Chairman do BTG Pactual vê Brasil com economia resiliente e menor risco político, embora falte uma estratégia clara de longo prazo para o país
Se há uma palavra que define o Brasil neste início de 2026, no ponto de vista de André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, é contraste. O país chega ao novo ciclo eleitoral com economia relativamente organizada, fluxo relevante de capital externo e estabilidade institucional maior que no passado recente — mas ainda sem um projeto claro para transformar essas vantagens em algum protagonismo global.
A avaliação foi feita durante painel da CEO Conference do BTG Pactual, em conversa com o jornalista William Waack, que trouxe à discussão temas espinhosos como credibilidade das instituições, ambiente político e o lugar do Brasil em um mundo cada vez mais polarizado.
Melhor do que a percepção
Esteves insistiu que o diagnóstico econômico costuma ser mais negativo que os dados justificam. Para ele, independentemente do resultado eleitoral, o próximo governo não herdará um cenário crítico.
“Quem assumir não vai encontrar terra arrasada. Temos reservas altas, investimento externo forte e inflação em trajetória de queda.”
Isso não elimina desafios. O executivo defendeu a necessidade de um ajuste fiscal moderado para estabilizar a dívida pública, mas afastou a ideia de crise iminente.
Política menos decisiva
Um dos pontos mais enfatizados foi a mudança de percepção sobre risco político, um temor recorrente da classe produtiva. Para Esteves, a forte entrada de recursos mesmo às vésperas da eleição indica maturidade institucional.
“As eleições estão fazendo menos preço nos ativos. Isso mostra que o risco político diminuiu.”
Ele descreveu a disputa presidencial como aberta e competitiva, com leve vantagem para o presidente Lula pela experiência eleitoral, mas com espaço para um candidato de direita competitivo caso haja unificação.
Instituições: críticas existem, mas sistema reage
A conversa começou com questionamentos sobre credibilidade institucional, especialmente após episódios recentes envolvendo Judiciário e sistema financeiro. Waack ressaltou a percepção pública de desgaste; Esteves respondeu com pragmatismo.
“Falhas acontecem, mas as instituições estão funcionando. Há investigações, afastamentos, mecanismos de controle.”
Ele considera que, apesar das imperfeições, o Brasil mantém bases institucionais comparáveis com as de democracias há tempos amadurecidas e mais relevantes economicamente, .
Público-privado sem dependência
Provocado sobre a ideia de que fazer negócios no Brasil exige proximidade com o Estado, Esteves foi direto:
“É totalmente possível construir empresas vencedoras sem comprar acesso. Quem depende disso costuma ter vida curta.”
Ele argumentou que o próprio mercado financeiro evoluiu em transparência e governança, reduzindo espaço para práticas menos institucionais.
Força global subestimada
Talvez o trecho mais enfático tenha sido sobre geopolítica. Para Esteves, o país não explora plenamente seu peso internacional, especialmente em temas como segurança alimentar, energia e commodities.
“Temos uma capacidade geopolítica enorme e pouco explorada. O mundo vai precisar cada vez mais do que o Brasil produz.”
Ele chegou a sugerir que a polarização global pode abrir espaço para o país atuar como parceiro relevante de diferentes blocos.
Neutralidade como vantagem
Nesse contexto, o executivo defendeu a tradição diplomática brasileira de manter diálogo amplo.
“Nossa vocação é ter boas relações com todos. Não faz sentido escolher lados quando podemos nos beneficiar da pluralidade.”
Ele citou relações simultâneas com Estados Unidos, China, Europa e Oriente Médio como exemplo de posicionamento pragmático.
Empresários, política e “cultura do medo”
Ao final, Esteves comentou o ambiente empresarial global, criticando o que chamou de excesso de cautela na interlocução com autoridades.
“Falar com governos de forma construtiva acumula credibilidade. A cultura do medo é ruim para o debate público.”
Por isso, defendeu que empresários e especialistas têm papel relevante ao fornecer dados técnicos para melhorar decisões políticas e regulatórias.
Potencial e definição
A síntese do painel foi a de um Brasil mais estável do que costuma parecer, mas ainda buscando transformar estabilidade em estratégia. Para Esteves, o país reúne vantagens naturais, institucionais e econômicas suficientes para crescer — desde que consiga alinhar política, economia e posicionamento internacional em uma direção clara.
Em outras palavras, menos drama conjuntural e mais projeto de longo prazo.
O que MR publicou
- Bolsa na corda bamba, eleição, juros e IA na pauta do ano
- Galípolo defende cautela com os juros, mas que a redução está perto
- Haddad não convence a Faria Lima
- Entre dívida alta e IA emergente, ano exigirá cautela
- Haddad fala de sucessão na Fazenda, legado e cenário de 2026
- Motta blinda BC: “Não pautaremos revisão da autonomia”
- Bessent explica a estratégia do Tesouro dos EUA na CEO Conference
