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Um hobby para chamar de seu

Aluizio Falcão Filho
5 de julho de 2026

Em um final de semana no interior, íamos juntar um grupo de amigos para uma happy hour despretensiosa. Um dos convidados, no entanto, resolveu trazer um camarada das antigas que estava em sua casa. Depois das apresentações de praxe, o amigo do amigo sapecou-me uma pergunta em tom de desafio: “O que você gosta de fazer?”. Quando ia responder, ele emendou: “Não quero saber o que você faz profissionalmente; quero saber o que você gosta de fazer”.

Comecei respondendo que adorava a minha profissão e minha atividade, mas que gostava muito de música. O sujeito, então, replicou: “Muita gente me responde isso. Mas o quanto você gosta de música?”. Já estava me sentindo incomodado com o interrogatório, que parecia ser a antessala de uma palestrinha, e disse que tinha três guitarras e duas controladoras de deejays. “Por que esses equipamentos?”, perguntou o inquisidor. “Porque eu sou deejay desde os quinze anos de idade e fui profissional aos vinte e um”.

Como o meu amor pela música parecia ser verdadeiro, o rapaz perdeu interesse em mim. Depois, vendo a dinâmica dele com outro colega, percebi que aquelas perguntas eram um preâmbulo para uma avaliação mais profunda das pessoas, com base em uma tese que ele desenvolveu para estimular o potencial de seus clientes (sim, ele era um palestrinha profissional).

Na sexta-feira da semana passada, tive a felicidade de fazer um set em um evento social realizado por MONEY REPORT, ao lado dos deejays Jesus Luz e Igor Cunha. Fiz uma playlist de remixes da era disco e me diverti bastante. Adoro fazer mixagens, aquele momento em que o deejay tem que casar a batida de uma música com a da próxima.

Hoje, com a tecnologia, isso é relativamente fácil. Mas convido os profissionais de hoje a imaginar como era na época em que pilotei as carrapetas de uma casa noturna que chegou a receber 1.000 pessoas aos sábados. Os discos eram de vinil e tínhamos de adivinhar qual era o número de batidas por minuto de cada canção (hoje, o equipamento mostra esse índice para você na tela; esforço zero).

Cada vez que crio uma mixagem nova, fico eufórico. E vejo nessas horas o quanto é importante para qualquer um ter um interesse fora do trabalho (insisto: mesmo que você ame o que faz, como é meu caso). Quando alguém possui um hobby, abre um mundo novo de possibilidades e de aprendizados.

Naquela sexta-feira, por exemplo, Igor Cunha me mostrou recursos de mixagem nas mesas novas da Pioneer que eu desconhecia, assim como formas inéditas de casar os ritmos das músicas do set. Isso abriu algumas possibilidades em minha cabeça, que me garantiram alguns momentos de relaxamento mental entre uma análise política e uma leitura macroeconômica.

Na semana retrasada, ainda, baixei um aplicativo que divide as músicas em vários canais. Com isso, podemos isolar apenas os vocais, ou só a guitarra ou apenas o baixo. Dessa forma, podemos fazer os nossos próprios remixes de canções ou isolar determinados instrumentos para prestar melhor atenção nos acordes. Fiz isso com “You never give me your money”, dos Beatles, para ouvir melhor o arranjo de guitarra ao final da canção. Foi como se um mundo novo se abrisse para mim. Repeti o processo com outras músicas e o resultado foi espetacular. Talvez isso não seja nem um pouco interessante para você que está lendo essas linhas, mas para mim é algo de outro mundo.

 A cada experiência dessas, fica claro como a música funciona para mim como um território de liberdade, descoberta e renovação, um espaço que escapa às pressões do cotidiano e permite que novas ideias surjam no meio deste processo. Expandir o meu repertório musical, a esta altura do campeonato, é uma surpresa maravilhosa. Tenho certeza de que a tecnologia pode proporcionar algo do gênero a todos que têm um hobby diferente do meu. Ah, você não tem um hobby? Sugiro começar. A vida fica muito mais divertida.

(Falando em diversão, saio de férias a partir de amanhã e volto no dia 21. Até lá!)

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