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Guerra ameaça modo de vida em Dubai, a Riviera dos Emirados

Da redação
16 de março de 2026
Em artigo no NYT, o urbanista Richard Florida alerta que os ataques aos EAU derrubaram a imagem de segurança que transformou a cidade em um polo de negócios globais

Ataques do Irã aos Emirados Árabes Unidos (EAU) colocaram em xeque a imagem de segurança e estabilidade que ajudou a transformar a cidade de Dubai em um dos principais centros financeiros e logísticos do mundo. A análise foi publicada pelo urbanista Richard Florida nesta segunda-feira (16), no New York Times. Ele questiona se o conflito pode abalar o modelo de desenvolvimento da cidade.

Segundo o artigo, desde 28 de fevereiro mais de 260 mísseis balísticos e 1,5 mil drones foram detectados sobre o território dos Emirados. A maioria foi interceptada ou caiu sem grandes danos, mas explosões e sirenes passaram a fazer parte do cotidiano de Dubai. Pelo menos quatro pessoas morreram em decorrência dos ataques. Em um dos episódios recentes, drones caíram nas proximidades do Aeroporto Internacional de Dubai, provocando feridos e interrupções temporárias nas operações.

Miragem

A instabilidade levou bancos e empresas internacionais a orientarem funcionários a evitar escritórios, enquanto parte da população estrangeira – especialmente profissionais de alta renda ligados ao setor financeiro – começou a deixar o país em voos comerciais ou jatos privados fretados pelas empresas.

Florida afirma que o conflito atinge o pilar central do modelo econômico de Dubai, construído ao longo de décadas: apresentar-se como um refúgio global para negócios, turismo e investimentos, distante das tensões políticas do Oriente Médio e de altos impostos, mas próximo o suficiente do dinheiro árabe que emana do petróleo e do comércio marítimo. A cidade cresceu rapidamente com essa estratégia, atraindo grandes volumes de capital e talentos internacionais, criando o cenário idílico de uma riviera opulenta às margens do Golfo Pérsico.

Entre seus símbolos, o maior arranha-céu do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros de altura e 160 andares, e o Palm Jumeirah, arquipélago artificial em forma de palmeira para aumentar a costa e impulsionar o turismo de luxo oferecendo marinas, vilas, residências de altíssimo padrão e shoppings opulentos.

Dubai abriga quase 5,6 milhões de habitantes em sua área metropolitana, população que quadruplicou desde 2000. Estima-se que seus limites concentrem mais de 81 mil milionários e tenha recebido cerca de 9,8 mil novos milionários apenas em 2025, consolidando-se como um dos principais polos financeiros entre Europa, Ásia e África.

Tudo isso sem perder a característica menos comentada. Se trata da maior cidade (a capital é Abu Dabi) de uma monarquia constitucional pró-forma, sem direito a voto popular, onde direitos humanos são desrespeitados sem grandes pudores, mulheres são aprisionadas a mando da família e cujo conselho de emires sempre termina elegendo os mesmos. De 1966 até 2004, o poder esteve com Zayed Bin Sultan Al Nahyan (1918-2004). Depois de sua morte, o substituto foi seu filho, Khalifa Bin Zayed Al Nahyan (1948-2022), seguido do meio-irmão, Mohamed bin Zayed Al Nahyan (1961).

Grande demais para fracassar

Apesar do petróleo, há uma dependência de estrangeiros que revela uma fragilidade estrutural. Cerca de 90% dos moradores não são nacionais, muitos vivendo com vistos de trabalho temporários vinculados ao emprego. Em momentos de crise, argumenta o autor, essa população altamente móvel pode simplesmente migrar para outros centros globais. O resultado seria a implosão de uma poderosa maré quase contínua de construção civil, serviços e a tentativa de estabelecimento de uma base industrial.

Para Florida, o caso de Dubai ilustra um fenômeno mais amplo: o surgimento de cidades globais concebidas como plataformas de capital e mobilidade, focadas em atrair riqueza e talentos internacionais. Esse modelo tem sido replicado por outras metrópoles, como Miami, Riad, Istambul e Doha.

O conflito atual, contudo, expõe o que ele chama de “contradição fundamental”. A principal é a ausência de raízes profundas ou senso de pertencimento entre grande parte dos moradores, o que impede o estabelecimento de um senso coletivo de lealdade e nação. “Lugar, parentesco e um modo de vida compartilhado eram os materiais básicos da identidade humana”, escreveu, citando princípios fundadores de qualquer nacionalidade.

Ainda assim, o analista ressalta que Dubai provavelmente é “grande demais para fracassar”. Como efeito da crise dos subprimes, uma bolha especulativa que explodiu em 2007, houve uma debandada em 2009 e 2010. As causas foram alavancagem excessiva e projetos imobiliários grandes demais para se manterem em um período instável. Um momento simbolizado por Mercedes abandonadas no estacionamento do aeroporto Al Garhoud e a paralização temporária das obras em Palm Jumeirah.

Assim, o conflito demonstra que nem mesmo uma cidade construída sobre petróleo, comércio internacional, fundos soberanos, crescimento de PIB, infraestrutura de primeira e novidades urbanas está imune às forças da geopolítica.

O que MR publicou

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