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Tasso é candidato para valer?

Em um filme de Robert Wise, “O Dia em que a Terra Parou”, lançado em 1951, um alienígena visita o nosso planeta, pousa seu disco voador nos Estados Unidos e pede uma reunião com os líderes de todos os países. Um oficial da Casa Branca, no dia seguinte, diz que o presidente americano fará a reunião, desde que ela seja em Washington. Mas, em seguida, lê um telegrama do premiê soviético afirmando que ele comparecerá ao encontro, desde que realizado em Moscou.

Essa cena me veio à cabeça quando li sobre a movimentação em torno de uma candidatura única de centro para concorrer contra Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Há alguns postulantes que estão conversando com representantes de outros partidos, mas só aceitam a ideia se o nome escolhido for o deles. Trata-se de uma transposição da famosa história envolvendo a cor dos automóveis Ford Modelo T, que saíam da linha de produção pintados de preto. Perguntado se o carro poderia ser vendido em outra cor, Henry Ford respondeu: “O cliente pode ter o carro de qualquer cor, desde que seja preto”.

Na visão desses candidatos, a composição da chapa pode ser qualquer uma e a coligação deve abrigar uma gama enorme de partidos. Mas o nome deles é que precisa estar gravado na cédula eleitoral.

Este, na prática, é o momento da verdade entre as candidaturas. Como se sabe, muitos se jogam na disputa para obter o posto de vice ou costurar um acordo que os levem ao ministério em caso de eleição. A ambição de encabeçar uma chapa, de verdade, está presente apenas em três ou quatro nomes.

Essa lista final diminui por conta das circunstâncias. Há postulantes que não conseguem deslanchar nas pesquisas e, com isso, perdem cacife na hora de negociar. Esse processo, como ainda está em uma fase inicial, apresenta troca de gentilezas e uma discreta dança do acasalamento. Mas a fase seguinte é a que interessa: quem será o candidato? A partir daí, teremos discussões recheadas de poucos fatos e muitas opiniões – até que se formem consensos e grupos alinhados em torno de determinados nomes.

O PSDB, em particular, parece perdido neste processo. O candidato natural ao pleito do ano que vem seria o governador de São Paulo, João Doria. Nos últimos dois anos, ele antagonizou com Bolsonaro em praticamente todos os aspectos da política brasileira. Ao final do ano passado, peitou o presidente durante a pandemia e bancou um acordo para produzir uma vacina no Brasil, através do Instituto Butantan. Essa vacina responde, hoje, por 80 % das doses aplicadas no país. Apesar disso, o governador não consegue entusiasmar os eleitores pelo Brasil e seu nome permanece empacado nas enquetes sobre 2022.

Na esteira desta dificuldade, começou-se a especular o nome do governador do Rio Grande do Sul. Eduardo Leite, porém, é considerado jovem demais para o cargo – tem 36 anos – e já andou levando bordoadas da militância bolsonarista nas redes sociais.

Agora, a bola da vez é a do senador Tasso Jereissati. Um nome sempre lembrado pela cúpula tucana, Jereissati sempre se esquivou dessa missão – especula-se que, anteriormente, a razão apresentada seria uma isquemia do coração, ocorrida em 2000. Tasso é apresentado como uma espécie de Joe Biden brasileiro, um político veterano que poderia enfrentar os dois líderes atuais das pesquisas, representando o Centro, com um apelo junto ao eleitorado nordestino e chances de crescimento nas regiões Sul e Sudeste.

O problema é que Tasso tem um telhado de vidro que pode ser explorado pelos rivais. Ele foi acusado de desvios de verbas em processos no Banco do Estado do Ceará (BEC) e na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). O senador negou as acusações, mas os casos seguramente voltarão à baila durante o processo eleitoral.

Outra questão que deverá ser explorada é um acontecimento de 2009, quando Tasso foi acusado de utilizar verbas de passagens aéreas para fretar jatinhos particulares. Levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo mostrou que o senador utilizou cerca de R$ 470 000 para alugar aeronaves. Tasso admitiu que utilizara R$ 360 000 para esses fins, fretando jatinhos quando o seu avião particular não estava disponível para uso.

Essa prática não é necessariamente ilegal, pois o regimento da Câmara Alta tem brechas que permitem uma interpretação segundo a qual o dinheiro das passagens pode ser utilizado para financiar deslocamentos aéreos. Mas, definitivamente, é um hábito que não pega bem. Na eleição de 2010, o senador – bombardeado pela propaganda eleitoral dos opositores, que exploraram esses três episódios – perdeu o cargo, para o qual foi reconduzido em 2014.

A pergunta, agora, é a seguinte: Tasso é mesmo candidato e vai bater o pé para encabeçar uma chapa, agindo como o ex-pupilo Ciro Gomes, ou está apenas entrando em cena para garantir uma vice candidatura ao PSDB?

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