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Exame: Bar Brahma resiste à violência no centro de SP e planeja expansão

Se é verdade que o Bar Brahma ajudou a moldar a cultura e o espírito boêmio da cidade, também é verdade que ele viu de perto as transformações do centro de São Paulo

A famosa esquina da Avenida Ipiranga com a São João, no centro de São Paulo, não fez algo acontecer só no coração de Caetano Veloso, mas de milhões de pessoas que passaram por ali nos últimos 75 anos. 

O ponto é a casa do Bar Brahma, um dos mais tradicionais da capital paulista, que vivenciou in loco encontros entre artistas como Adoniran Barbosa e Cauby Peixoto e personalidades da cidade, como os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Henrique Cardoso.

Se é verdade que o Bar Brahma ajudou a moldar a cultura e o espírito boêmio da cidade, também é verdade que ele viu de perto as transformações do centro de São Paulo. E o mais recente reflexo disso não é positivo. 

No último domingo (3), o ponto foi alvo de um ataque e tentativa de roubo, com bandidos jogando pedras no estabelecimento. O acontecimento evidenciou a sensação de insegurança que moradores e comerciantes têm tido na região central de São Paulo recentemente. De acordo com a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP), a região registra, em média, um roubo a cada 30 minutos.

Mas como um negócio histórico e tão marcante na cultura da cidade sobrevive a essa sensação de insegurança e, consequente queda de público? “Dobrando a aposta no Centro”, diz o sócio da Fábrica de Bares, empresa dona do Bar Brahma, Cairê Aoas. 

Fachada do Bar Brahma: bar é um dos mais tradicionais de São Paulo

Qual foi a primeira estratégia do Bar Brahma para atrair público 

Quando Álvaro Aoas, pai de Cairê, assumiu o ponto do Bar Brahma no início dos anos 2000, tinha um desafio imediato: resgatar o público que frequentava o estabelecimento no auge do bar, nos anos 1950 e 1960. 

“Depois, o eixo econômico da cidade saiu do Centro, indo para a Avenida Paulista e, posteriormente, para a Faria Lima”, afirma Aoas. “A esquina da Ipiranga com a São João deixou de ser o lugar onde as pessoas iam passear, ir ao cinema e ao bar. O Centro entrou em declínio e perdeu sua vocação, que era comercial e econômica”. 

Em 1998, o ponto faliu e fechou. Três anos depois, Álvaro e dois sócios assumiram o bar, fizeram uma reforma que fez com que ele voltasse a parecer com a construção dos anos 1950 e reabriram o estabelecimento. 

“Quando assumimos o bar no início dos anos 2000, era um desafio muito grande combater esse sentimento de insegurança”, diz Aoas. 

A estratégia, naquela época, para combater esse sentimento foi: 

  • Lançar o Camarote Bar Brahma, com uma oportunidade para divulgar que o bar existia
  •  Criar uma programação musical para atrair o público. Tocou no palco Jair Rodrigues, Demônios da Garoa, Ângela Maria e Cauby Peixoto. 

“Era uma forma da gente encorajar as pessoas de irem para o bar, irem para o Centro”. 

Esse histórico ajuda a mostrar que não é a primeira vez que a família Aoas precisou encontrar uma solução para reaproximar o público do centro de São Paulo. 

Qual a situação atual do Centro (e do Bar Brahma)

Mas e agora, 23 anos depois?

“Pouco antes da pandemia, vínhamos percebendo uma melhora muito significativa do Centro”, diz Aoas. “Principalmente porque o mercado imobiliário estava aquecido. Tinha vários projetos de retrofit, vários projetos imobiliários. Era um termômetro de que as pessoas estavam procurando morar no Centro”. 

“Quando veio a pandemia, tudo mudou”, continua. “Vários passos que tinham sido dados, regrediram, por uma questão social. O centro de São Paulo acolheu muitas pessoas em vulnerabilidade social, porque o Centro tem uma maior estrutura, inclusive de assistencialismo. E a pandemia potencializou uma situação de problemas sociais que a cidade tem”. 

Um dos problemas sociais e de saúde pública mais evidentes do Centro é a Cracolândia, que fica a poucos metros do Bar Brahma. Para Cairê Aoas, porém, são dois problemas diferentes: um é o da segurança pública, e o outro, social.

“A Cracolândia até passa a sensação de insegurança, mas na maioria das vezes, não é”, diz. “Os contraventores se usam dessa situação de vulnerabilidade para se camuflar e agir. É uma grande covardia. Eles se misturam, a gente vê nitidamente. Nossos seguranças até reconhecem quem é da gangue da bike. São pessoas que nem moram no centro de São Paulo, mas que vão até lá, alugam bicicletas, fazem os furtos e voltam para casa”. “Desde que assumimos o ponto, em 2001, esse é o momento mais difícil do Centro”. 

Na visão do empresário, não falta omissão por parte dos agentes públicos para resolver o problema. O que acontece, mesmo, é uma dificuldade para conseguir resolvê-los.

“O bom sinal é que há uma coordenação, interesse, várias iniciativas públicas acontecendo para fortalecer o Centro”, diz. “O governo do Estado sinalizou o interesse de mudar a sede para o Centro. A prefeitura está com políticas fiscais específicas para a região. Tem uma quantidade de retrofit acontecendo. Temos vários projetos que estão vindo, que são representativos para o movimento de ocupação”. 

Aposta na economia criativa

Mesmo com o eixo comercial e empresarial e o mercado financeiro tendo se afastado do Centro nas últimas décadas do século 20, a região resistiu. E um dos motivos para isso, na visão de Aoas, está na cultura, na gastronomia e na arte. 

“Talvez o Centro seja o lugar onde as pessoas tenham vontade de consumir esse tipo de economia”, diz. “O melhor restaurante do Brasil está lá (a Casa do Porco). Há museus, bares, restaurantes, eventos. A gente acredita que isso deva ser olhado como um plano público, para incentivar esse pilar da economia como forma de atrair mais interesse, emprego e moradia”.

Só no Centro, num raio de um quilômetro, a Fábrica de Bares, dona do Bar Brahma, tem cinco operações, que recebem 40.000 pessoas por mês.

  • Bar Brahma
  • Bar dos Arcos (no Theatro Municipal)
  • Bar Léo
  • Orfeu
  • Love Cabaret (antiga Love Story)


O valor de visitantes, porém, caiu 20% em realação ao ano passado. Aoas acredita que a insegurança na região pode ser uma das razões para isso.

Com esses bares, empregam 400 pessoas. “Se 30% disso morar no Centro, e considerarmos que há outros bares, museus, restaurantes, já se cria uma economia”, diz. “É assim que nasce a pequena padaria, as bancas de revista, os comércios”. 

Aoas se inspira em outras regiões do mundo que também aproveitaram regiões desvalorizadas para apostar em cultura e bombar. Uma delas é o Soho, em Nova York, que virou casa para diversas galerias de artes e restaurantes alternativos e hoje tem um dos metros quadrados mais caros da Big Apple. A mesma coisa com Wynwood, em Miami. 

“São regiões que se transformaram pela economia criativa”, diz. 

Como vão “dobrar a aposta”

Por conta disso, Aoas não quer desistir do Centro. Pelo contrário, quer dobrar a aposta na região. Para 2024, estão mirando em novas estratégias para atrair o público e garantir a sobrevivência do Bar Brahma por muitos anos. 

Uma das estratégias para isso é criar um calendário de grandes eventos públicos que atraiam a atenção do público. “Vamos fazer ano-novo, aniversário de São Paulo”, diz. “Queremos eventos públicos, como blocos de carnaval e esquentas. Colocar pessoas famosas cantando. Várias atividades constantes”. 

Além disso, vão abrir na Avenida Ipiranga, em construções vizinhas ao Bar Brahma, dois novos negócios associados ao bar principal. “Vamos deixar a região ainda mais charmosa, que interesse as pessoas”. 

“Essa é a nossa visão da transformação do Centro por meio da cultura, da arte e  da gastronomia”. 

Como funciona a Fábrica de Bares

O primeiro negócio da Fábrica de Bares foi o Bar Brahma. Antes disso, Álvaro Aoas empreendia operações gastronômicas na Santa Cecília. Quando o famoso ponto na Ipiranga com a São João fechou, clientes o provocaram para assumir a operação. 

Algum tempo depois de reabrir o famoso ponto no centro de São Paulo, Álvaro foi convidado a assumir outro ponto que tinha falido na mesma região: o Bar Léo. Assim o fez. Quando passou a operar mais de um bar ao mesmo tempo, surgiu a Fábrica de Bares. 

Hoje, são nove empreendimentos cuidados pela empresa:

  • Bar Brahma
  • Bar dos Arcos (no Theatro Municipal)
  • Bar Léo
  • Orfeu
  • Love Cabaret (antiga Love Story)
  • Riviera (na Avenida Paulista)
  • Blue Note (na Avenida Paulista)
  • Jacaré
  • Bar no aeroporto de Brasília



“Temos muita preocupação que cada marca tenha sua alma, sua história, sua identidade, sua personalidade”, diz. “Todo time, desde gerência, comunicação, é pensado para se relacionar com a comunidade que vive no entorno daquela marca”. 

No caso do Bar Brahma, o primeiro da empresa, há quem pense que tenha alguma associação com a Ambev, dona da cerveja de mesmo nome. Mas a única associação, mesmo, é uma parceria. 

“Não somos sócios da Ambev, nem pagamos royalties”, diz Aoas. “Há uma concessão da marca e a cerveja é nossa parceira em muitos projetos que tocamos”. 

Além dos bares, a empresa tem apostado também em inovação. Durante a pandemia, criaram um hub de inovação que faz startups. Duas já estão no mercado. Uma é um market place para bares encontrarem músicos para tocarem em seus estabelecimentos. Outra, semelhante, é para os bares e restaurantes encontrarem profissionais freelancers para trabalharem nos pontos. 

Inovação também está na mesa de um dos bares mais tradicionais e históricos da cidade.

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Por Daniel Giussani

Publicado originalmente em: bit.ly/3RxCQkz

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