Produtora do Pérgola, rótulo recordista em vendas no Brasil, vinícola expande projeto de enoturismo com a chancela da marca que já conquistou uma medalha de ouro no Decanter Awards
Visto de longe, o edifício de paredes amareladas adornado por ciprestes e videiras mais parece uma villa toscana. Mal se percebe que em seu interior funciona uma vinícola de onde saem 45 milhões de garrafas do vinho de mesa Pérgola, o mais vendido do Brasil por 12 anos consecutivos. A marca líder de mercado é o motor de uma complexa engrenagem que vem transformando a região de Vacaria, quase na divisa com Santa Catarina. Ali, as pastagens destinadas à criação de gado deram lugar a plantações de frutas, como amora, mirtilo, maçã e uva, fazendo brotar uma nova era do agronegócio gaúcho. Agora, essa mudança de paisagem começa a ser redefinida pelo vinho.
“A viticultura aqui nos Campos de Cima da Serra tem menos de 30 anos, mas já apresenta ótimos resultados”, diz o enólogo André Donatti, gerente-geral da Vinícola Campestre, dona das marcas Pérgola e Zanotto. Desde o ano 2014, a empresa possui uma unidade em Vacaria, onde ocupa um antigo frigorífico. Graças à produção vitivinícola, a cidade famosa pelo rodeio que anualmente atrai 500 mil pessoas está se tornando também um polo enoturístico.

O pioneiro desse movimento foi Raul Augusto Randon, empresário do setor de implementos rodoviários que criou a RAR, dedicada a vinhos finos, azeites, queijos e embutidos, entre outros produtos gourmet. Em 2015, o caminho aberto por Randon foi seguido por João Zanotto, dono da Campestre, que naquele ano plantou por ali seus primeiros vinhedos de uva merlot.
Hoje, quem visita a vinícola em Vacaria observa uma enorme grua de construção civil instalada ao lado dos parreirais. O equipamento está ali para mover as cargas de uma edificação que terá 8 andares. As primeiras lajes de concreto já podem ser vistas do terraço da vinícola, onde ocorrem as degustações para visitantes. Até 2028, a construção que emerge do solo argiloso deverá estar concluída. À margem da BR-116, será o maior hotel de alto padrão da região, com 120 suítes (incluindo dez residências), piscinas climatizadas, spa e sala de cinema.
João Zanotto explica seu investimento em hotelaria com um exemplo numérico: “Teremos uma festa de casamento para 300 convidados no próximo sábado, aqui na vinícola. Muitas dessas pessoas não têm onde se hospedar na cidade”. Além de sediar eventos sociais e corporativos, a Campestre recebe cerca de 500 visitantes por mês – pouco para o que pode ser visto. “Com o hotel, esse número tende a crescer bastante. O potencial do turismo na nossa região é imenso e ainda pouco explorado”, resumiu Zanotto durante um jantar para jornalistas na ala de eventos da vinícola.
O hotel que começa ganhar forma ao lado dos vinhedos é mais uma etapa na consolidação do ecossistema que o empresário desenvolve a partir da pequena vinícola fundada por seu pai, em 1968, na pequena Campestre da Serra (3,4 mil almas), vizinha a Vacaria. No início, a produção era modesta e todo o trabalho feito de forma artesanal. Hoje, 840 famílias fornecem à empresa cerca de 60 mil toneladas anuais de variedades como bordô, isabel e moscato. As frutas são processadas para virar vinhos de mesa, espumantes e sucos de uva, em um mix de aproximadamente 50 produtos. Os preços partem de R$ 11,90 (suco de uva Pérgola 500 ml) e chegam a R$ 659 (Brandy Zanotto 50 anos).

A guinada em direção aos produtos de alto valor agregado começou em 2000, com a aquisição de um frigorífico desativado em Vacaria. Com 10 mil metros quadrados de área construída, o prédio fica em uma propriedade de 84 hectares (dos quais 33 já correspondem a vinhedos) e foi adaptado para abrigar um complexo industrial. A reforma resultou em uma vinícola moderna, com capacidade para envasar 190 mil litros de vinho por dia. A vocação para o enoturismo foi se desenvolvendo aos poucos, até chegar à forma atual. E impressiona tanto pelo tamanho quanto pela beleza das instalações.
Há uma cave subterrânea com milhares de barricas, pupitres onde repousam garrafas de espumantes e atrativos pensados para criar uma experiência memorável. Equipamentos antigos, garrafas e fotos que contam a história da empresa desde sua origem foram organizados em um museu. Uma parede inteiramente esculpida em pedra conta a saga da imigração italiana por meio de uma apresentação multimídia com locução, música e luzes. No espaço de eventos, uma ala ganhou 600 mil tijolos de demolição que criaram uma cúpula interna com arcadas de linhas renascentistas (imagem de destaque). “Eu peguei um pouco de inspiração de cada uma das vinícolas que visitei na Itália e em outros países”, diz Zanotto.
As viagens ao exterior são frequentes e não apenas a lazer. A empresa fatura em torno de R$ 500 milhões anualmente, boa parte vinda de exportações. Só os Estados Unidos compram 400 mil garrafas por ano. A Guiana, 240 mil. Até países da África, como Nigéria e Gana, bebem Pérgola.
Nossa Senhora da Uva
A visita à Vinícola Campestre não se limita à fábrica e aos parreirais, com 14 variedades de uvas viníferas originárias da França e da Itália. O restaurante Villa Campestre oferece menus sazonais harmonizados, com uma gastronomia criativa e saborosa. Dedicada à Nossa Senhora da Uva, uma capela de pedra separa o restaurante do galpão de madeira que reproduz um Centro de Tradições Gaúchas (CTG). A vista é para o lago natural ornamentado com uma escultura que emula o momento de abertura de uma garrafa de espumante – só que em escala colossal. Ciprestes típicos da Toscana pontuam o paisagismo, com alamedas cobertas por pergolados de uvas de mesa que podem ser colhidas livremente pelo visitante durante a safra.

Enquanto a Pérgola segue como líder absoluta em vendas, os vinhos da linha Zanotto, elaborados com uvas viníferas de produção própria, têm conquistado a crítica internacional. Em menos de dez anos, esses rótulos ganharam mais de 200 prêmios, incluindo medalhas de ouro em concursos prestigiados como o Decanter World Wine Awards (Inglaterra) e o Mondial du Merlot (França).
À frente dessas conquistas está o trabalho meticuloso do enólogo André Donatti, eleito o melhor do Brasil em 2024 pela Associação Brasileira de Enologia. Há 20 anos na Campestre, ele lidera uma equipe encarregada de promover a constante evolução de qualidade da empresa. “Nossos vinhedos estão a mais de 900 metros de altitude e uma das características dessa região é a amplitude térmica, com a temperatura podendo cair de 30º C durante o dia para 12ºC à noite”, diz Donatti. Essa variação é fundamental para que as uvas amadureçam mais lentamente, de forma a aportar aromas e estrutura ao vinho. Em alguns invernos rigorosos, chega a nevar em Vacaria.
Para Donatti, as variedades que melhor se adaptaram ao clima da região foram sauvignon blanc, pinot noir e merlot. “A gente acabou fazendo outras apostas, como sangiovese, rebo (cruzamento das variedades merlot e teroldego) e agora montepulciano”, afirma. O resultado desse trabalho de criação é um novo terroir brasileiro que em breve deverá ser reconhecido com o selo de Denominação de Origem.

Há várias opções de degustação. A premium inclui quatro rótulos e é conduzida pela jovem enóloga Amanda Lessa. São servidas amostras do Chardonnay Gran Reserva (12 meses de estágio em carvalho), do Pinot Noir Reserva, do criativo Roots Rebo (com fermentação integral, 18 meses em barrica sem filtração) e do espumante brut 100% Chardonnay, elaborado pelo método tradicional.
Para quem quer provar esses e outros vinhos sem ter de ir até Vacaria, há uma loja da Vinícola Campestre em São Paulo que oferece degustação de todos os rótulos (Av. Pedroso de Morais, 1047, Pinheiros). “A melhor forma de entender o que fazemos é provando”, diz Donatti. Ousado, ele elaborou em 2020 (a “safra das safras” no Brasil) o ícone Troppo Maturo combinando uvas merlot e tannat desidratadas naturalmente nos cachos colhidos de forma tardia. O vinho permaneceu 34 meses em barrica e mais um ano em garrafa antes de ser comercializado (R$ 479,90). A safra seguinte já está nas barricas há 39 meses.
Em tempos de mercados globais cada vez mais competitivos, a história de João Zanotto e da Campestre comprova que o vinho brasileiro pode encontrar seu espaço, seja no paladar dos milhões de consumidores acostumados ao sabor suave do Pérgola, seja no mapa-múndi dos rótulos aclamados. É uma história que combina tradição, inovação e uma excepcional visão de mercado – e à qual novos capítulos são escritos todos os dias.
