Na CEO Conference do BTG Pactual, Roberto Sallouti e gestores discutem fluxo estrangeiro, riscos fiscais e forças globais que podem redefinir o mercado brasileiro
Se alguém esperava previsões tranquilizadoras para 2026, o painel sobre investimentos na CEO Conference do BTG Pactual seguiu na direção oposta. O debate moderado por Roberto Sallouti deixou claro que, embora haja oportunidades, o mercado brasileiro continua profundamente condicionado à política fiscal, à dinâmica eleitoral e às forças externas — da inteligência artificial às tensões geopolíticas.
Logo na abertura, Sallouti colocou a questão que permeou toda a discussão: entender por que o fluxo estrangeiro voltou com força enquanto o investidor local segue cauteloso. Para ele, o ponto chave é descobrir “qual é o gatilho para o investidor brasileiro voltar para a Bolsa e para o mercado voltar a avaliar mais profundamente os fundamentos fiscais.”
Fluxo estrangeiro e risco fiscal
A percepção sobre o Brasil varia bastante entre investidores internacionais e domésticos. Leonardo Linhares, da SPX, explicou que “o local olha o fiscal absoluto; o estrangeiro olha o fiscal relativo”, o que ajuda a explicar a entrada recente de capital externo mesmo diante das fragilidades fiscais.
Ainda assim, o diagnóstico é que o ajuste fiscal continua inevitável — e depende menos de técnica econômica do que de decisão política. Como resumiu Linhares:
“Todo mundo sabe que tem que ser feito. Dá para fazer, falta confiança e vontade política.”
Eleições e impacto político no mercado
A eleição aparece como principal fator de assimetria para os ativos brasileiros. André Lion, da Ibiuna, demonstrou cautela com a possibilidade de continuidade do atual cenário fiscal:
“Eu não vou dormir tranquilo se tiver mais quatro anos nesse cenário. O investidor pode simplesmente procurar outro lugar.”
Os gestores avaliam que uma mudança relevante de política econômica poderia destravar uma valorização mais forte da Bolsa. A conclusão geral é que o mercado ainda precifica parcialmente esse risco político.
Juros altos ainda limitam a Bolsa
Mesmo com expectativa de queda da Selic, o custo do dinheiro segue elevado e competitivo frente à renda variável. Lion destacou que a volta do investidor pessoa física deve ser lenta:
“Mesmo com cortes, vamos continuar com juros reais altos. E o investidor foi bem machucado nos últimos anos.”
Na prática, a renda fixa continua atraente e tende a retardar uma realocação mais forte para ações.
Estratégia na Bolsa: seletividade e liquidez
Diante do cenário incerto, os gestores reforçaram a necessidade de maior seletividade. William Dominice, sócio da BTG Pactual Asset Management, destacou a importância de liquidez e qualidade:
“Eu quero estar nas melhores empresas e com liquidez para entrar e sair. Num cenário incerto, isso faz muita diferença.”
Linhares acrescentou que o fluxo estrangeiro concentrado em índices acabou criando distorções:
“Muita gente compra índice, não ação. Isso deixou oportunidades interessantes fora do núcleo mais líquido.”
Inteligência artificial: oportunidade e risco
A inteligência artificial foi tratada como tendência estrutural, mas com incertezas relevantes. Dominice apontou o forte ciclo de investimento:
“A demanda por computação e nuvem está explosiva. A questão agora é quando vem o retorno desse capex.”
Lion adotou postura mais cautelosa:
“A economia vai ganhar produtividade, mas historicamente esses retornos demoram. Pode ter euforia demais no curto prazo.”
Já Linhares chamou atenção para a rápida obsolescência tecnológica:
“Se o retorno não vier logo, esse investimento pode virar papel.”
Geopolítica e dólar no radar
A reorganização global também preocupa investidores. Linhares destacou que mudanças nos blocos econômicos podem impactar energia, moedas e fluxo de capitais:
“A gente vê o movimento, mas não sabe exatamente como precificar.”
Uma eventual reversão na tendência do dólar também foi citada como possível fator de mudança para mercados emergentes.
América Latina volta ao radar
A região apareceu como alternativa de diversificação. Dominice destacou a Argentina como caso de assimetria relevante: “Lá é gigantesca.”
Lion acrescentou que mercados latino-americanos ainda apresentam ineficiências menos comuns no Brasil, hoje um ambiente bastante competitivo para gestores.
Política continua no centro das decisões
Ao final, a percepção predominante foi de que oportunidades existem, mas seguem condicionadas à política fiscal, ao cenário eleitoral e ao ambiente global. Como sinalizou Sallouti ao longo do debate, entender o mercado em 2026 exige acompanhar simultaneamente economia, política, tecnologia e geopolítica — porque, desta vez, esses fatores caminham juntos.
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