PATROCINADORES

Entre dívida alta e IA emergente, ano exigirá cautela

Lorena Scavone Giron
10 de fevereiro de 2026
Economistas do BTG Pactual apontam pressão fiscal contínua e necessidade de cortes de juros condicionados aos cenários político e externo

Os desafios fiscais do Brasil, as perspectivas para a política monetária e os impactos econômicos da inteligência artificial (IA) dominaram um painel da BTG CEO Conference 2026, que reuniu economistas do BTG Pactual para discutir o cenário macroeconômico global e doméstico diante de incertezas políticas e econômicas.

Participaram do debate Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual; Mansueto Almeida, sócio e economista-chefe; Tiago Berriel, sócio e estrategista-chefe; e Samuel Pessôa, pesquisador macroeconômico. A moderação foi de Stefanie Birman, sócia e estrategista do banco.

Ganhos de produtividade

No cenário internacional, a IA foi um dos principais temas. Samuel Pessôa destacou que a tecnologia já impulsiona investimentos, mas ponderou que os ganhos de produtividade levarão mais algum tempo para surgir nas estatísticas econômicas.

IA é um paradigma tecnológico novo. Em geral, quando surge um paradigma assim, existe uma defasagem grande até isso aparecer nos números agregados de produtividade”, afirmou.

Segundo ele, o impacto sobre a política monetária no curto prazo tende a ser limitado.

“Não me parece que a IA vai, no horizonte curto, provocar uma mudança transformacional a ponto de afetar a política monetária.”

O economista também chamou atenção para o alto consumo energético associado à tecnologia, lembrando que a transição energética global pode impor restrições adicionais. Para ele, trata-se de um pacote tecnológico intensivo justamente sobre a energia, um recurso que que torna mais escasso.

Ainda sobre os Estados Unidos, Pessôa apontou preocupações institucionais e políticas que podem influenciar o comportamento do dólar.

Tem acontecido coisas na economia americana que ninguém imaginaria ver, como questionamentos à independência do banco central. Isso pode afetar a percepção institucional e a moeda refletiu isso”, disse.

Pressão fiscal e trajetória da dívida

No cenário doméstico, a questão fiscal dominou boa parte da discussão. Sócio e economista-chefe do banco, Mansueto Almeida alertou para o ritmo elevado de crescimento das despesas públicas e seus efeitos sobre a trajetória da dívida.

Nos últimos 8 anos, pegando o governo anterior, gasto real do governo cresceu 9% ao ano. Se olhar apenas os últimos 4 anos, o crescimento foi só um pouco pior: 20% ao ano”, afirmou.

Segundo ele, a melhora recente do resultado fiscal ocorreu principalmente pelo aumento da arrecadação, não por redução consistente das despesas. “A grande parte da melhora não foi queda de despesa. Foi aumento de carga tributária”, disse.

Ele também chamou atenção para o peso dos juros elevados na dinâmica da dívida pública. “O Brasil vai terminar esse governo com déficit nominal médio perto de 8,5% do PIB. Isso não é sustentável em nenhum país”, avaliou.

Juros em ano eleitoral

A política monetária brasileira também entrou no radar. Para o sócio e estrategista-chefe do BTG, Tiago Berriel, o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes da Selic ao longo do ano, mas com cautela, especialmente por causa das incertezas eleitorais.

“É difícil fazer um ciclo de flexibilização monetária em ano eleitoral. Normalmente temos mais volatilidade cambial e políticas fiscais mais expansionistas”, afirmou Berriel.

Ainda assim, os modelos indicam espaço relevante para redução dos juros. “A gente consegue ver, para este ano, facilmente um ciclo de cerca de 300 pontos-base de queda”, disse, acrescentando que o início deve ser gradual, com cortes iniciais menores antes de eventual aceleração.

Crescimento moderado

Os participante do painel também demonstraram cautela em relação ao crescimento brasileiro nos próximos anos. Com desemprego em níveis mais baixos e produtividade ainda limitada, a avaliação predominante é que o avanço do PIB tende a ser mais moderado.

Para Mansueto, sem melhora consistente do fiscal, o país terá dificuldade para sustentar crescimento mais forte e reduzir juros de forma estrutural.


O que MR publicou

COMPARTILHE:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também

Em breve