Ataques de Israel ao Líbano podem criar nova crise de refugiados, enquanto o fechamento de Ormuz joga os preços do petróleo e do gás nas alturas, encarecendo transporte, energia, aquecimento e insumos agrícolas
Uma ditadura teocrática em profunda crise econômica, militarmente desgastada, com líderes assassinados, aliados regionais enfraquecidos, sem apoio da população urbana jovem, forte repressão religiosa às mulheres e com suas principais cidades, aeroportos e bases militares sob ataque constante de mísseis e drones da maior potência militar global. Mesmo assim, a geopolítica permite que o Irã instabilize o mundo. Ao controlar a costa norte do Golfo Pérsico e o crítico Estreito de Ormuz, o país islâmico xiita estrangula parte do escoamento de petróleo e gás, afetando a economia global.
Não se trata de entrar no mérito e na moralidade da nova ação dos Estados Unidos e de Israel sobre seu opositor, que desenvolveria tecnologia nuclear militar e atua como financiador de grupos islâmicos armados em ação na Síria, Líbano, Yemen, dificultando o trânsito marítimo no Mar Vermelho e ao Canal de Suez.
No quarto dia do conflito, com 800 vítimas fatais – e crescendo – de ambos os lados e nos países vizinhos, os preços do petróleo e do gás dispararam e as bolsas de valores caíram. O Estreito de Ormuz, de apenas 33 quilômetros, com dois canais navegáveis de 3 quilômetros cada, foi fechado pela primeira vez pelo Irã, que ameaça disparar indiscriminadamente a quem tentar passar. Por causa disso, o Qatar, maior exportador global de gás natural, não consegue abastecer seus clientes durante o inverno no Hemisfério Norte. Na Ásia, o preço de referência do gás natural liquefeito (GLP) subiu 45% nesta terça-feira (3), em relação ao sábado (28).
Há uma lógica econômica nas mortes e nos prejuízos. Óleo e gás mais caros representam inflação no transporte, energia, aquecimento e insumos agrícolas também para quem atirou primeiro – e quem nada tem com isso. Os efeitos mais imediatos seriam nos combustíveis, seguido do crédito, até atingir alimentos. De acordo com Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), na primeira metade de 2023 cerca de 20 milhões de barris de petróleo passavam diariamente pelo estreito de Ormuz. Um comércio diário de US$ 1,68 trilhão pelo valor atual de um produto sem beneficiamento.
Hezbollah

Incapaz de resistir aos ataques, o Irã opta por um conflito de desgaste, saturando as defesas tecnológicas e dispendiosos dos vizinhos com ataques de drones de baixo custo. EUA e Israel querem desmontar a infraestrutura do inimigo, que resiste provocando estragos “indiretos” no Kuwait, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados e Omã, países que possuem instalações dos EUA. Na Arábia Saudita, refinarias da Aramco em Dharhan, foram atingidas por drones. Nesta tarde, dois veículos não tripulados atingiu a embaixada americana na capital saudita Riad, demolindo parte do complexo onde funcionariam os escritórios da CIA, a agência de espionagem. O informe é do Washington Post.
No Brasil, os reflexos nas bombas devem chegar em breve. O preço internacional do petróleo cru (Brent) subiu 8%, para cerca de US$ 84 o barril, na manhã de terça. De acordo com a American Automobile Association (AAA), os reflexos já chegaram aos consumidores dos EUA, com os preços da gasolina subindo cerca de US$ 0,10 por galão, atingindo para US$ 3,11 na manhã de terça (3).
Analistas de Wall Street divulgaram nota citando que o barril deve atingir US$ 90 até sexta (6). Os mercados de ações entraram em retração. Índice de referência de desempenho dos quinhentos maiores ativos cotados nas bolsas de Nova York (NYSE e NASDAQ), o S&P 500 caiu cerca de 2,4% nesta manhã.
Chuxin
O cenário tende a piorar, já que Israel invadiu o sul do Líbano para atacar o Hezbollah, grupo xiita aliado do Irã. Com isso, o conflito pode escalar para o Mediterrâneo oriental. O resultado pode ser uma nova onda de refugiados muçulmanos para a Europa e outros países do Oriente Médio, como a Turquia.
Enquanto isso, a China segue recebendo petróleo e gás mais baratos do Irã por meio de um complexo sistema de trocas econômicas que envolve Rússia, prestação de serviços de infraestrutura e uso de uma cadeia financeira paralela (Chuxin), ainda que a um custo elevado para Teerã, com agentes do regime e civis inocentes mortos desde o início, incluindo o envelhecido ditador aiatolá Ali Khamenei. Do outro lado, há civis mortos em Israel e nos Países do Golfo, além de militares americanos atingidos em bases.


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