PATROCINADORES

Os ricos não pensam no próximo?

Um texto que circula na internet há dez anos, cuja autoria é atribuída ao Dalai Lama, voltou à baila ontem, quando se celebrava o domingo de Páscoa. A mensagem imputada ao líder espiritual do Tibete começa assim: “O planeta não precisa de mais pessoas de sucesso. O planeta precisa desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias e amantes de todo tipo”. Essas primeiras palavras me chamaram a atenção: o indivíduo bem-sucedido, ou apenas rico, não pode ser um pacificador, curador ou restaurador?

(Vamos, a título de discussão, deixar os amantes e os contadores de história de lado.)

O suposto Dalai Lama vai adiante: “(o planeta) precisa de pessoas que vivam bem nos seus lugares. Precisa de pessoas com coragem moral; dispostas a aderir à luta para tornar o mundo habitável e humano, e essas qualidades têm pouco a ver com o sucesso tal como a nossa cultura o tem definido”. O autor, aqui, deixa claro o seu pensamento: o sucesso só é possível quando alguém se despe de coragem moral e não luta para tornar o mundo um lugar melhor.

Será que é isso mesmo? Para ser bem-sucedido, alguém tem de se tornar frio, insensível, inescrupuloso e egoísta? Essa imagem parece ser antiquada e talvez o estereótipo de um tipo de magnata que reinou, de fato, entre a Revolução Industrial e os anos 1990. Nos últimos tempos, no entanto, uma mudança de comportamento ou de atitude pode ser percebida – e ficou bastante explícita durante a pandemia do coronavírus.

Muitos empresários se uniram para tentar evitar demissões, doar alimentos e até contribuir para ações de cunho social. De banqueiros a industriais, houve todo o tipo de doação. Mas ainda está em dúvida? Vamos usar um exemplo em particular, o de Bill Gates, que há muito tempo, não se preocupa com o que ocorre na Microsoft e se dedica integralmente à fundação da família.

Ele foi uma das primeiras vozes a alertar para os riscos que uma pandemia traria para o planeta – e acertou em cheio o diagnóstico que fez anos atrás. Mas Gates é uma das principais fontes de recursos para combater os problemas decorrentes da falta de saneamento básico nos países em desenvolvimento e vem alertando há muito tempo sobre os efeitos maléficos da falta de água potável em regiões como os rincões africanos. Mas ele não fica apenas no discurso. Sete anos atrás, desenvolveu uma tecnologia para transformar dejetos humanos em fonte de água e eletricidade. Ao anunciar o projeto, bebeu água potável criada a partir de fezes humanas.

Este é o perfil de alguém despido de intenções curadoras ou sem coragem moral?

Pode-se argumentar que Bill Gates seja uma exceção benfazeja em meio a inúmeros empresários torpes e vis. O. K., é possível. Mas o que dizer da organização The Giving Pledge, que reúne cerca de 200 bilionários mundiais (Gates incluído) e cujo princípio é fazer com que esses Big Shots doem um naco significativo de suas fortunas para causas humanitárias? Hoje, os membros da Giving Pledge já se comprometeram a doar cerca de US$ 400 bilhões de suas fortunas – uma soma que equivale a um quarto do PIB brasileiro.

Há um brasileiro entre os participantes dessa instituição: Elie Horn, fundador da Cyrela. Ele assinou um documento no qual promete doar 60 % de sua fortuna e essa decisão teve total apoio dos filhos Raphael e Efraim. Mas a atuação dele no chamado Terceiro Setor abrange outras atividades, importantíssimas para nossa sociedade.

O instituto Liberta, por exemplo, é uma dessas iniciativas. Fundado em 2016 e dirigido por Luciana Temer, o Liberta tem como missão combater a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil, uma tragédia que acomete milhares de infantes em nosso país. De quem foi a ideia de abrir esse instituto? Do próprio Horn.

Vale repetir a pergunta: este é o perfil de alguém despido de intenções curadoras ou sem coragem moral?

É possível rebater dizendo que Elie Horn é mais uma exceção perdida em um mar de hipócritas e egoístas. Novamente, isso até possível. Mas, mesmo correndo o risco de ser chamado de ingênuo, vejo o empresariado nacional de uma forma diferente. No início da pandemia, vários donos de empresas com quem falo semanalmente estavam muito preocupados com a condição dos menos favorecidos diante do desemprego e da falta de perspectivas econômicas. O resultado dessa preocupação? Dinheiro grosso sendo gasto com distribuição de cestas básicas e material de higiene nas comunidades carentes. Posso citar mais de vinte nomes desses benfeitores, mas respeito o direito ao anonimato que todos desfrutam – ao contrário de Bill Gates e de Elie Horn, que tornaram suas histórias públicas há muito tempo.

Relembrando: “essas qualidades têm pouco a ver com o sucesso tal como a nossa cultura o tem definido”. Quem escreveu esse texto, Dalai Lama ou não, o fez há dez anos. Talvez pudesse escrever algo diferente se fosse registrar seus pensamentos hoje. Mas, ontem, recebi essa mensagem mais de cinco vezes, só perdendo em popularidade digital para uma homilia atribuída ao Papa Francisco sobre a Páscoa (na verdade, esse texto, que começa com “você pode ter defeitos”, é aparentemente do psiquiatra brasileiro Augusto Cury e foi publicado até no site de Ana Maria Braga em 2010 – antes portanto do início do pontificado de Francisco).

Essa distribuição mostra que a visão contida no texto tem ressonância na sociedade e que muitos pensam dessa forma. De fato, a ausência de altruísmo, empatia ou generosidade são características abomináveis. Mas não podemos associá-las automaticamente aos bem-sucedidos ou aos ricos. Há vários seres humanos sem sucesso que também exercem o egoísmo e a covardia moral.

Todos devem ter os olhos postos nos grandes desafios da humanidade. Mas isso começa com as coisas básicas do dia a dia. Os temas capitais para o futuro do mundo podem ser defendidos apenas com palavras, enquanto os problemas simples do cotidiano requerem engajamento e mão na massa. Infelizmente, na hora ação, nem todos estão disponíveis. É como o escritor P. J. O’Rourke descreveu em seu livro “All The Trouble in The World”: “Todos querem mudar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar os pratos”.

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 + 10 =

Pergunte para a

Mônica.