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O CEO Improvável: Carl Bernstein

O CEO Improvável: Carl Bernstein

O CEO Improvável desta semana é um ídolo do jornalismo, pelo menos para mim: Carl Bernstein, um dos autores das reportagens sobre o caso Watergate, que levou à renúncia do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. Por que Bernstein e não Bob Woodward, o repórter da primeira reportagem a respeito do tema e o jornalista que descolou a fonte secreta mais conhecida do jornalismo mundial, de codinome “Garganta Profunda”? Woodward tem inúmeros méritos nessa apuração. Mas foi Bernstein quem conseguiu, com um texto enxuto e fácil, explicar uma situação intrincada aos leitores. Ele também logrou amaciar as fontes oficiais importantes para o acompanhamento do caso e negociou a publicação das reportagens da dupla com a chefia do Washington Post. Por fim, fez a redação final do livro que é um dos maiores best-sellers mundiais, “Todos os Homens do Presidente”, transformado em filme pelo cineasta Alan J. Pakula (na película, Woodward e Bernstein são interpretados respectivamente por Robert Redford e Dustin Hoffman).

Bernstein pode ser considerado o CEO do caso porque tomou as rédeas da apuração e conseguiu a publicação dos artigos. Trouxe habilmente o editor executivo do Washington Post para dentro da investigação e teve a iniciativa de contar a ele a identidade do informante (hoje, sabe-se que quem municiava os repórteres de informações sobre o caso era o então vice-presidente do FBI, Mark Felt). Além disso, antes de todos, Bernstein ligou os pontos e concluiu que a invasão do escritório do Partido Democrata, no prédio Watergate (daí o nome do caso), deveria ter sido obra da Casa Branca. Desde o início, apostou que Nixon estava envolvido da cabeça aos pés no escândalo. E estava certo.

Oriundo de uma família de intelectuais de esquerda, ele próprio é um democrata mais próximo ideologicamente de Bernie Sanders do que de John Kennedy (sim, a distinção de CEO Improvável às vezes vai para esquerdistas – Oscar Niemeyer é um exemplo disso). Seu último livro foi justamente uma biografia de Hillary Clinton. Publicado em 2007, um pouco antes de a ex-primeira dama disputar a indicação do Partido Democrata com Barack Obama, o livro pega relativamente leve com ela, mas ressuscita alguns esqueletos no armário do marido Bill.

O jornalista foi casado com uma das maiores roteiristas e diretoras de Hollywood, Nora Ephron. O script de “Harry e Sally – Feitos Um para o Outro”, por exemplo, é dela. “Sintonia de Amor”, aquele romance em que Tom Hanks e Meg Ryan só se encontram na última cena do filme, tem Ephron na direção. Durante quatro anos, os dois formaram um dos mais badalados casais americanos.

A união terminou quando Ephron descobriu, durante sua segunda gravidez, o caso de Bernstein com a jornalista Margaret Jay, filha do ex-primeiro ministro da Inglaterra, James Callaghan. A história virou enredo de um filme de sucesso, com Meryl Streep e Jack Nicholson, “A Difícil Arte de Amar”. Ou seja, Carl Bernstein teve a sua pulada de cerca vista por mais de 50 milhões de pessoas. Ouch.

Dez anos atrás, assisti a uma palestra ministrada por ele sobre jornalismo investigativo. Ao final, com a cara de pau que Deus deu aos jornalistas, fui tentar uma conversa. Cheguei, me apresentei, e falamos um pouco sobre as diferenças entre os veículos americanos e brasileiros. Ai, reuni um pouco de coragem e disse que tinha escrito um livro de ficção, dois anos antes, e que havia baseado um personagem nele.

Na mesma hora em que ouviu isso, ficou tenso e perguntou como era o personagem. Disse que era um jornalista de Washington, veterano, e que aparecia como o mentor do personagem principal. “Mas você escreveu sobre a vida pessoal deste jornalista?”, questionou ele. Disse que não. Percebi um certo alívio por parte dele. Neste momento, vi que algumas pessoas nos cercavam. Me despedi e deixei que os outros falassem com o palestrante. Mas achei aquela reação estranha.

Só fui entendê-la anos depois, quando li a respeito de sua vida pessoal e assisti a um documentário sobre Nora Ephron. Vi inclusive um depoimento do filho que versava sobre como a exposição pública de sua traição conjugal tinha trazido muito sofrimento e angústia, perseguindo-o durante anos. Naquele bate-papo casual, Bernstein, por um instante, deve ter achado que eu havia usado aquele episódio para retratar um jornalista mulherengo e inescrupuloso.

Se ele tivesse ideia de como eu admirava seu trabalho, jamais teria se preocupado com isso. Afinal, Carl Bernstein está em meu panteão particular dos profissionais de imprensa, assim como Gay Talese, Tom Wolfe, Elio Gaspari e Walter Cronkite. Ao olhar para estes jornalistas, dificilmente verei seus defeitos. Sei que eles existem. Mas prefiro me inspirar em suas conquistas incomparáveis. Além disso, estes cinco nomes me ensinaram, direta ou indiretamente, a deixar sempre acesa uma chama que é importantíssima a qualquer editor: manter intacta a alma de repórter. Sem a curiosidade, inquietude e sagacidade que são necessárias a essa profissão, Bernstein e outros grandes nomes não teriam chegado a lugar algum.

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