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A Coca-Cola nasceu grudada no gelo e no limão?

Aluizio Falcão Filho
27 de novembro de 2022

Quando era adolescente, passava minhas férias de julho no Rio de Janeiro. Numa dessas vezes, um grande amigo do meu pai, Chico Santino, levou-me, com toda a família dele, ao lendário bar Veloso – onde Tom Jobim e Vinicius de Moraes viram o doce balanço de Helô Pinheiro a caminho do mar e compuseram a imortal “Garota de Ipanema”. O garçom nos acomodou na varanda e perguntou o que queríamos. Os adultos foram de chope e os adolescentes de Coca-Cola.

Quando o refrigerante chegou à mesa, fiquei intrigado: o copo estava cheio de gelo e continha uma fatia fininha de limão, uma receita que nunca tinha visto em São Paulo. O líquido foi servido e borbulhou mais do que o normal. Provei e gostei do toque que o limão dava ao sabor caramelo da Coca-Cola.

O tempo passou e aquela combinação carioca virou regra. Algumas décadas depois, se alguém pedir esse refrigerante aqui em São Paulo, vai receber invariavelmente um copo com gelo e limão, sem que se peça isso ao garçom.

Eu até gosto desse jeito de beber refrigerante. Mas nem todas as vezes eu quero sentir o sabor de limão. Ou experimentar a bebida tão gelada. Passei algumas semanas fazendo um experimento: sempre que estava em um restaurante, pedia uma coca zero. E nada mais dizia. Em todos os casos, sem exceção, o copo vinha com gelo e limão.

É o caso de se perguntar: a Coca-Cola, quando foi inventada em Atlanta, veio com uma receita segundo a qual era obrigatória a adição de limão e gelo?

Ai de quem ousar inverter aquilo que hoje parece ser a ordem natural das coisas. Peça uma coca só com gelo. A chance de ela pousar em sua mesa apenas com uma rodela de limão é gigantesca. Ou experimente o caminho inverso – ordenar um copo apenas com limão. Você será brindado com bastante gelo.

A mesma lógica pode ser empregada ao guaraná, que de tempos para cá passou a ser associado a uma fatia de laranja e gelo. Particularmente, nunca gostei dessa mistura: a sensação é que estou consumindo um drops Dulcora laranja em estado líquido.

Outra mixórdia que veio para ficar e não suporto: a fatia de abacaxi com raspas de limão. Para mim, a mistura de dois sabores ácidos não funciona – embora entenda que muita gente aprecie essa combinação.

Mas os restaurantes, ultimamente, não conseguem dissociar uma fruta da casca da outra. Eu sempre aviso os atendentes: um abacaxi sem raspas, por favor. Parece que estou falando com as paredes. Em nove entre dez vezes, o abacaxi se materializa à minha frente com inúmeras casquinhas minúsculas de limão.

Já cansei de protestar. Estoicamente, uso a faca para retirar a superfície de raspas do meu abacaxi. Nesta semana, porém, resolvi trocar de fruta e pedi um mamão papaya de sobremesa. O garçom me perguntou: “Com gotas de limão?”.

Cancelei o papaya e pedi um mil-folhas. Afinal, Deus protege os gulosos: quando pedimos qualquer coisa calórica, ninguém erra o seu pedido ou faz perguntas irritantes…

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