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Três semanas e meia de paz e amor

Três semanas e meia de paz e amor

Quem diria? Já são 25 dias de estabilidade política. Sem brigas, cutucadas e ameaças. Neste período, não houve recados mandados no cercadinho do Palácio do Alvorada. Ou maiores incidentes com a imprensa. Nessas três semanas de paz e amor, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu até ensaiar uma reaproximação com seu ex-partido, o PSL. Será que vai costurar pontes para se reconectar com políticos que foram importantes em sua eleição, como Joice Hasselmann e Major Olímpio?

Essas três brigas – PSL, Joice e Olímpio – representam bastante o estilo bolsonarista antes do dia 18 de junho. Nenhuma, por exemplo, foi provocada exatamente por um forte motivo. No caso do PSL, a divergência foi o uso da verba do fundo eleitoral e alguns detalhes na condução do partido, nada que não pudesse ser resolvido com meia-dúzia de conversas. Com Joice, o desentendimento foi porque o presidente achou que a deputada estava próxima demais do governador João Doria. Mas também se envolveu em discórdia com o maior adversário político de Doria, o senador Major Olímpio.

Bolsonaro dinamitou essas e outras pontes antes de completar um ano aboletado no Palácio do Planalto. O presidente começou o mandato com certa síndrome de autossuficiência que chegou ao auge no mês de maio. Some-se a isso uma personalidade dada a arroubos belicosos e teremos a receita perfeita para uma montanha russa política.

Boa parte dessas confusões tem origem na conexão política entre Jair Bolsonaro e seguidores. Ou seja, seus eleitores esperam um comportamento aguerrido e até estimulam esse tipo de atitude. Faz parte da dinâmica entre políticos e apoiadores a simbiose. E o presidente, que tem grande apreço por essa base, sempre jogou para a torcida.

Apesar de colocados em ringues ideológicos opostos, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva têm um ponto em comum: ambos adoram o contato com o povo. Lula, depois de entregar a faixa presidencial a Dilma Rousseff, fez uma verdadeira peregrinação até o avião da FAB que o levou a São Paulo, distribuindo abraços. Subiu a escada da aeronave apertando a mão de seus admiradores. Bolsonaro tem a mesma disposição para o corpo a corpo – e, durante a pandemia, esse foi um problema sério, já que ele criava aglomerações sem o uso de máscaras de proteção. Não foi à toa, portanto, que o presidente acabou contaminado com o coronavírus.

Esse novo Bolsonaro veio para ficar? Até quando ele vai conseguir se controlar e não criar celeumas desnecessárias? O ideal seria que este tipo de comportamento fosse adotado sem tréguas daqui para frente, em nome da governabilidade e de uma convivência mais harmônica com os demais poderes.

Muitos analistas, no entanto, enxergam a nova conduta como uma reação exclusiva à prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e epicentro de um escândalo de rachadinhas.

De fato, segundo levantamento do jornal O Globo, esse procedimento pode ser confirmado no conteúdo dos tuítes do presidente. Nos 23 dias anteriores ao encarceramento de Queiroz, Bolsonaro fez dez ataques a adversários e doze de críticas à imprensa. A partir dessa data, contudo, nenhuma agressão foi registrada. É por essa razão que há observadores da cena política acreditando que o mandatário voltará à forma antiga assim que essa crise for resolvida.

Pode até ser. Mas, antes de Queiroz ser preso, o Planalto firmou uma aliança com o Centrão, para ampliar sua base de votação no Congresso. E sedimentou esse acordo no melhor estilo da velha política, distribuindo cargos na administração federal. Com isso, conseguiu votos e botou em campo a turma do deixa-disso. O início desta fase paz e amor, assim, foi com a adesão deste grupo político e culminou com o recolhimento do ex-assessor.

Pelo menos um de seus adversários já avisou que continua na oposição. Major Olímpio afirmou que sai do PSL se a agremiação se reaproximar do Planalto. O senador não vai ficar quieto e deve cutucar o presidente na tribuna e pela imprensa. Até agora, Bolsonaro não foi a campo provocar ninguém. Mas como reagirá às provocações dos inimigos? Enfrentará as alfinetadas de forma fleumática? Esperemos que sim. Se o governo agisse dessa forma desde janeiro de 2019, boa parte do calendário de reformas já teria sido aprovado pelo Congresso e a economia teria mais musculatura para enfrentar os desafios impostos pelo coronavírus.

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