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A experiência de andar num shopping vazio

Muito se falou durante a semana passada sobre os efeitos da reabertura do comércio na cidade de São Paulo – especialmente sobre as possibilidades de aglomeração nas lojas e em shopping centers. O caso da rua 25 de março, que atrai muitos compradores do interior – onde a pandemia está em alta – foi emblemático. Houve ajuntamento de pessoas e filas quilométricas. Apesar disso, é preciso registar que maioria esmagadora desses compradores usava máscaras e os estabelecimentos só permitiam uma ocupação moderada de seus espaços.

E os shopping centers?

Estima-se que o setor estivesse perdendo cerca de R$ 15 bilhões por mês em todo o país. Por isso, a reabertura era algo importantíssimo para os administradores destes empreendimentos. Durante a pandemia, para suavizar a perda de faturamento, muitos centros comerciais haviam criado sistemas de “drive-thru” para desovar mercadorias compradas através de sites ou mesmo do WhastApp. Portanto, era grande a expectativa de como os shoppings iriam reabrir a partir de quinta-feira.

Ontem, tive a oportunidade de checar pessoalmente o que estava acontecendo nesses locais. Quando o dia amanheceu, vi que uma de minhas camisas sociais estava com o colarinho puído e resolvi comprar outra. Conferi o horário de funcionamento do shopping JK Iguatemi, próximo da minha casa, e resolvi visitá-lo para encontrar uma camisa nova. Antes, falei com um amigo médico, que me tranquilizou em relação à possibilidade de contágio, desde que eu permanecesse de máscara e higienizasse minhas mãos o tempo todo. Além disso, que eu evitasse tocar superfícies nas quais o público em geral se apoia, como corrimãos de escadas rolantes.

Cheguei ao shopping, confesso, achando que haveria uma fila de espera para entrar no local, uma vez que as normas atuais proíbem uma circulação de pessoas superior a 20 % da lotação total. No carro, antes de chegar, imaginei que os tais 20 % já estariam tomados e que haveria uma fila para poder andar pelos corredores.

Não foi o que aconteceu. O trânsito no trajeto estava um tanto pesado, o que me fez crer que a reabertura do comércio havia levado mais pessoas às ruas. Mas, ao chegar ao JK, o estacionamento estava relativamente vazio. Apesar disso, previ que haveria gente esperando na entrada.

Ao sair das escadas rolantes, vislumbrei pouquíssimas pessoas – todas trabalhando para o shopping. Um delas tomou a minha temperatura corporal – 35,9 graus – e me autorizou a entrar, recomendando que eu desinfetasse minhas mãos num quiosque que distribuía álcool em gel sem a necessidade de contato físico.

Após isso, avancei alguns passos e me vi num cenário totalmente diferente do que estava acostumado. Pouquíssimas pessoas andando nos corredores e muitas lojas fechadas. Uma paisagem em nada semelhante ao do passado. Fui à loja de roupas e, então, dei uma volta bem curta.

Enquanto andava, tentava entender a razão pela qual um shopping estava sem frequentadores e porque a rua 25 de Março tinha registrado um alto movimento desde sua reabertura.

Em relação à rua do centro paulistano, estamos falando de um destino não apenas de consumidores comuns, mas também de pequenos comerciantes de outras localidades que lá se abastecem de mercadorias. Com o estoque baixo, esses empreendedores tiveram de refazer seus estoques e causaram uma afluência significativa. Isso, no entanto, poderia até explicar o porquê de a 25 de Março estar cheia, mas não a falta de consumidores no JK Iguatemi.

Bem, esse nunca foi dos shoppings mais lotados de São Paulo, ponderei. Mas a data, o dia dos Namorados, geraria um fluxo maior do que o normal. Uma coisa, em tese, compensaria a outra.

Há um fenômeno, no entanto, que nos escapa geralmente ao analisar a lotação destes locais: a grande quantidade de pessoas que vai aos shoppings sem nenhuma intenção de compra e sim apenas por uma questão de lazer. Nesse caso, são clientes que apenas circulam, vão a restaurantes e lanchonetes e frequentam cinemas. Mas, se esses estabelecimentos estão fechados, por que esses indivíduos iriam aos shopping centers? Some-se isso ao fato de que a classe média ainda está ressabiada com os números de contaminação. Embora decrescentes na capital, os indicadores ainda estão altos e assustam muita gente. É o suficiente para que muita gente prefira evitar os centros comerciais.

Dois exemplos frequentemente citados por quem está receoso de voltar a circular – e há inúmeros registros de discussões do gênero no ambiente das redes sociais – são os de Belo Horizonte e de Porto Alegre, duas cidades que reabriram as portas do comércio recentemente. Na capital mineira, a prefeitura segurou a terceira fase de flexibilização por conta dos índices de ocupação de UTIs, ainda considerados altos. Em Porto Alegre, no entanto, a decisão foi mais radical. A prefeitura vai voltar a restringir as atividades de shoppings e lojas com faturamento acima de R$ 360 000 anuais (academias e restaurantes também serão atingidos pelas restrições). A razão é o aumento de casos de coronavírus na capital gaúcha, que bateu recordes na semana passada.

A partir de minha experiência de ontem, porém, surge uma dúvida. Se todos usarem máscaras, o que é mais arriscado? Frequentar um shopping vazio, com lojas às moscas e seguindo rituais restritivos contra aglomerações, ou um supermercado com corredores estreitos e maior concentração de pessoas por metro quadrado? Se os administradores dos shoppings mantiverem suas restrições e estimularem seus lojistas a trabalhar sob o regime de drive-thru, essa pode ser uma medida segura do ponto de vista sanitário e adequada sob a perspectiva econômica. Mas deixemos a palavra final sobre esta questão com os especialistas. Afinal, neste momento, não podemos nos distanciar jamais do que recomenda a ciência e seus representantes.

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