Relatório destaca que estratégia do governo ocorre em cenário de alta inadimplência, juros elevados e desaceleração econômica
A agência de classificação de risco Moody’s alertou que a estratégia do governo federal de ampliar a oferta de crédito por meio dos bancos públicos aumenta os riscos para o sistema financeiro brasileiro em um momento de deterioração das condições de crédito. Em relatório divulgado nesta terça-feira (23), a agência afirma que a aceleração dos empréstimos ocorre em um cenário de elevado endividamento das famílias, juros altos e desaceleração da atividade econômica, fatores que tendem a pressionar a inadimplência e a rentabilidade das instituições financeiras.
Segundo a Moody’s, enquanto o Banco do Brasil passou a adotar uma postura mais cautelosa, reduzindo o crescimento da carteira de crédito e endurecendo os critérios de concessão, a Caixa Econômica Federal e o BNDES mantêm uma estratégia mais expansionista, alinhada ao papel anticíclico desempenhado pelos bancos públicos na execução de programas do governo. Para a agência, esse movimento amplia a exposição dessas instituições a um ambiente de crédito mais desafiador.
O relatório destaca que a Selic em 14,25%, combinada ao elevado nível de endividamento das famílias, tem reduzido a capacidade de pagamento dos tomadores de crédito. Como consequência, o índice de empréstimos com atraso superior a 90 dias no sistema bancário atingiu 4,4% em abril de 2026. No Banco do Brasil, a inadimplência em operações de varejo chegou a 6,82% em março, enquanto na Caixa o índice geral de empréstimos em atraso subiu de 2,49% para 3,71% em um ano, impulsionado principalmente pelo aumento da inadimplência no crédito rural e para pequenas e médias empresas.
Embora reconheça que Banco do Brasil, Caixa e BNDES contam com mecanismos para reduzir parte desses riscos – como forte capitalização, provisões para perdas e participação relevante em operações de menor risco ou com garantias públicas -, a Moody’s afirma que essas defesas “podem ser testadas” caso o ambiente de crédito permaneça fraco por um período prolongado. A agência também observa que o crescimento da carteira do BNDES acima da média do sistema, em um cenário econômico mais frágil, representa um potencial aumento de risco.
Na avaliação da Moody’s, a necessidade de elevar provisões para perdas com empréstimos deverá continuar pressionando os resultados dos bancos públicos ao longo de 2026 e 2027. A agência destaca que o Banco do Brasil registra seus menores resultados trimestrais desde 2020, após o aumento das provisões relacionadas ao crédito rural e ao varejo, enquanto a Caixa também elevou as reservas para perdas em operações agrícolas e com pequenas empresas.
O relatório conclui que manter o equilíbrio entre os objetivos de política pública e a disciplina na concessão de crédito será determinante para preservar a qualidade dos ativos, lembrando que, historicamente, ciclos de crédito orientados por políticas governamentais foram seguidos por deterioração dos indicadores de crédito.
