Voto de Cármen Lúcia garante placar de 3 a 1; ex-presidente será o 1º a sofrer condenação criminal por atentar contra a democracia
A 1ª Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) formou maioria, nesta quinta-feira (11), para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, por liderar uma tentativa de golpe de Estado no Brasil. O voto da ministra Cármen Lúcia acompanhou o relator, Alexandre de Moraes, e o ministro Flávio Dino, estabelecendo placar de 3 a 1. Na véspera, Luiz Fux havia divergido, pedindo a absolvição.
Com a decisão, Bolsonaro se torna o primeiro ex-presidente da República condenado criminalmente por atentar contra a democracia. Ele já havia sido declarado inelegível pelo TSE em 2023 por usar a máquina pública para espalhar desinformação sobre o sistema eletrônico de votação.
Em sua apresentação, Cármen Lúcia afirmou que o político “instrumentalizou” as instituições em seu favor, o que caracterizou os crimes da qual foram acusados: tentativa de abolição violenta do estado de direito, organização criminosa armada, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.
Ela esclareceu que, apesar de não haver provas absolutas, como gravações e documentos assinados, há evidências, denúncias e posicionamentos são convergentes, o que caracterizaria a participação de Bolsonaro desde o período em que conduzia no poder Executivo. Também foram considerados os testemunhos dos oficiais de alta patente que se recusaram a participar da intentona.
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Até o momento, as posições na Primeira Turma do STF são:
- Alexandre de Moraes: condenação dos oito réus por todos os crimes, com soma de penas
- Flávio Dino: condenação dos oito réus por todos os crimes, com pena diferenciada conforme a participação na conspiração golpista
- Luiz Fux: condenação de Mauro Cid e Walter Braga Netto por abolição violenta do estado de Direito, absolvição total dos outros réus
- Cármen Lúcia: condenação dos oito réus por todos os crimes, com soma de penas
Nesta etapa do julgamento, estão no banco do STF os réus:
- Jair Bolsonaro, ex-presidente da República
- Mauro Barbosa Cid, tenente-coronel do Exército e ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro
- Alexandre Ramagem, deputado federal pelo PL e ex-diretor da Abin
- Almir Garnier, almirante e ex-comandante da Marinha
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal
- Augusto Heleno, general do Exército e ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI)
- Paulo Sérgio Nogueira, general do Exército e ex-ministro da Defesa
- Walter Braga Netto, general do Exército, ex-ministro da Casa Civil e candidato a vice de Jair Bolsonaro em 2022
Ainda falta votar o presidente da 1ª Turma, Cristiano Zanin. Encerrado o julgamento, os ministros devem fixar a pena, que pode chegar a 43 anos de prisão. A expectativa é de conclusão nesta 6ª feira (12). Recursos internos, como embargos, só poderão ser apresentados após a publicação do acórdão, em até 60 dias.
Pressões internacionais
A decisão foi tomada sob forte tensão diplomática. O presidente dos EUA, Donald Trump, já havia sancionado ministros do Supremo pela Lei Magnitsky, restringido vistos e imposto tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, alegando perseguição a Bolsonaro.
Na semana do julgamento, autoridades americanas chegaram a cogitar medidas militares para “defender a liberdade de expressão no Brasil”. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atua desde fevereiro em lobby em Washington para pressionar por sanções contra integrantes do STF.
O plano golpista
No voto de Moraes, o Supremo reconheceu que Bolsonaro liderou um grupo composto por militares e ex-integrantes de sua gestão com o objetivo de manter-se no poder após a derrota eleitoral em 2022.
Segundo o relator, o grupo difundiu desinformação sobre as urnas eletrônicas e buscou apoio das Forças Armadas para instaurar ruptura institucional. O ministro citou o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa até o assassinato de autoridades, incluindo o próprio Moraes e a chapa eleita Lula-Alckmin.
“Não restam dúvidas de que houve tentativa de golpe, de abolição do Estado democrático de Direito e a atuação de uma organização criminosa com danos concretos ao patrimônio público”, disse Moraes.
Linha do Tempo da tentativa de golpe (2018–2025)
| Ano / Mês | Evento | Detalhes |
|---|---|---|
| 2018 | Desconfiança sobre urnas eletrônicas | Bolsonaro questiona lisura das eleições; defende voto impresso; PEC do voto impresso proposta pelo Congresso. |
| 2019–2020 | CPMI das Fake News | Investiga desinformação e campanhas digitais que influenciaram eleições. |
| 2021 – Jul | Reunião com embaixadores | Bolsonaro alega vulnerabilidades nas urnas; sem provas; intensifica ataques ao STF e TSE. |
| 2021 – Ago | Rejeição PEC do voto impresso | Câmara rejeita proposta; Bolsonaro intensifica ataques ao STF. |
| 2022 – Nov | Eleições presidenciais | PL contesta resultado no TSE; ação rejeitada e multada; Bolsonaro começa planejamento golpista. |
| 2022 – 5 Jul | Reunião ministerial | Bolsonaro instrui ministros a agir antes das eleições; planeja desinformação e “guerrilha eleitoral”. |
| 2022 – Pós-eleições | Manifestações pró-golpe | Acampamentos em 23 estados + DF; bloqueios, vandalismo e ameaças a autoridades; financiados por setores econômicos. |
| 2022 – Minutas do golpe | Plano Punhal Verde e Amarelo / Operação 142 | Previa prisão de opositores, fechamento de instituições e assassinatos de autoridades; envolvimento de militares e ex-ministros. |
| 2022 – 12 Dez | Tentativa de invasão da PF | Manifestantes tentam liberar presos; confrontos, vandalismo e ameaças em Brasília. |
| 2023 – 8 Jan | “Intentona Bolsonarista” | ~4 mil invasores no Congresso, STF e Planalto; destruição de prédios públicos; comparação internacional com invasão ao Capitólio (2021). |
| 2023 – Jan a Mar | Prisões e investigação | Mais de 2 mil detidos; afastamento de Anderson Torres; intervenção federal temporária no DF. |
| 2023–2025 | Processos e investigações | Bolsonaro e ex-ministros indiciados por tentativa de golpe, organização criminosa e atentados contra instituições democráticas; delações premiadas revelam planejamento golpista. |
| 2025 – 11 Set | STF condena Bolsonaro por tentativa de golpe | Com voto decisivo de Cármen Lúcia, 1ª Turma forma maioria (3 a 1) para condenar Bolsonaro e outros réus. Ele se torna o 1º ex-presidente condenado criminalmente por atentar contra a democracia. Penas podem chegar a 43 anos. |
O que MR publicou
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