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Exame: “Não era para termos esse nível de endividamento no Brasil’, diz CEO do Assaí

Da redação
24 de junho de 2026
Belmiro Gomes diz que a combinação entre juros elevados e apostas esportivas pressiona o orçamento de 80% dos brasileiros, o que tem se tornado um dos principais desafios para o varejo

Os juros elevados não são os únicos vilões do consumo brasileiro, na visão de Belmiro Gomes, CEO do Assaí. Para o executivo, que lidera a companhia desde 2011, a combinação entre crédito caro, desigualdade social e a popularização das apostas esportivas tem criado uma pressão inédita sobre o orçamento das famílias.

“Não era para termos esse nível de endividamento no Brasil”, afirma o executivo em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.

Na avaliação de Belmiro, os atuais níveis de inadimplência e comprometimento da renda não são compatíveis com um cenário de mercado de trabalho aquecido e programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola.

“Não era para termos 80% da população endividada. Parte disso tem a ver com o hábito das apostas”, diz.

Juros altos ampliam desigualdade

Para o executivo, a Selic em patamares elevados acaba aprofundando as diferenças entre quem possui patrimônio financeiro e quem depende de crédito. “Talvez hoje o Brasil esteja, tirando a Rússia que está em guerra, com a maior taxa de juro real do mundo”, afirma.

Segundo Gomes, embora os juros elevados tenham impacto sobre as empresas, o maior custo é social. “O impacto dos juros altos para as companhias existe, mas talvez o custo maior seja para a sociedade. O juro alto por muito tempo aumenta a desigualdade social”, diz. “Quem tem patrimônio financeiro se beneficia dos juros altos. Quem depende de crédito paga essa conta.”

Na visão do CEO do Assaí, o fenômeno já pode ser observado no comportamento do consumo.

“Os formatos que atendem a alta renda cresceram 4%. Os formatos voltados para baixa renda caíram 9%. Há um delta de 13%, algo que não víamos há muitos anos”, afirma.

Bets se tornaram concorrentes do varejo

Belmiro acredita que as apostas esportivas passaram a disputar diretamente a renda disponível dos brasileiros. “Na medida em que o juro aperta, a pessoa cria uma expectativa com a aposta. Isso tem levado ao aumento do endividamento”, afirma.

O Brasil, na visão do executivo, se tornou um dos maiores mercados do mundo para as plataformas de apostas. “O Brasil é o país que tem mais acesso a sites de apostas no mundo, mais do que Estados Unidos, Inglaterra e Turquia juntos”, afirma.

Para ele, o impacto das bets vai além da economia. “Além do estrago que isso tem feito na população, é um setor que hoje tem uma capacidade de investimento em mídia praticamente impossível de ser acompanhada pela maioria das empresas”, diz.

O consumidor mais pressionado

A preocupação de Gomes ganha peso porque o Assaí atende principalmente as classes de renda média e baixa e cerca de 1 milhão de pequenos empreendedores. Tanto que o sobrenome “Atacadista” está sendo deixado de lado aos poucos para que clientes B2C procurem mais pelo atacarejo.

Hoje, a companhia recebe aproximadamente 40 milhões de consumidores por mês em suas mais de 300 lojas. Apesar do ambiente mais desafiador, o executivo acredita que o país continuará encontrando caminhos para crescer. No caso do Assaí, a saída é continuar inovação neste setor competitivo. Para este ano, a companhia irá lançar mais de 200 farmácias, sistema financeiro e até postos de combustíveis.

Diante da dívida bilionária por conta da compra de 66 pontos do Extra, o Assaí fará uma expansão mais controlada. Ao invés de abrir 15 lojas neste ano, conforme previsto no plano, serão abertas 5 unidades do Assaí em São Paulo.

O comportamento das famílias, segundo Gomes, se transformou em um termômetro da economia brasileira. Diante do cenário, ele alerta que o desafio para o país não é apenas voltar a crescer, mas garantir que esse crescimento seja acompanhado por uma população menos endividada e com maior capacidade de consumo.

“O consumidor continua comprando, mas ele está mais pressionado. O cenário exige atenção”, afirma.

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Por Layane Serrano

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