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O ícone Lázaro Brandão

O ícone Lázaro Brandão

Conheci Lázaro Brandão há muitos anos. Para se ter uma ideia, Luiz Carlos Trabuco era diretor de marketing do Bradesco e ainda não tinha quarenta anos de idade. Trabalhava na revista EXAME, naquela época, e tínhamos um estudo que antecipava o ranking de Melhores & Maiores para o setor financeiro. Ao olhar os indicadores de performance das grandes instituições, sugeri uma reportagem de capa com o “seu” Brandão — como ele era conhecido dentro da instituição.

Conversei com o Trabuco e marcamos uma longa conversa com presidente. Era um tempo em que o Bradesco era ainda mais espartano que hoje. Havia pouquíssimas salas de reunião e todas estavam tomadas. Além disso, o espaço comum geralmente utilizado para entrevistas — um salão contíguo à sala do Conselho — estava ocupado por um evento. O único lugar que sobrara era uma mesinha que ficava num corredor interno. E foi lá que fizemos a entrevista.

Já havia conversado com o presidente do Bradesco algumas vezes. Mas sempre para tomar seu depoimento sobre alguma questão macroeconômica, falar do sistema financeiro ou dos resultados do banco. Seria a primeira vez que teria de arrancar daquele senhor discretíssimo algo de sua vida pessoal.

Se tivesse nascido nos Estados Unidos, ele seria visto como um exemplo incontestável de self-made man, alguém que entrou para uma organização como office-boy e coroou sua carreira com os postos de CEO e Chairman, mesmo numa era em que estes anglicismos não estavam em moda. Ocupou uma posição executiva até o final. Seu último posto foi o de Presidente das empresas controladoras do Bradesco.

De uma simplicidade extremada, Brandão dificilmente era visto num restaurante de moda ou de cardápios estrelados. Para ele, não havia “pasta” ou “spaghettti”. Ele gostava mesmo era de uma “macarronada”.

Nascido em Itápolis, no interior de São Paulo, adorava passar seu tempo de folga em sua fazenda. E tinha uma predileção especial: “Gosto muito de agricultura”, dizia.

Apesar de ser guindado à posição máxima do banco, tinha uma reverência mítica em relação ao fundador do Bradesco, Amador Aguiar. Após aquela entrevista no corredorzinho, “seu” Brandão quis me apresentar a Aguiar. Me levou ao espaço onde estava ocorrendo um evento do banco e puxou o fundador de lado. Cochicharam alguma coisa que, dias depois, ao juntar “lé” com “cré”, descobrir que estavam comprando de Naji Nahas uma grande carteira de ações por um preço “interessante” (o investidor precisava de recursos pois estava numa posição difícil na Bolsa de Valores do Rio. Mais tarde, Nahas não honraria o pagamento de um cheque e uma grande crise se instalaria no mercado — mas isso é outra história).

Aguiar olhou rapidamente para Brandão e acenou afirmativamente com a cabeça. Naquele segundo, foi possível perceber a cumplicidade e a parceria de uma dupla que havia dividido o escritório e os negócios por mais de 50 anos. “Seu” Brandão me apresentou ao “chefe” e disse que eu estava escrevendo uma reportagem “muito bonita” sobre o Bradesco. Aguiar olhou para mim e cutucou Brandão: “Novo demais para ser seu amigo”. A resposta: “Ele é amigo do Trabuco!”. Todo mundo riu e nos despedimos. Já no elevador, o então diretor de marketing me disse, entre risadas: “Tá vendo? Se sair alguma coisa ruim, a culpa será minha”.

Não havia nenhuma razão para falar mal deles. Estávamos divulgando o ranking dos bancos e o Bradesco havia sido a instituição de grande porte com maior crescimento no mercado. No dia seguinte à publicação, recebi um telefonema de uma voz extremamente formal: “O senhor Lázaro de Mello Brandão gostaria de falar com o senhor Aluizio Falcão”. Aguardei e ele veio à linha. “Falcão, como vai?”, começou. “Gostei muito da matéria,viu? Você fez o melhor elogio que poderíamos receber: em vez de adjetivos, apenas números…”. Agradeci e ele me pediu os dados completos do estudo, elaborado então pelo professor Stephen Kanitz. Mandei os dados (um monte de páginas de impressora matricial) e falamos mais algumas vezes. Sempre com grande formalidade, mas jamais com frieza.

Um banqueiro à moda antiga, daqueles que sentiremos falta e sempre admiraremos.

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