Quem acompanha o mercado de Fusões e Aquisições (em inglês, M&A – Mergers & Acquisitions) de perto percebeu, em 2025, algo que os números agora em 2026 confirmam: a recuperação chegou, mas chegou errática. 2025 foi o ano mais movimentado já registrado em valor de transações — perto de US$ 4,5 trilhões e algo próximo a 35% acima de 2024 — e ao mesmo tempo um ano em que a empresa e investidor de middle-market raramente sentiu essa euforia na própria mesa. O motor não foi o volume de negócios. Foi o tamanho deles.
Essa dualidade é o fio condutor de tudo o que importa para 2026. Um estudo recente da Mergermarket com executivos seniores de M&A captura bem o humor do setor: a maioria espera mais atividade no ano, a inquietação geopolítica pesa menos do que se imaginaria, e a maior trava deixou de ser o medo e passou a ser preço — o desencontro de avaliação entre quem compra e quem vende. É um mercado confiante, porém disciplinado. E, sobretudo, é um mercado em forma de K.
Os números de 2025: o ano dos megadeals
O ponto de partida obrigatório é a escala. O valor agregado de transações globais voltou a romper o pico de 2021, com estimativas convergindo para a faixa de US$ 4,5 trilhões. Mas o detalhe revelador está na composição: o número de operações cresceu pouco — algo como 5% pela leitura mais conservadora — enquanto o valor disparou. Em outras palavras, fechou-se quase a mesma quantidade de negócios de sempre, só que com cheques muito maiores (muito provocado no mundo e no Brasil por alguns setores chave de investimentos, como financeiro, recursos naturais/ mineração, infraestrutura e energia e Tecnologia/ IA).
Foi o ano em que os megadeals deixaram de ser exceção — um movimento que se intensificou no fim de 2025 e atravessou o primeiro semestre de 2026. Entre janeiro de 2025 e maio de 2026 foram anunciadas 74 operações acima de US$ 10 bilhões, segundo a Bain, e os negócios de US$ 1 bilhão ou mais responderam por mais da metade de todo o valor transacionado em 2025. Os exemplos contam a história melhor que qualquer média: o LBO recorde da Electronic Arts (cerca de US$ 55 bilhões, o maior alavancado já feito), a aquisição da Aligned Data Centers por um consórcio liderado por gestoras de infraestrutura e gigantes de tecnologia, a oferta da McCormick pelo negócio de alimentos da Unilever e a investida sobre a Warner Bros. Discovery. O middle-market encolheu — a contagem de transações menores recuou, em algumas leituras ao menor patamar desde 2016 —, justamente o segmento onde se constrói a maior parte das atividades. A mensagem prática é incômoda: o crescimento do mercado se concentrou onde poucos atuam.
Por região: América do Norte concentra, Europa surpreende
A geografia do dinheiro em 2025 foi inequívoca. A América do Norte liderou (como historicamente o faz) com folga, com valor de transações subindo mais de 50% no ano e dois trimestres consecutivos acima de US$ 800 bilhões no segundo semestre — efeito direto de um ambiente regulatório mais permissivo nos Estados Unidos, juros com expectativas de queda e um mercado de dívida faminto por retorno. A Europa, frequentemente tratada como coadjuvante, foi a boa surpresa: o valor anunciado em EMEA avançou cerca de 27% no fechamento de 2025 e, pela leitura de estudo da Bain, disparou 77% no acumulado até maio de 2026, transformando a região em um verdadeiro hot spot. O movimento é puxado por consolidação dentro do próprio continente, em busca de competitividade local e global — da oferta de cerca de US$ 24 bilhões por Orange, Bouygues e Iliad sobre a Altice France à investida do italiano UniCredit sobre o alemão Commerzbank, passando pelo lance de US$ 34,4 bilhões da finlandesa Kone pela TK Elevator. Há ainda um vento regulatório a favor: a proposta da Comissão Europeia de avaliar benefícios de fusões ao lado das preocupações concorrenciais, com o objetivo declarado de reforçar a competitividade do bloco.
Oriente Médio e África, partindo de base menor, registraram o salto proporcional mais expressivo — cerca de 65%, para a casa de US$ 121 bilhões —, reflexo do apetite crescente dos fundos soberanos e da migração desse capital para investimentos diretos. A Ásia-Pacífico cresceu de forma mais contida. Para a América Latina, os resultados e o recado de estudos de mercado é o de leitura mais delicada: é a única grande região onde a maioria dos investidores, segundo estudo da Mergermarket, espera piora nas condições de financiamento em 2026 — mais da metade projeta acesso a crédito mais difícil, restritivo e caro—, o que pressiona avaliações e alonga prazos de execução por aqui.
Para o Brasil, vale uma leitura à parte. O país segue sendo o principal destino de M&A da região (mais de 60% das transações na região), mas opera sob duas amarras simultâneas que o cenário global de 2026 só acentua: custo de capital local elevado e uma percepção de risco que cobra prêmio sobre qualquer tese. Isto provoca também uma gap de avaliação, que não é só uma questão de expectativa de múltiplo, mas de moeda, de juro e de janela. Setores como agronegócio, infraestrutura e serviços financeiros concentram boa parte do fluxo, e é neles que estruturas como earn-outs, rollovers e pagamento em caixa ganham peso desproporcional para destravar negócios. O capital estrangeiro continua olhando para o Brasil — mas, em linha com a lógica global, olha para ativos de escala, com fluxo de caixa visível e tese clara, não para o meio da tabela.
Foco América Latina: poucos negócios, cheques maiores
A América Latina viveu, em escala própria, a mesma fotografia do mundo: menos negócios, valor maior. Pelos dados da TTR Data, a região fechou 2025 com o número de operações praticamente estável — alta de cerca de 1% — e o valor agregado subindo perto de 19% sobre 2024. É a versão latino-americana do mercado em K: o volume não se expandiu, mas o tíquete médio sim, com transações maiores e mais sofisticadas puxando os números. Ao longo do ano, mês após mês, o padrão se repetiu — contagem caindo na casa de um dígito e valor avançando dois dígitos.
A geografia regional é conhecida de quem opera por aqui, e 2025 não a alterou: o Brasil domina com folga, respondendo por aproximadamente 60% do volume de transações e cerca de 50% do valor. Depois de Brasil, alinham-se México, Chile, Colômbia, Argentina e Peru, com posições que mudam conforme se olhe número de deals ou capital mobilizado. O México se destacou pelo valor — capital mobilizado subindo de forma expressiva, impulsionado pelo nearshoring e por ativos de manufatura e energia —, enquanto a Argentina chamou atenção pelo aumento de volume e de valor, em meio à recalibragem de confiança no novo ciclo político. Em números da TTR Data (acumulado até novembro de 2025), o Brasil somou cerca de 1.644 transações e US$ 45,9 bilhões em capital mobilizado; o México, cerca de 268 operações e US$ 28,1 bilhões (alta de 76% em valor); e a Colômbia, cerca de 240 negócios e US$ 6,6 bilhões — em um total regional próximo de 2.656 transações e US$ 96 bilhões, alta de 13% no valor.
Setorialmente, a tecnologia segue como o motor — em particular as verticais de fintech, IA, dados e serviços de TI, que concentraram boa parte da atividade. Energia, serviços financeiros e manufatura emergem como vetores adicionais, com o nearshoring beneficiando logística, indústria e imobiliário. O perfil de investidor reforça a especificidade regional: fora do Brasil, cerca de 73% do volume é cross-border — ou seja, o mercado depende de capital estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos e da Europa (com Espanha e Reino Unido liderando o fluxo europeu). As multilatinas — Mercado Libre, América Móvil, Vale, Bimbo, Cemex, BRF, Gerdau e diversas outras — tornaram-se compradoras cross-border cada vez mais relevantes, elevando a sofisticação dos processos competitivos de venda.
O private equity regional deu sinais de recuperação seletiva, mas ainda opera com cautela: no primeiro semestre de 2025, o número de operações de PE caiu de forma relevante e o capital efetivamente desembolsado recuou, refletindo a mesma incerteza macro e o aperto de liquidez que marcam o ciclo. O venture capital seguiu contraído. A leitura para 2026, segundo casas que cobrem a região, é de um mercado que recompensa quem sabe precificar risco país e estruturar em torno dele — Brasil liderando em volume e valor, México em manufatura e energia, Chile ancorado em tecnologia e infraestrutura, e Argentina como mercado de teses pontuais com forte proteção contratual.
Foco Brasil: o motor doméstico que destoa da região
Se há um mercado que merece análise à parte, é o brasileiro — e não apenas por tamanho. O Brasil fechou 2025 como o mercado mais ativo da América Latina, com cerca de 1.877 transações (alta de aproximadamente 7,6%) e valor reportado em torno de R$ 313,5 bilhões (alta de cerca de 15,8%), pela leitura da TTR Data. Em dólares, estimativas de mercado situam o total brasileiro perto de US$ 58 bilhões no ano. O recado é o mesmo do mundo, em sotaque local: o valor cresceu mais que o volume, sinal de tíquete médio em alta e de uma concentração crescente em operações maiores e mais estruturadas.
A grande distinção do Brasil frente ao resto da América Latina é a profundidade doméstica. Enquanto a região, fora do Brasil, é majoritariamente movida por capital cross-border, o mercado brasileiro tem uma base robusta de compradores estratégicos locais, sponsors de private equity domésticos e investidores institucionais — o que sustenta o fluxo de negócios mesmo quando o capital estrangeiro fica mais seletivo. Em 2025 o investidor nacional esteve presente em ais de 80% das transações anunciadas no país. Na prática, isso significa que o Brasil precifica e financia em reais, e o adquirente estrangeiro que trata o país como uma transação simples em dólar costuma encontrar atrito na etapa de preço e financiamento. Quem entende o ecossistema local de operações e funding leva vantagem.
Por setor, a tecnologia lidera em número — o segmento de Internet, Software e Serviços de TI registrou cerca de 340 negócios, com alta na casa de 13% —, seguido de imobiliário e bancos e investimentos. Em valor, porém, o protagonismo é de infraestrutura, energia, recursos naturais/ mineração e químicos: foi nesses setores que se concentraram as maiores operações de 2025, com destaque para a rotação de ativos no setor de energia (movimentações no pré-sal e a construção de ativos de transmissão) e o reposicionamento em serviços financeiros, com vendas de participações relevantes a investidores institucionais domésticos. Para quem trabalha com agronegócio e setores tradicionais, é o tipo de pipeline que combina escala, fluxo de caixa visível e teses de consolidação — exatamente o perfil que atrai capital institucional global.
No perfil de investidor, dois pontos merecem destaque. O primeiro é a recuperação expressiva do private equity local: o valor transacionado por PE no Brasil mais que dobrou em 2025 (alta superior a 110%, para perto de R$ 57 bilhões em 119 operações), revertendo um 2024 fraco e sinalizando que o sponsor doméstico voltou à mesa. O segundo é a persistência do estratégico como espinha dorsal do mercado — movido pela ausência de janela de IPO, que empurrou muitos players para o M&A como rota de crescimento e de liquidez. Vale ainda registrar o avanço do capital chinês, que ultrapassou US$ 6 bilhões em investimentos no país em 2025, e a permanência dos Estados Unidos como maior origem de IDE. No campo concorrencial, o CADE analisou 846 operações em 2025, ante 698 em 2024. Já o venture capital recuou: cerca de R$ 14,5 bilhões em 367 rodadas, queda de 18% em valor.
O início de 2026 confirma a tese. O primeiro trimestre foi o mais forte para o período desde 2021, com cerca de US$ 15,9 bilhões transacionados — alta de aproximadamente 30% sobre o Q1 de 2025 —, apesar da queda no número de operações concluídas (de 198 para 153). É a divergência clássica entre valor e contagem, agora em estado puro no Brasil: menos negócios, muito maiores. As maiores operações do trimestre traduzem a maturidade do mercado — a combinação Odontoprev e Bradesco Saúde, avaliada em cerca de US$ 5,8 bilhões, e a entrada do Warburg Pincus em participação minoritária na Global Eggs, por cerca de US$ 1 bilhão, esta última um recado claro do capital estrangeiro sobre a atratividade do agronegócio brasileiro como classe de ativo.
Para 2026, a leitura predominante no mercado é de otimismo cauteloso, mesmo sendo ano eleitoral. Sustentado pela expectativa de queda de juros ao longo do ano, por ventos favoráveis na liquidez global e pelo efeito de transbordamento do volume recorde dos Estados Unidos. Há também um componente de calendário: parte da atividade tende a ser antecipada para o primeiro semestre, antes do ruído eleitoral, com grandes tíquetes liderando e uma redução esperada no número total de deals no ano. O mercado de situações especiais e ativos estressados segue ativo e deve atrair alocações oportunistas de fundos dedicados — terreno fértil para teses de turnaround e para estruturas de preço criativas.
A conclusão é que o país oferece o melhor e o pior dos dois mundos. O melhor: um mercado profundo, com base doméstica resiliente, setores de classe mundial (agro, recursos naturais/ mineração, energia, infraestrutura, serviços financeiros) e um ciclo de juros que deve jogar a favor em 2026. O pior: custo de capital ainda elevado, volatilidade cambial e um gap de avaliação que mistura expectativa de múltiplo com risco de moeda e de janela política.
Se há um vencedor isolado, é a tecnologia — e, dentro dela, a inteligência artificial. O setor de TMT (Technology, Midia & Telecom) dominou tanto em número quanto em valor de operações em 2025, com mais que o dobro do valor do segundo colocado, industriais e químicos. As maiores transações do ano traduzem a tese: a corrida por infraestrutura digital e capacidade de computação, simbolizada pela aquisição da Aligned Data Centers por um consórcio liderado por gestoras de infraestrutura e gigantes de tecnologia, o maior negócio de data centers já registrado.
Tecnologia continuará como o setor de maior crescimento em M&A cross-border em 2026, e a IA aparece como o subsetor mais atraente com folga — perto de 78% das indicações entre os três primeiros, reduzindo temas que dominavam o discurso há pouco, como cibersegurança e analytics. Industriais e energia e infraestrutura dividem o segundo posto. No primeiro semestre de 2026, segundo estudo da Bain, o valor de M&A estratégico cresceu em todos os setores, com energia e recursos naturais (cerca de US$ 367 bilhões no acumulado) e industriais (cerca de US$ 336 bilhões) à frente da própria tecnologia em valor absoluto. Mais do que isso, a IA passou a puxar negócios para fora do setor de tecnologia: a fome de energia dos data centers está por trás de movimentos como a proposta de fusão entre as utilities NextEra e Dominion, voltada a gerar a potência elétrica que a demanda de IA exige. Para quem cobre agronegócio e setores tradicionais, a leitura é de duas velocidades: enquanto a tecnologia atrai prêmios, ativos industriais e de transição enfrentam a linha tênue entre o carve-out bem-sucedido e a venda de ativo em dificuldade — exatamente o tipo de situação em que disciplina de avaliação e estrutura de preço fazem a diferença entre fechar e não fechar. Vale um dado de setor: em serviços financeiros foram cerca de 2.236 negócios em 2025, com o valor saltando de US$ 282 bilhões para US$ 419 bilhões — alta de 49%.
Estratégicos versus financeiros: quem realmente comandou
Aqui está talvez o ponto menos intuitivo de 2025, e o que mais merece atenção de quem estrutura mandatos. Apesar de todo o discurso sobre a montanha de capital comprometido e não chamado — conhecido como dry powder —, foram os compradores estratégicos que sustentaram o mercado. Pela contagem de deals, os corporativos seguem respondendo por cerca de dois terços da atividade global, e estimativas de Q1 2026 chegam a apontar que estratégicos representaram em torno de 82% do volume de operações. No primeiro semestre de 2026 verifica-se um contraste ainda mais nítido: o valor de M&A estratégico cresce 36% no acumulado do ano, enquanto o valor de investidores financeiros recua 9%. Boa parte da onda de megadeals veio justamente de adquirentes pouco habituais — empresas que normalmente não fazem M&A — saindo da inércia para apostas transformacionais.
Isso não significa que o private equity tenha ficado de fora. Pelo contrário: o valor de deals de PE e venture cresceu cerca de 20% em 2025, chegando perto de US$ 469 bilhões e respondendo por algo como 15% do valor total de M&A — alguns provedores estimam o volume bruto movimentado por sponsors em torno de US$ 2 trilhões quando se incluem add-ons e transações relacionadas. O recado é que o dry powder de PE é apontado como o driver número um de M&A para 2026, com 48% das indicações, à frente de consolidação setorial e venda de unidades não estratégicas.
O paradoxo do private equity é conhecido de quem está na ponta: capital sobrando de um lado, pressão por saídas do outro. As carteiras amadureceram — mais de um terço das participações já passa de cinco anos —, os retornos de buyout ficaram modestos frente a um mercado público eufórico com IA (no topo do quartil, cerca de 8% de retorno em 2025, menos da metade do S&P 500), e o impasse de avaliação trava o ciclo natural de sponsor-to-sponsor. A resposta tem sido criativa: os veículos de continuação se consolidaram como principal saída via secundário, e o mercado de secundários bateu recorde, crescendo perto de 48% para US$ 240 bilhões. Soma-se a isso o uso de earn-outs, rollovers e equity estruturado para fechar a distância entre comprador e vendedor.
YTD 2026: recorde no placar, asterisco no detalhe
Os números amplos do primeiro semestre de 2026 confirmam que a retomada de 2025 não foi sopro passageiro. Nos cinco primeiros meses do ano o mercado global de M&A avançou 41%, a caminho do segundo melhor ano da história — uma recuperação ampla, espalhada por mercados e setores, e ancorada em transformações estratégicas. Mas, como em 2025, o detalhe importa: o crescimento é de valor, não de volume, e a contagem de operações segue praticamente estagnada.
O primeiro trimestre, em particular, veio com manchete de recorde — e um asterisco enorme. Dependendo da base, o valor global ficou entre US$ 861 bilhões e US$ 1,6 trilhão, com leituras de alta de 9% a mais de 50% sobre o mesmo período de 2025. O problema é o que sustenta esse número: uma única operação, a aquisição da xAI pela SpaceX por cerca de US$ 250 bilhões, respondeu sozinha por algo entre 15% e 30% do valor do trimestre.
Excluindo-se esta transação, o quadro fica mais sóbrio e mais fiel ao que se vê na mesa. A contagem de transações caiu — em uma das leituras, cerca de 30% menos negócios anunciados, com o middle-market americano recuando perto de 20% em janeiro e fevereiro. O valor de TI, excluída a xAI, despencou mais de 50% no trimestre, pressionado por receios de disrupção da própria IA e por um mercado de crédito privado mais exigente para financiar grandes LBOs de software. Energia e consumo foram os destaques positivos. O cross-border seguiu firme, com a Europa como a região mais procurada por compradores.
É o mesmo padrão de 2025, agora em estado puro: o topo brilha, a base se arrasta. Para o operador, o início de 2026 confirma que o jogo é de seleção — de setor, de ativo e de qualidade de crédito —, não de maré que levanta todos os barcos.
Financiamento: caixa é rei, crédito privado (seletivo) é força
Nenhuma análise de M&A em 2026 fecha sem olhar para como os negócios serão pagos. O caixa continua sendo rei: 90% dos investidores utilizam reservas próprias como a forma de financiamento mais presente no mercado, à frente de empréstimos bancários tradicionais e do crédito privado. A lógica é prática: caixa fecha rápido, dá poder de barganha ao comprador e ajuda a costurar o gap de avaliação com o vendedor.
Mas a história estrutural do ciclo é outra: a ascensão do crédito privado. Crédito Privado é um pilar do financiamento de operações nos próximos dois anos. O private credit ganhou espaço justamente no middle-market, onde o direct lending virou marca registrada — capital que se desloca rápido, customizado e disponível em situações em que o banco tradicional não aparece. No Brasil e na América Latina, dado o aperto de financiamento local, o crédito privado tende a ser não um complemento, mas um substituto relevante — e uma alavanca de competitividade para quem souber estruturá-lo. Problema está na qualidade deste crédito.
Há ainda um movimento que merece radar: o seguro de operação. O uso de R&W/W&I (representações e garantias) disparou na última década e, com o custo em mínimas históricas em algumas geografias. É a infraestrutura silenciosa que permite saídas limpas e transferência de risco pós-fechamento — outra ferramenta que ajuda a destravar negócios em ambiente de preço apertado.
O que esperar: confiança disciplinada, não euforia
Juntando as peças e o retrato de 2026 não é de boom indiscriminado, mas de confiança disciplinada. Empresa sativas em M&A, investidores financeiros e assessores estão positivos e esperando mais atividade — e, curiosamente, blindados quanto à geopolítica: o apetite tem se mostrado pouco afetado pela tensão no Oriente Médio. Depois de Covid, guerra na Ucrânia e tarifas, o setor aprendeu a operar no incerto. A trava real é mais prosaica e mais difícil de contornar: o desencontro de preço – principal obstáculo, à frente da própria geopolítica. Daí a importância das ferramentas que voltaram ao centro do trabalho de estruturação — earn-outs, rollovers parciais, equity estruturado, seguro de representações e garantias (R&W/W&I) com custo em mínimas históricas em alguns mercados — e do crédito privado. O caixa segue sendo rei.
Para quem assessora transações na América Latina e, em particular, no Brasil, ficam três conclusões. A primeira é que a janela existe, mas é estreita e seletiva: o capital está disponível globalmente, porém migra para escala, qualidade e setores com tese clara — tecnologia, infraestrutura, energia e ativos resilientes de serviços. A segunda é que o financiamento local pode ser o ponto de fricção do ciclo, o que valoriza estruturas criativas de preço e o uso inteligente de crédito privado e seguro de operação. A terceira, e mais nova, é que o paradoxo vale fortemente por aqui: à medida que IA e datas centers redesenham a tese de setores como energia, infraestrutura e serviços financeiros — todos fortes no pipeline brasileiro —, o comprador que enxergar a transformação por IA já na tese de aquisição largará na frente. Em um mercado em K, o trabalho do assessor deixa de ser surfar a maré e passa a ser, com disciplina, identificar de que lado do K o ativo está, estruturar a transação para que ele atravesse para o lado certo — e garantir que comprar seja apenas o começo da criação de valor, não o fim.
Alexandre Pierantoni é Managing Director e Head de Investment Banking para a América Latina e Brasil da Kroll
