Rajadas de até 98 km/h, mais de 1,4 milhão de imóveis sem energia e prejuízo bilionário; governo culpa lentidão na recomposição e questiona contrato da Enel
Resultado de um ciclone extratropical que se formou no Sul do país, uma ventania histórica derrubou árvores, arrancou fiações e deixou a Grande São Paulo às escuras. Mais de 1,2 milhão de unidades de consumo (prédios de escritórios, residências, comércios, condomínios e áreas públicas) seguiram sem energia na tarde desta quinta-feira (11), depois de um pico que atingiu 2,2 milhões de endereços afetados na quarta (10). As rajadas chegaram a 98 quilômetros horários em pontos da capital, segundo medições do Inmet — um recorde para condições de tempo firme desde 1963.
O episódio abriu nova frente de conflito político e regulatório em torno da Enel, concessionária responsável pela distribuição na região metropolitana: o governador Tarcísio de Freitas afirmou que São Paulo está “refém” da empresa, voltou a defender intervenção e o início de processo de caducidade do contrato, e disse ser insuficiente o quadro de funcionários mobilizado pela companhia para o tamanho da crise. Em resposta pública, a Enel afirmou ter deslocado mais de 1,6 mil equipes ao longo do dia e atribuiu os cortes aos “danos severos à infraestrutura elétrica” provocados pelo vendaval.
O choque: impactos imediatos
- Segurança e mobilidade: pelo menos 231 quedas de árvores só na cidade de São Paulo;
- Cerca de 300 semáforos apagados; trechos de grande congestionamento e intervenção da Defesa Civil.
- Água: sistemas de bombeamento foram afetados, causando cortes e baixa pressão em bairros e cidades da região;
- A Sabesp sinaliza revezamento de atendimento e áreas ainda em recuperação;
- Transporte aéreo: centenas de voos cancelados entre Guarulhos, Congonhas e outros aeroportos, com efeitos em cadeia pelo país;
- Economia: a FecomercioSP estima prejuízo inicial de R$ 1,54 bilhão para comércio e serviços nas primeiras 24 horas.
A reação do Estado e do Judiciário
Tarcísio criticou a lentidão na recomposição do serviço e pediu que o governo federal, por meio da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Ministério de Minas e Energia, avalie medidas como intervenção ou caducidade do contrato, que vai até 2028 e já é alvo de disputa política por causa de uma eventual prorrogação. O governador afirmou que notificações formais foram enviadas aos órgãos federais e que o estado tem atuado também na esfera judicial e junto ao Tribunal de Contas da União (TCU).
O procurador-geral do Ministério Público estadual designou a Promotoria de Defesa do Consumidor para acompanhar a crise e tomar medidas para que a Enel ressarça e indenize consumidores que tiveram perdas de alimentos, medicamentos e danos materiais. Aneel e Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) informaram fiscalizações em curso na sede da concessionária para avaliar o cumprimento do plano de contingência.
Denúncias e versão da Enel
Na tarde desta quinta, moradores de Diadema acionaram a Polícia Militar para denunciar que funcionários da Enel teriam cobrado valores em troca de religação — relatos apontam pedidos iniciais de R$ 300, que teriam chegado a R$ 1.000. Três técnicos e supervisores foram levados ao 3º Distrito Policial para registro de ocorrência; a empresa afirmou que reparos de emergência não são passíveis de cobrança individual e orientou clientes a usarem canais oficiais em caso de suspeita.
A Enel diz ter mobilizado mais de 1.600 equipes e veículos para recompor a rede e que trabalha “para acelerar a recomposição do sistema”, mas não informou prazo para normalização total. A lentidão na restauração de áreas amplas da metrópole é o principal combustível das críticas do governo estadual e de parte da sociedade.
Perdas no setor de alimentação chegam a R$ 100 mil
Com mais de 24 horas sem energia, restaurantes da capital relatam prejuízos imediatos — sobretudo pela deterioração de alimentos.
O chef e empreendedor Fellipe Zanuto, responsável pelas casas Pizza da Mooca, Da Mooca Pizza e Onesttà, conta que tentou preservar insumos com gelo e geladeiras lacradas, mas o esforço só segurou o estoque por quatro horas.
“Perdemos boa parte dos alimentos. Quase todas as massas de pizza foram descartadas, porque a fermentação dispara quando a temperatura sobe”, afirma.
Estabelecimentos de bairros como Pinheiros, Mooca, Vila Olímpia, Itaim e Tatuapé relatam perdas que variam de R$ 20 mil a R$ 100 mil, dependendo do volume de estoque refrigerado. Há também dificuldade em contratar geradores: restaurantes relatam preços inflacionados, lista de espera e indisponibilidade generalizada.
O setor já vinha sendo um dos mais afetados pela crise energética. O levantamento da FecomercioSP estima R$ 1,54 bilhão em prejuízo para comércio e serviços apenas entre quarta e quinta.
Por que a rede cedeu tanto?
Meteorologistas afirmam que o ciclone extratropical passou por uma fase de alta intensidade ao encontrar massas de ar quente e frio sobre o Sudeste, provocando rajadas incomuns pela duração e força. Especialistas também alertam que a combinação de mudanças climáticas e infraestrutura defasada cria cenários de vulnerabilidade crescentes.
O governo estadual defende que a área de concessão da Enel é grande demais para um único operador e precisa ser dividida para garantir agilidade, investimentos e maior automação.
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