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Os Bee Gees foram o primeiro caso de cancelamento da era moderna

Os mais novos podem não ligar o nome à pessoa, mas reconhecem os primeiros acordes de “Stayin’ Alive” imediatamente. O tema principal do filme “Os Embalos de Sábado à Noite” é um dos maiores sucessos da música pop e é interpretado pelo trio australiano Bee Gees, composto pelos irmãos Barry, Robin e Maurice Gibb. O álbum com a trilha sonora da película vendeu mais de 16 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e obteve 16 discos de platina, liderando a parada da Billboard por 24 semanas.

Todo esse sucesso fez a banda ser indelevelmente associada ao gênero de música “discoteca”. O LP seguinte dos Bee Gees, “Spirits Having Flown”, lançado em 1979, vendeu ainda mais: 30 milhões de discos.

Como se sabe, a discoteca (que aqui no Brasil teve como símbolo máximo a novela “Dancin’ Days”) foi uma moda efêmera, que se encerrou nos EUA na virada da década. O movimento “Disco Sucks” ganhou tração a partir do dia 12 de junho de 1979, quando um disc-jockey de Chicago comandou a queima de uma pilha gigante de long-plays de artistas de música dançante. Ao final do ano, a moda acabou e as estações de rádio passaram a tocar outro tipo de gênero musical.

Muitos sociólogos creditam esse movimento de abafamento às discotecas como uma forma de insatisfação dos homens brancos da classe média americana. Afinal, as grandes estrelas das pistas de dança eram os negros, os latinos e os gays. Essa discussão, hoje, daria pano para manga. Mas, qualquer que tenha sido a razão para que a moda passasse tão rapidamente, o fato é que houve uma overdose deste gênero musical e os consumidores ficaram cansados.

Os maiores ícones deste época, os Bee Gees, ficaram fortemente marcados e, de uma hora para outra, foram vistos de forma negativa pelas gravadoras. Depois de muita insistência, conseguiram lançar um álbum em 1981, que não fez muito sucesso. Só voltariam à cena musical seis anos depois – mas nunca a carreira do trio foi a mesma.

Em 1978, dos vinte maiores sucessos do ano, oito eram composições dos irmãos Gibb. Três da própria banda, duas do irmão mais novo, Andy Gibb, uma na voz de Frankie Valli (“Grease), uma com Samantha Sang (“Emotion”) e uma gravada por Yvonne Elliman (“If I Can’t Have You”). Isso mostra o quanto esses australianos mandaram na música pop no final dos anos 1970.

O excesso de exposição, porém, os levou a um cancelamento generalizado – talvez o primeiro da era moderna, ainda sem internet ou outras ferramentas do universo digital. Sem trabalhar, Barry Gibb tentou uma nova carreira, a de produtor. Compôs e produziu canções e discos para Barbra Streisand, Dionne Warwick, Diana Ross e Kenny Rogers, para ficar em alguns nomes. Voltou ao topo da parada de sucessos – mas na voz de outros artistas.

Os Bee Gees tinham uma sólida carreira até o final dos anos 1970, emplacando grandes sucessos deste a segunda metade dos anos 1960. Mas nada disso foi levado em consideração pela indústria do entretenimento. Gibb e seus irmãos chegaram a dar várias entrevistas no início da década de 1980, lembrando que seu trabalho transcendia a chamada “disco music”. Mas de nada adiantou. O tempo precisou passar para que fossem reconhecidos e entrassem para o Rock’n’Roll Hall of Fame em 1997.

Hoje, apenas Barry está vivo e morando em Miami. Mas a sua música e a de seus irmãos se tornou imortal e universal. Os primeiros acordes de “Stayin’ Alive” estão para a música pop como “Satisfaction” está para o rock – um clássico que é apreciado por todas as gerações. E os Bee Gees, vítimas de um cancelamento até então inédito, hoje sobreviveram à rejeição massiva e se tornaram uma grande unanimidade. Um exemplo para quem, em pleno século 21, tem de enfrentar a ira flamejante dos haters nas redes sociais.

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