Desinfetante de piscina aliado a polímero desenvolvido em universidade australiana eliminou uma das formas mais nocivas de poluição na mineração – facilitando também a reciclagem de lixo eletrônico
Pesquisadores australianos descobriram como aglutinar ouro incrustrado em rochas, misturado na lama e presente em ligas sem agredir pesadamente o meio ambiente. A nova técnica se vale de um composto comum em desinfetantes de piscina e um novo polímero reutilizável, o que ao ganhar volume evitaria a poluição altamente tóxica proveniente do mercúrio e do cianeto, que em garimpos artesanais acabam despejados no solo e águas, contaminando plantas, animais e seres humanos.
A descoberta foi publicada periódico Nature Sustainability, após avaliação. A equipe do projeto, liderada pelo professor de química Justin Chalker, da Universidade Flinders, em Adelaide, conseguiu amalgamar desde ouro de alto rendimento até traços do metal encontrados em pequenas quantidades em placas de circuitos impressos de computadores descartados (na imagem de destaque), dos quais é difícil extrair o produto. Outra aplicação é a busca pelo metal em concentrados, como a lama derivada da exploração de minério de ferro – que no Brasil costuma ser depositado em barragens. Os
Em testes feitos com componentes descartados encontrados em lixões o processo de recuperação foi considerado seguro e sustentável. “A equipe desenvolveu uma maneira inteiramente nova de fazer o polímero sorvente, que é o material que liga o ouro após a extração na água, usando luz para iniciar a reação principal“, contou Chalker, que lidera o laboratório que leva seu sobrenome na Faculdade de Ciências e Engenharia de Flinders.
O estudo descobriu um novo papel para o ácido tricloroisocianúrico, amplamente utilizado no saneamento e desinfecção de água. O segredo é que na dose e composição adequadas o produto é ativado por água salgada, decantando o ouro por lixiviação, enquanto o resto do material é separado em uma borra de manejo seguro. O processo foi analisado em minas de pequeno porte nos EUA e no Peru, onde foi evitado o emprego de mercúrio e cianeto de sódio.
A seguir, o ouro é ligado a um polímero rico em enxofre ativado por luz ultravioleta desenvolvido pela equipe da Flinders. A novidade permite a recuperação do ouro mesmo em misturas altamente complexas. Na fase final, o polímero é “desfeito”, permitindo a separação do ouro e a reciclagem do material. “A reciclagem do polímero reforça ainda mais as credenciais ecológicas desse método”, afirma o pesquisador de pós-doutorado Thomas Nicholls,
“Mergulhamos em um monte de lixo eletrônico e saímos com um bloco de ouro, Espero que esta pesquisa inspire soluções impactantes para desafios globais urgentes”, afirmou o colega Harshal Patel.
Para tanto será preciso ampliar a escala dos testes em operações de mineração e na reciclagem do lixo eletrônico. Se for economicamente viável, a técnica pode ser um divisor de águas, reduzindo as críticas ambientais a exploração do metal em um momento de grande valorização.
Todavia, outros problemas graves não estão descartados. A mineração descontrolada pode provocar assoreamento de rios, obstrução de fontes, extermínio de peixes, desmatamento e conflitos fundiários.
Alguns dados
- Das 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico produzidas globalmente em 2022, apenas 22,3% foram documentados como formalmente coletados e reciclados.
- Lixo eletrônico é considerado resíduo perigoso, contendo 10 produtos químicos considerados de risco à saúde pública, como dioxinas, chumbo e mercúrio.
- 33% dos mineradores artesanais de ouro sofrem de intoxicação por vapor de mercúrio metálico.
- No Brasil, peixes de seis estados da Bacia Amazônica apresentam traços de mercúrio.
- De 10 milhões a 20 milhões de mineradores artesanais e de pequena escala atuam em condições precárias em mais de 70 países, incluindo até 5 milhões de mulheres e crianças.
- Apesar de representarem 20% da oferta global de ouro e gerarem cerca US$ 30 bilhões anualmente, os mineradores artesanais normalmente vendem sua produção por 70% do valor de mercado.
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