foi a proibição de manifestações nesta semana em Cuba.

LULA: Essas coisas não acontecem só em Cuba, mas no mundo inteiro. A polícia bate em muita gente, é violenta. É engraçado porque a gente reclama de uma decisão que evitou os protestos em Cuba, mas não reclama que os cubanos estavam preparados para dar a vacina e não tinham seringas, e os americanos não permitiam a entrada de seringas. Eu acho que as pessoas têm o direito de protestar, da mesma forma que no Brasil. Mas precisamos parar de condenar Cuba e condenar um pouco mais o bloqueio dos Estados Unidos.

EL PAÍS: Mas, presidente Lula, é possível fazer as duas coisas: condenar o bloqueio e pedir liberdade nas ruas aos opositores.

LULA: Quem decide a liberdade de Cuba se não o povo cubano? O problema da democracia em Cuba não será resolvido instigando os opositores a criar problemas para o Governo. Será conquistada quando o bloqueio acabar”.

“Quem decide a liberdade de Cuba se não o povo cubano”? Esta frase de Lula mostra realmente que ele vive em uma realidade paralela, na qual a ilha de Fidel tem como único problema o bloqueio econômico imposto pelos EUA. Se esse embargo caísse, a democracia milagrosamente surgiria no país? Ora, faça-me o favor…

Lula não pode mais ser tratado pelos colegas de ideologia como uma vaca sagrada. O ex-presidente é pródigo em soltar suas asneiras aqui e acolá. Precisa ser advertido e criticado quando isso acontece não apenas pela direita, mas principalmente pelos democratas de esquerda. Será que Aldo Rebelo não encararia esse desafio?

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