Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
Medicamentos para TDAH não funcionam como previsto
Medicamentos para tratar transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), como Ritalina e Adderall, não atingem diretamente as regiões cerebrais responsáveis pela atenção conforme a ciência acreditava. Uma nova pesquisa da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em Saint Louis, sugere que esses medicamentos afetam principalmente os sistemas cerebrais envolvidos na recompensa e no estado de vigília, em vez das redes tradicionalmente associadas à atenção. Essa possibilidade pode mudar os tratamentos
Publicado em 24 de dezembro na revista Cell, o estudo indica que estimulantes podem melhorar o desempenho, fazendo com que pessoas com TDAH se sintam mais alertas e interessadas. Em vez de aprimorar diretamente o foco, os medicamentos parecem aumentar o engajamento com as tarefas. Os pesquisadores também observaram padrões de atividade cerebral semelhantes aos efeitos de uma boa noite de sono, contrabalançando as alterações cerebrais típicas associadas à privação de sono.
“Como neurologista pediátrico, prescrevo estimulantes e sempre me ensinaram que eles facilitam os sistemas de atenção, dando às pessoas mais controle sobre aquilo em que devem focar”, disse Benjamin Kay, professor assistente de neurologia que atende pacientes no Hospital Infantil de St. Louis. “Mas mostramos que não é esse o caso. Na verdade, a melhora na atenção é um efeito secundário do fato de a criança estar mais alerta e achar a tarefa mais gratificante, o que naturalmente a ajuda a se concentrar mais nela”.
Foram analisados os dados de ressonância magnética funcional (RMf) em repouso de 5.795 crianças de 8 a 11 anos. A equipe comparou a conectividade cerebral de crianças que tomaram estimulantes prescritos no dia do exame com a de crianças que não tomaram. As que tomaram apresentaram maior atividade em regiões cerebrais associadas à excitação e ao estado de vigília, bem como em áreas envolvidas na previsão do potencial de recompensa. Em contrapartida, os exames não mostraram aumentos significativos em regiões classicamente ligadas à atenção. Nos Estados Unidos, estima-se que 3,5 milhões de crianças de 3 a 17 anos tomem medicamentos para TDAH.
Remédios para diabetes podem melhorar ou agravar tumores

Pesquisadores do Hospital da China Ocidental da Universidade de Sichuan estão analisando como medicamentos usados para tratar diabetes podem influenciar o câncer. Embora o diabetes em si seja associado há muito tempo a um risco maior de câncer, agora é investigado se os medicamentos desempenham algum papel direto, além do controle dos níveis de açúcar no sangue e do peso corporal. Uma revisão recente examina como tratamentos amplamente utilizados, como metformina, inibidores de SGLT2 e agonistas do receptor de GLP-1, podem afetar o crescimento do câncer, alterando a multiplicação celular, a resposta do sistema imunológico e o desenvolvimento da inflamação. Essas descobertas apontam para possíveis novas estratégias de tratamento, ao mesmo tempo que destacam o quanto ainda permanece desconhecido.
O diabetes tipo 2 (DM2) tem sido associado a maior probabilidade de desenvolver vários tipos de câncer, incluindo de fígado, colorretal e de mama. O controle da glicemia e do peso corporal continua sendo essencial para pessoas com diabetes, mas evidências sugerem que esses fatores, por si só, não explicam completamente o aumento do risco de câncer. Isso levou os cientistas a explorar como os próprios medicamentos para diabetes podem influenciar o câncer, seja reduzindo o risco ou, em alguns casos, criando efeitos negativos não intencionais. Compreender essa conexão pode ajudar a esclarecer como os tratamentos para diabetes se encaixam na prevenção e no tratamento do câncer.
300 mil idosos brasileiros têm algum grau de autismo
A prevalência autodeclarada de Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre brasileiros com 60 anos ou mais é de 0,86%, o que corresponde a aproximadamente 306.836 pessoas da população. A taxa é ligeiramente maior entre os homens (0,94%) em comparação com as mulheres (0,81%).
A análise foi feita pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base no Censo Demográfico de 2022.
De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas no mundo inteiro vivem com algum grau de TEA, condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social. Embora o TEA seja tipicamente diagnosticado e manifeste seus sinais durante a infância, trata-se de uma condição que permanece ao longo da vida. Em adultos mais velhos o reconhecimento ainda é limitado, tanto no diagnóstico quanto ao acesso a terapias adequadas.
Segundo a pesquisadora, Pessoas que envelhecem no espectro tendem a apresentar redução na expectativa de vida e alta prevalência de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, além de maior risco de declínio cognitivo e de condições clínicas, incluindo taxas mais elevadas de doenças cardiovasculares e disfunções metabólicas, afirma a pesquisadora da PUCPR Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro
De acordo com a pesquisadora, a identificação do TEA em pessoas idosas é difícil porque algumas manifestações do transtorno como isolamento social, inflexibilidade, comportamento rígido e interesses restritos podem ser confundidos com características de outros transtornos ou sintomas de ansiedade, depressão ou demência. Além disso, a falta de profissionais capacitados para a identificação e até as modificações nos critérios podem dificultar o diagnóstico.
