Com a queda de patentes e preços mais baixos, medicamentos à base de semaglutida aceleram a expansão do segmento e ampliam oportunidades para redes de farmácia e farmacêuticas
A expiração da patente da semaglutida, prevista para março, deve abrir espaço para a entrada de versões genéricas e ampliar de forma significativa o mercado de medicamentos à base de GLP-1 no Brasil. A avaliação consta em relatório do Itaú BBA, que aponta potencial de crescimento semelhante ao observado nos Estados Unidos, onde a categoria já se populariza rapidamente.
Segundo o banco, o mercado global de GLP-1 pode superar US$ 160 bilhões até 2030. No Brasil, o segmento já movimenta cerca de R$ 10 bilhões, sem considerar o mercado informal. A expectativa é que o aumento da oferta, aliado à redução de preços, acelere ainda mais a penetração desses medicamentos no país.
Redes de farmácia devem ganhar espaço
O relatório destaca impactos relevantes para as grandes redes farmacêuticas. O Itaú BBA estima que os medicamentos GLP-1 devem representar cerca de 20% da receita em 2030 de companhias como RD Saúde, Pague Menos e Panvel, ante aproximadamente 8% atualmente. Em um cenário mais otimista, a categoria pode adicionar entre 12% e 15% ao lucro por ação em 2027.
Com esse pano de fundo, o banco revisou projeções e recomendações. Para a RD Saúde, a estimativa de lucro líquido em 2026 foi elevada em 2%, para R$ 1,7 bilhão, com recomendação market perform. No caso da Pague Menos, a projeção de lucro subiu 23%, para R$ 389 milhões, com recomendação outperform e preço-alvo de R$ 8 ao fim de 2026. A Panvel manteve recomendação outperform, com aumento de 1,5% na estimativa de lucro, para R$ 185 milhões.
A Hypera, que prepara o lançamento de seu próprio medicamento GLP-1 no segundo semestre, também aparece como potencial beneficiária. Apesar das incertezas competitivas, o Itaú BBA avalia que a companhia pode registrar crescimento de cerca de 10% tanto em receita quanto em lucro por ação.
Concorrência e queda de preços
Além da Hypera, farmacêuticas como Eurofarma, EMS e Cimed devem disputar espaço nesse mercado. A expectativa é que os genéricos cheguem às prateleiras com descontos entre 40% e 50% em relação aos medicamentos de referência, com preços estimados entre R$ 500 e R$ 600.
Ainda assim, o impacto da maior oferta não deve ser imediato. Segundo o relatório, a consolidação da categoria dependerá da evolução das moléculas, do avanço de formulações orais e da adaptação do consumo ao longo do médio prazo.
Efeitos no consumo de alimentos e bebidas
O avanço dos medicamentos GLP-1 tende a gerar efeitos indiretos em outros setores. Pesquisa citada pelo Itaú BBA, com base em 150 mil famílias, mostra que domicílios com usuários desses medicamentos reduziram em 5,3% os gastos com supermercado nos primeiros seis meses de tratamento, com quedas mais acentuadas em produtos ricos em açúcar, gordura e calorias.
Em contrapartida, houve aumento no consumo de frutas, barras nutricionais, iogurtes e proteínas, comportamento associado à perda de gordura e à busca por uma alimentação mais funcional. Estudos também indicam redução no consumo de bebidas alcoólicas, relacionada tanto à menor liberação de dopamina quanto a efeitos colaterais como náusea e indigestão.
Os analistas ressaltam, no entanto, que essas evidências ainda são preliminares e devem ser interpretadas com cautela, especialmente no Brasil, onde fatores como renda per capita mais baixa podem influenciar padrões de consumo distintos dos observados em outros mercados.
Brasil no radar global
Com a chegada dos genéricos, o Itaú BBA avalia que o acesso aos medicamentos deve se ampliar para faixas de renda mais baixas, fortalecendo o papel das redes de farmácia e impulsionando o crescimento da categoria. Para o banco, os GLP-1 caminham para se tornar um dos principais vetores de expansão do setor farmacêutico no médio prazo.
“O Brasil está posicionado para se tornar um mercado global chave para GLP-1”, afirma o relatório, citando a elevada prevalência de sobrepeso e obesidade — que atinge cerca de 70% da população — e o peso cultural da estética no país. Apesar do otimismo, o banco destaca que ainda há incertezas relevantes sobre o tamanho final dessa oportunidade.
