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Ouro ilegal do Pará foi parar na Apple, Google, Microsoft e Amazon

As quatro empresas mais valiosas do mundo foram o destino do metal extraído de garimpos clandestinos, revela ONG

Registros públicos da Amazon, Apple, Microsoft e Alphabet, dona do Google, nomeiam a empresa privada italiana Chimet como fonte de parte do ouro usado em seus produtos. As empresas de tecnologia costumam usar pequenas quantidades do metal em placas de circuitos eletrônicos.

Contudo, de acordo com documentos policiais obtidos pela organização não-governamental Repórter Brasil, a Polícia Federal aponta que a Chimet comprou milhões de dólares em ouro da CHM do Brasil e da Marsam, empresas investigadas por serem o destino de parte significativa do minério extraído de garimpos clandestinos das Terra Indígena Kayapó, no Pará. A extração mineral em terras indígenas brasileiras é inconstitucional, apesar dos esforços do governo Jair Bolsonaro (PL) para legalizá-la. O Ministério Público Federal considera que participar da cadeia de aquisição de ouro clandestino contribui para os danos ambientais, com assoreamento de rios, derrubada de vegetação e contaminação do solo e da água com mercúrio.   

As quatro empresas de tecnologia dos EUA listaram a Chimet entre mais de 100 refinarias de ouro em suas cadeias de suprimentos durante o período de cinco anos da investigação e nas divulgações mais recentes de 2021. A Chimet não tem uma relação direta com as quatro grandes empresas de tecnologia, mas vende ouro para bancos que podem revendê-lo para diversos usos, disse o representante da empresa, Giovanni Prelazz.

Rede de fornecimento

As certificadoras da Chimet e da Marsam são, respectivamente, a The London Bullion Market Association (LBMA) e a Responsible Minerals Initiative (RMI), organizações que têm como objetivo garantir maior transparência para o setor minerário e realizar auditorias para combater violaçãoes de direitos humanos, lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, segundo o site das próprias organizações.

Um representante da Chimet afirmou ao Repórter Brasil que a empresa cortou relações com a CHM ao saber das alegações em outubro de 2021, quando a PF fez batidas em nove estados brasileiros e no Distrito Federal na tentativa de desbaratar parte do comércio ilegal de ouro. Chimet disse que, após tomar conhecimento da investigação do CHM, contratou a empresa de contabilidade Deloitte para uma auditoria de seus fornecedores. Com isso, em abril de 2022 foi novamente certificada pela associação de mercado de barras LBMA.

Um documento policial de agosto de 2021 resumindo a investigação afirma que Chimet supostamente comprou R$ 2,1 bilhões (US$ 385 milhões) em ouro da CHM entre 2015 e 2020.

Descuido com a origem

Um dos problemas é que, apesar dos episódios de violência provocados pelo garimpo ilegal na Amazônia, essas organizações não consideram o Brasil uma “área de risco”. “Tanto a SEC quanto as empresas americanas fecham os olhos para a origem do ouro que chega no país”, lamenta Payal Sampat, diretora do programa de mineração da Earthworks, organização com sede em Washington D.C. que trabalha com os impactos da atividade. A especialista também critica o trabalho da RMI: “não são confiáveis”. 

Apesar de os órgãos investigadores brasileiros terem provas de que Chimet e Marsam compraram, de maneira indireta, ouro extraído ilegalmente de alguns desses territórios demarcados, as duas refinadoras são certificadas e aptas a vender nos Estados Unidos e na Europa – regiões que exigem maior transparência dos fornecedores de minérios, além de critérios mais rígidos no combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e ao abuso dos direitos humanos. 

A Repórter Brasil teve acesso aos documentos que Apple, Google, Microsoft e Amazon são legalmente obrigadas a enviar à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (a Securities and Exchange Commission, SEC, na sigla em inglês) com a lista de seus fornecedores, não apenas de ouro, mas também de estanho, tungstênio e tântalo. Entre centenas de refinadoras, constam nas relações a brasileira e a italiana. Os documentos referem-se às aquisições feitas em 2020 e 2021, mas relatórios anteriores a estes também apresentavam as duas refinadoras como fornecedoras.

A RMI afirmou que entrou em contato com a refinadora brasileira pedindo ações corretivas relacionadas `à auditoria. “Esse processo incluiu a revisão das reclamações como parte da última auditoria da Marsam, um plano de ação corretiva para abordar quaisquer lacunas identificadas e monitoramento futuro”, disse em nota. “Se a Marsam não fechar o plano de ação corretiva com sucesso dentro do prazo estipulado, conforme verificado por um avaliador terceirizado, ela será removida da lista de conformidade da RMI”, afirmou. A certificadora alegou contratos de confidencialidade para não dar mais informações sobre quais seriam essas ações corretivas e nem os prazos estipulados.

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