Pagamentos de diárias ao senador foram realizados por ordem bancária, o que desmente a alegação do petista de que os valores encontrados correspondem às diárias parlamentares
A justificativa apresentada pelo senador Jaques Wagner (PT-BA) para explicar os dólares e euros apreendidos pela Polícia Federal (PF) durante a 9ª fase da Operação Compliance Zero levanta dúvidas diante dos próprios registros oficiais do Senado Federal. Após a repercussão do caso, o parlamentar afirmou que os valores encontrados seriam referentes a diárias recebidas em razão de viagens oficiais. No entanto, os pagamentos de diárias registrados pelo Senado foram realizados por ordem bancária, e não em dinheiro em espécie ou em moeda estrangeira.
A consulta aos demonstrativos de despesas do parlamentar mostra que os créditos das diárias ocorreram diretamente em conta bancária, seguindo o procedimento administrativo adotado pela Casa para esse tipo de ressarcimento. Os registros públicos não indicam qualquer pagamento em dólares ou entrega de valores em espécie, o que contrasta com a explicação inicialmente apresentada pelo senador.
Isso não significa, por si só, que os dólares e euros apreendidos tenham origem ilícita. Em tese, os recursos recebidos por transferência poderiam ter sido posteriormente convertidos em moeda estrangeira. Entretanto, essa hipótese exigiria documentação que demonstrasse a compra dos dólares e sua correspondência com os valores pagos pelo Senado, algo que, até o momento, não foi apresentado publicamente.
Ao analisar as viagens oficiais realizadas por Jaques Wagner desde 2019, os registros do Senado mostram apenas quatro deslocamentos para a Europa: duas missões à Itália, uma viagem a Lisboa e outra a Glasgow, na Escócia. Pelos dados públicos da Casa, as diárias referentes às viagens para países da região somam aproximadamente 5,1 mil euros, sempre pagos por ordem bancária. Já a missão a Glasgow gerou pagamento em libras esterlinas, moeda oficial do Reino Unido, e não em euros. Assim, os cerca de 33 mil euros apreendidos pela PF superam em muito o total de diárias pagas em moeda europeia, deixando sem explicação, à luz da documentação pública disponível, a origem da maior parte do dinheiro encontrado.
