Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
Antídoto potencial para abuso de paracetamol
Na semana anterior, um estudo provou novamente que o risco de autismo por uso de Tylenol (paracetamol) segue uma lenda urbana, apesar da crença de alguns. Um estudo da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, porém, mostra que a overdose por esse medicamento amplamente utilizado para dor e febre é real, recorrente e bem documentada.
De acordo com Kennon Heard, do Departamento de Medicina de Emergência da CU Anschutz e chefe da seção de toxicologia médica do departamento, o envenenamento por paracetamol é uma das principais causas de hospitalização e morte relacionadas a medicamentos sem receita nos Estados Unidos, com estimados 56 mil casos anuais e 2,6 mil hospitalizações.
O paracetamol é responsável por quase metade de todos os casos de insuficiência hepática aguda nos EUA e por aproximadamente 20% dos transplantes de fígado. Heard estuda o problema há mais de 25 anos e ajuda a liderar um ensaio clínico de longo prazo que testa uma nova maneira de reduzir os danos em casos graves. A abordagem experimental é fora da bula, utilizando um medicamento normalmente administrado a pacientes intoxicados por anticongelante.
O antidoto acetilcisteína eficaz só funciona bem quando administrado precocemente. Se o tratamento começar mais de oito horas após a overdose, a eficácia despenca. “Há casos em que as pessoas tomam paracetamol em excesso acidentalmente”, diz. “Ou talvez estejam com uma dor de dente muito forte e pensem que, se dois comprimidos são bons, quatro são melhores, oito são ainda melhores. Ou então, tomam doses excessivas repetidas”.
No ensaio clínico, Heard e colegas se concentram no fomepizol, aprovado para tratar envenenamento por etilenoglicol e metanol, substâncias comumente encontradas em anticongelantes. O medicamento bloqueia enzimas, impedindo que o corpo converta etilenoglicol e metanol em subprodutos tóxicos. A possibilidade é que o fomepizol junto ao tratamento padrão com acetilcisteína possa reduzir os danos hepáticos em pacientes de alto risco após overdose de paracetamol.
Misterioso surto de sarna no Reino Unido

Doença descrita desde o primeiro século da era cristão, a sarna deveria ser um mal do passado diante do afastamento da criação de animais das áreas urbanas, saneamento básico e avanços da medicina. Mas por razões ainda desconhecidas, ingleses passaram a sofrer com a infestação desses ácaros microscópicos que penetram na pele para depositar ovos que ao eclodir causam coceira intensa e lesões cutâneas.
Desde a pandemia o número de casos cresce sem parar. Um relatório de 2024 da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido constatou aumentos anuais desde 2021, com um crescimento significativo a partir de 2023. Para piorar, a sarna é por vezes confundida com alguma doença sexualmente transmissível (DST), já que a virilha é uma das áreas mais castigadas. A agência analisou os casos nos serviços de saúde sexual, constatando um aumento de 44% nos diagnósticos entre 2023 e 2024 (4.872 em 2024, contra 3.393 no ano anterior). Os anos que antecederam a pandemia registaram uma média relativamente estável de 1,5 mil casos anuais. As restrições à socialização durante a pandemia levaram a uma diminuição ainda maior.
O desafio é entender o que veio depois. Dados do Centro de Pesquisa e Vigilância do Royal College of General Practitioners mostram um aumento especialmente nos meses de outono e inverno, quando as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados e retornam às escolas e universidades. Os registros permanecem mais altos que a média nacional dos últimos cinco anos, quase dobrando nos últimos quatro meses de 2025. A intensidade é maior no norte da Inglaterra, onde o frio é maior.
A doença é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis , invisível a olho nu, que penetra na pele a uma velocidade de 0,5 a 5 mm por dia. Ali, as fêmeas depositam seus ovos, que eclodem após três a quatro dias. Os sintomas podem levar de quatro a seis semanas para se desenvolver – permitindo que os ácaros permaneçam ocultos justo na fase que deixam os infectados mais contagiosos. Depois surgem sintomas na virilha, mãos, punhos, axilas, cotovelos, entre os dedos e dobras do corpo. A transmissão é por contato com a pele e por compartilhamento de roupas de cama, toalhas e vestuário. Animais não fazem a transmissão.
O tratamento é até simples, mas exige planejamento das famílias e parceiros íntimos, que devem seguir as prescrições simultaneamente. Cremes (permetrina) ou loções precisam ser aplicados em todo o corpo, assim como uso de ivermectiva via oral. Para evitar recontágio, as roupas precisam passar por uma higiene rigorosa, com lavagem em água quente (+ de 60°C) e secagem em alta temperatura. Itens não laváveis precisam ficar lacrados em sacos plásticos por 72 horas, até que ácaros morram. O trabalho e a escola podem ser retomados assim que o tratamento começar.
É provável que os ingleses sejam afetados por um conjunto de causas. As suspeitas são demora na procura por ajuda médica, erros de diagnóstico, tratamento errado (confusão com DST) e falta de medicamentos nas farmácias.

A próxima fruta saudável a virar tendência é a chinesa fruta-do-monge

Conhecida como luo han guo (Siraitia grosvenorii) e fruta swingle, a fruta-do-monge foi alvo de um estudo publicado no Journal of the Science of Food and Agriculture sobre como seus compostos químicos específicos podem contribuir para a saúde.
Trepadeira de longa vida da família das cucurbitáceas, a mesma do pepino e da abóbora. Nativa do sul da China, onde é usada há séculos em alimentos e remédios tradicionais. Seu fruto tem atraído a atenção da comunidade científica por conter altos níveis de antioxidantes, substâncias que ajudam a proteger as células dos danos ligados ao envelhecimento e algumas doenças crônicas.
O estudo sugere que seu uso pode ir além de um substituto do açúcar. Casca e polpa contêm uma rica mistura de compostos bioativos que podem ser utilizadas em alimentos e suplementos no futuro. Diferentes variedades oferecem perfis químicos distintos.
Uma das características é a abundância de metabólitos secundários, substâncias químicas naturais das plantas que não são essenciais para o crescimento básico, mas que frequentemente desempenham efeitos benéficos à saúde humana. Neste caso, os pesquisadores concentraram-se em três grupos principais: terpenoides, flavonoides e aminoácidos.
Os terpenoides são compostos comuns em plantas que podem ter propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. A outra grande classe de compostos, os flavonoides são conhecidos por sua capacidade de promover a saúde cardiovascular e metabólica. Já os aminoácidos são essenciais para a reparação de tecidos e a função imunológica.
O que MR publicou
- Genéricos de GLP-1 devem ampliar mercado bilionário no Brasil
- Amazon amplia oferta de remédios para emagrecimento nos EUA
- Sinovac inicia produção no Brasil e prevê vacinas até 40% mais baratas
- Nvidia e Eli Lilly formam parceria de IA de US$ 1 bi
Anvisa aprova injeção preventiva semestral ao HIV

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na segunda-feira (12) o uso do medicamento Sunlenca (lenacapavir) para prevenção do HIV-1, como profilaxia pré-exposição (PrEP). O fármaco tem alta eficácia contra o vírus e, além da apresentação em comprimidos para uso oral, está disponível como injeção subcutânea que só precisa ser administrada a cada seis meses, o que facilita a adesão.

A indicação é destinada a adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg, que estejam sob risco de contrair o vírus. Antes de iniciar o tratamento, é obrigatório realizar teste com resultado negativo para HIV-1.
Os estudos clínicos apresentados demonstraram 100% de eficácia na redução da incidência de HIV-1 em mulheres cisgênero; além de 96% de eficácia em comparação com a incidência de HIV de base e 89% superior à PrEP oral diária.
O regime de injeções semestrais mostrou boa adesão e persistência, superando desafios comuns em esquemas diários, informou a Anvisa. O Sunlenca é um antirretroviral que atua inibindo múltiplos estágios do HIV-1, tornando-o incapaz de sustentar a replicação.
A agência advertiu que, embora o registro tenha sido concedido, o medicamento depende ainda da definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Sua disponibilização no Sistema Único de Saúde (SUS) será avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e pelo Ministério da Saúde.
Cidades do SP, MG e CE vacinam contra dengue com dose única

As cidades de Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) iniciaram a vacinação-piloto com o imunizante de dose única contra a dengue desenvolvido pelo Instituto Butantan. Nesta primeira etapa, 204,1 mil doses serão distribuídas nas 3 cidades. O quantitativo é considerado suficiente para a massa da população-alvo, composta por cidadãos com idade entre 15 e 59 anos. Em Botucatu (80 mil doses), a vacinação começou neste domingo (18), em Maranguape (CE) e Nova Lima (64 mil) e Maranguape (60,1 mil), no sábado (17).

A Butantan-DV é a primeira do mundo em dose única, o que permite uma imunização mais rápida da população e redução dos custos e da logística de aplicação. O imunizante é tetravalente, desenvolvido para proteger contra os quatro sorotipos conhecidos do vírus.
Os resultados serão acompanhados durante um ano. Metodologia semelhante já foi adotada em Botucatu na avaliação da efetividade da vacina contra a covid-19. Se forem positivos, será iniciada a produção em massa. O Butantan já fabricou 1,3 milhão de doses, podendo chegar a chegando a 30 milhões até o fim do ano. A partir de fevereiro será realizada a imunização de públicos prioritários, começando pelos profissionais da atenção primária à saúde (médicos, enfermeiros e agentes comunitários).
Segundo o Ministério da Saúde, com a transferência de tecnologia entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa WuXi Vaccines, a vacinação será gradualmente ampliada para todo o país. “Com a Butantan-DV, São Paulo entrega ao Brasil uma vacina 100% nacional, em dose única, que facilita a adesão e amplia a proteção. Os estudos que embasaram o registro mostram eficácia global de 100% contra hospitalizações”, afirma Eleuses Paiva, secretário estadual de Saúde de São Paulo.
