País tem uma das maiores reservas globais e crise atinge região que concentra um terço da produção global
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã trazem também uma preocupação econômica, já que um conflito no Oriente Médio poderá mexer com o preço do petróleo global.
A região é um dos principais centros de produção de petróleo do mundo. Em 2024, forneceu 30% da oferta global do produto, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA).
O efeito do conflito sobre os preços dependerá dos desdobramentos das ações, que ainda estão incertos. Os EUA prometeram uma operação ampla, com o objetivo de derrubar o regime que governa o Irã. Uma primeira onda de ataques foi feita neste sábado, 28, pela manhã. Em seguida, o Irã revidou, com disparos de mísseis contra Israel e bases americanas em países como Qatar e Bahrein.
O preço do barril do tipo Brent estava em US$ 72 na sexta-feira e acumula alta de 14,35% nos últimos três meses. Como o ataque ocorreu no sábado, os maiores efeitos deverão ser sentidos na segunda-feira.
A última grande alta do petróleo ocorreu no início da Guerra da Ucrânia, em 2022, quando o barril superou US$ 100. A Rússia é um grande produtor de petróleo, e passou a ser alvo de sanções, o que impediu as vendas para EUA e Europa.
“É possível que o petróleo suba no curtíssimo prazo por conta do choque geopolítico e do aumento da incerteza, mas, em um cenário de normalização política e reintegração maior do Irã ao mercado internacional, a oferta global poderia aumentar no segundo semestre, pressionando o preço de equilíbrio para baixo”, diz Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.
Embora os ataques, até agora, não tenham afetado locais de produção, eles podem dificultar o escoamento do petróleo.
A operação coloca em risco o trânsito de navios petroleiros pelo Estreito de Hormuz, uma das principais rotas de escoamento de petróleo rumo à Europa, à Ásia e a outros destinos. No entanto, a região teve ataques e confrontos nos últimos meses em diversas ocasiões, sem que isso gerasse alterações de longo prazo nos preços.
Qual a produção de petróleo do Irã?
O Irã possui uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, com cerca de 10% das reservas mundiais de petróleo e aproximadamente 15% das reservas de gás natural.
Este setor é o principal pilar da economia, pois representa, direta ou indiretamente, até 30% do PIB, e uma proporção muito maior da receita por exportações e da renda estatal.
Em 2017, período em que se intensificaram sanções contra o Irã, o país produzia cerca de 4,1 milhões de barris de petróleo por dia. Em 2026, essa produção está na casa de 3,2 milhões de barris diários, ou seja, quase um milhão a menos.
“Diferentemente do que ocorreu com a Venezuela, cuja infraestrutura petrolífera sofreu deterioração significativa ao longo dos anos, a estrutura iraniana permanece operacional”, diz Cruz.
“Isso significa que, caso haja mudança no ambiente político e redução das sanções, o Irã teria capacidade relativamente rápida de ampliar novamente sua produção para níveis superiores a 4 milhões de barris por dia”, afirma.
Excesso de oferta
O aumento da produção do Irã, no entanto, chegaria a um mercado onde há excesso de oferta. Segundo a IEA, em 2025, foram produzidos 106 milhões de barris de petróleo no mundo, e a demanda foi de 103,9 milhões de barris.
A queda na demanda se deve tanto ao esfriamento da economia em vários países quanto ao avanço da mobilidade elétrica.
“Os três principais combustíveis — diesel, gasolina e querosene de aviação — que representam cerca de 60% da demanda global de petróleo, só agora estão a atingir consistentemente os seus níveis máximos pré-pandemia, uma vez que as condições econômicas desfavoráveis, combinadas com o aumento da eficiência dos veículos e a eletrificação, criam obstáculos formidáveis”, afirmou a agência, em relatório no final de 2025.
Ao mesmo tempo, a produção tem aumentado em outros países, como os Estados Unidos e a Argentina, com o uso da tecnologia de fracking. Novos campos no mar, em países como Brasil e Guiana, também ampliaram a oferta, o que reduziu a dependência global do Oriente Médio.
“As novas formas de produção de energia fóssil fazem com que aquele medo que existiu nos anos 1970 e a necessidade de controlar esses países [do Oriente Médio] para manter a economia, o fluxo econômico mundial e o capitalismo não sejam mais o mesmo cenário”, diz Luiza Cerioli, pesquisadora sênior da Universidade de Kassel, na Alemanha, e especialista em Oriente Médio.
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Por Rafael Balago
Publicado originalmente
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