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Lições da pandemia: a volta da paciência

Hoje é um domingo de pandemia. Lojas, shoppings e muitos restaurantes fechados. Há um silêncio quase perturbador no ar. Nessa tarde ensolarada, ouço mais pássaros cantando do que carros na rua. Num primeiro momento, a sensação é de que estou no interior. Mas, depois de alguns minutos, reconheço, ali no fundo da memória, este sentimento. O silêncio dominical de hoje é o mesmo que experimentava na minha infância. Moro, há 14 anos, num prédio que está a trezentos metros da casa onde passei minha pré-adolescência. Da varanda, aliás, consigo enxergar o teto da minha antiga residência e a janela de onde ficava um dos quartos.

A partir de terça-feira, em São Paulo, o isolamento vai aumentar, com vários estabelecimentos comerciais, com exceção daqueles que foram excluídos pela decisão do governo estadual, cerrando compulsoriamente suas portas. Todos os dias, assim, serão como este domingo. Sem pessoas circulando. Silenciosos. Quietos. Modorrentos, até.

Mesmo que estejamos todos aquartelados em casa, o trabalho em home office irá nos ocupar parte de nosso tempo. Mas aqueles momentos de distração do almoço, no qual encontrávamos pessoas ou aproveitávamos para bater papo com os colegas de trabalho, esses vão desaparecer por um tempo. Vamos vivenciar parte do que sentem os confinados do Big Brother, embora com direito a saídas estratégicas para adquirir gêneros de primeira necessidade.

Esse confinamento deve deixar mudanças indeléveis em nossas vidas.

Uma delas talvez seja o resgate da paciência.

A tecnologia nos transformou em seres com inúmeras habilidades – todas funcionando ao mesmo tempo. Somos capazes de prestar atenção no que é dito numa reunião, escrever um e-mail no computador e bater os olhos na mensagem que acabou de entrar pelo celular. Alguns ainda fazem isso com um fone sem fio numa das orelhas, acompanhando sua música favorita.  

Ufa! Nossos avós não resistiriam a essa atividade intensa. Mas nós fomos expostos a essa realidade e, aos poucos, nos acostumamos a vivê-la. Deadlines cada vez mais curtos, ferramentas de produtividade, baixo número de funcionários – tudo isso somado nos transformou em usinas de impaciência. Some-se isso ao fato de que muitas coisas estão instantaneamente na ponta de seus dedos, com uma inúmera oferta de informação e entretenimento. Desse modo, a equação para a ansiedade generalizada está criada.

Quando era garoto, a televisão se transformou no pináculo da evolução tecnológica. O aparelho de TV era conhecido por “babá eletrônica”, pois as crianças ficavam quietas acompanhando desenhos animados em telas preto e branco, cujas imagens eram frequentemente distorcidas — nada a ver com os 4K da atualidade. Outra definição da época: “máquina de fazer doido”, pois em tese as câmeras despejavam sequencias consideradas frenéticas demais para os telespectadores. Hoje, porém, qualquer criança produz vídeos mais agitados do que os programas televisivos dos anos 1960 e 1970.

A TV aberta (cabo, nem pensar) tinha de quatro a sete canais, dependendo da cidade. Por isso, tínhamos de esperar pacientemente o dia e a hora de nossas atrações favoritas. A vida, nessa época, com poucas opções de entretenimento, era mais regrada e girava em torno da família.

Nessa descrição, não há nenhum sentimento de nostalgia – apenas a constatação de que se tratava de uma vida mais pacata que a atual.

Curiosamente, esses dias de confinamento nos jogaram numa espécie de máquina do tempo. Ainda temos computador, smartphone e milhares de opções de diversão a distância. Mas a sensação de tempo frenético – pelo menos por estes dias – acabou. Os deadlines foram esticados. Hoje mesmo, em pleno domingo, quase neguei um pedido para conversar sobre trabalho ao final do dia, quando me toquei: qual será a diferença entre hoje e segunda-feira? Decidi, então, fazer a chamada telefônica ao final da tarde.

Para quem tem mais de quarenta anos, resgatar a paciência não será fácil. Mas o estoicismo que nos obriga a ser pacientes está guardado em algum lugar da personalidade. É só buscá-lo e resgatar algo que está dormente há muito.

No entanto, e aqueles que são jovens? Que nasceram e foram criados num mundo em que tudo precisa ser para ontem? Pessoas que nem se dão o direito de pensar antes de dar uma resposta decente a uma pergunta complexa? Como resgatar algo que não está dentro deles?

Será difícil. Mas não há outra saída. Portanto, remediado está. Os adultos terão de recuperar uma capacidade perdida. Já os jovens terão de criar essa habilidade.

Depois que a quarentena acabar – e vamos torcer para que esse período seja curto –, a pausa imposta terá consequências em toda a população. A introdução ou reintrodução da paciência será uma delas. Vamos ter de reavaliar uma série de outras coisas: será que a prática forçada de home office não vai gerar escritórios mais compactos num futuro próximo? Será que haverá tantos imóveis residenciais disponíveis na rede Airbnb? Será que as empresas vão precisar do mesmo número de funcionários que tinham quando essa crise começou?

Ainda não temos a resposta para tudo isso. Mas uma coisa já sabemos: a paciência, um item de luxo na vida atual, terá de se transformar em um artigo de consumo de massas, qualquer que seja a saída para o problema seríssimo que estamos vivendo.

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