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Riqueza soprada para longe

São Paulo e Mato Grosso do Sul em 2021 pareceram Oklahoma e Texas durante as tempestades de poeira da década de 1930. Descuidar da terra e da água é suicídio socioeconômico, mas há soluções possíveis

Nem tão de uma hora para outra, mas causando grande surpresa, tempestades de poeira teimam em se tornar comuns desde o final de setembro em Ribeirão Preto e Franca, no próspero interior paulista. A imagem poderia ter sido captada em alguma cidade árabe, no Sahel africano, no Xinjiang chinês, nas proximidades do outback australiano ou, se em preto e banco, no Oeste americano, em algum daqueles dust bowls (no destaque) que assolaram aquele país na década de 1930. Bem, a comparação mais antiga também é a mais aproximada. Assim como nos Estados Unidos, práticas agrícolas intensivas e a retirada descontrolada de água para fins de irrigação causaram erosão e o rebaixamento do leito de rios e lagos, preparando literalmente o terreno para um período de seca que em algum momento chegaria. Até aqui é fácil de entender. O que deveria preocupar é que a situação nos EUA e no Brasil, mesmo com uma distância temporal de 86 anos, é parecida. Além da estiagem, tanto lá quanto cá há também o fator contribuinte da recessão econômica. Então, é preciso pensar nessa poeira toda também como nuvens de dinheiro ao vento.

Em Franca (SP), ventos levantaram toneladas de terra ressecada pela longa estiagem na Região Sudeste

Ainda que figura de linguagem, não há exagero na afirmação. Em uma estiagem, o primeiro a perder é o plantador, seja posseiro ou agroempresário. Esse pessoal é primeiro a ver seu investimento, a safra, ir embora. Depois, com a terra rachada, o que começa a se despedaçar é seu patrimônio mais importante. O que está no ar carregado pelo vento é terra em suspensão. E terra é valor. É só pegar uma enxada (pás só funcionam em filmes) e retirar um metro cúbico de solo. Na maior parte do mundo bastaria menos. O resultado é esterilidade quase garantida. Nenhuma propriedade, por mais extensa que seja, vale muito se ultrapassada a primeira camada de matéria orgânica e mineral. Choca perceber que as nuvens de terra sopradas nessas tempestades tenham se formado em uma região subtropical. Para surgirem, foi preciso quilômetros de áreas sem proteção vegetal. Não falo de florestas ou cerrado. Bastariam pés de milho, cana ou pastagens, se estas culturas resistissem sem chuvas.

Stratford, no extremo norte do Texas, em 1935

A agricultura brasileira é de sequeiro, em sua grande parte. Com pouca água caindo por um período longo dá no que vemos. Só que aquilo que ainda é considerado fenômeno pode se tornar algo constante. A falta de planejamento com os recursos naturais deveria ser maior diante dos extremos climáticos, com secas prolongadas, chuvas torrenciais e temperaturas médias mais elevadas que no passado. No documentário “Solo fértil” (Kiss the ground – 2020), do Netflix, é proposta uma saída para as consequências da crise na agricultura pelo caminho oposto, mediante o aumento da saúde da terra como forma de atenuar as mudanças climáticas. Não se trata de alguma alternativa utópica de abraçadores de árvores e adoradores de pandas. Ninguém quer voltar ao período pré-industrial. Evitar a elevação dos mares deve ser impossível, mas manter – e até aumentar – a produtividade é uma possibilidade não muito distante. É o que o Brasil aprendeu a fazer com técnica e tecnologias adaptadas aos trópicos desde o início dos 1970. Agora é só mudar de método. Há quem saiba fazer isso na iniciativa privada e na academia.  

Por enquanto, o governo só fala em racionamento, enquanto tenta soluções em programas de proteção que vão demorar anos para dar resultado. Na região Sudeste, o principal é o Programa Águas Brasileiras, do Ministério do Desenvolvimento Regional, que pretende ampliar a oferta hídrica para o consumo e a produção. Existem outras ações, como preservação de matas ciliares, aquelas nas margens dos cursos d’água e mananciais – “Só foram nos dizer que não era para cortar 30 anos depois”, me disse um sojicultor gaúcho instalado no Mato Grosso. O recente fim da necessidade de licenças ambientais para projetos de irrigação nem entrou nas atuais discussões, mas a produção agrícola é responsável por 70% do consumo de água doce extraída. Daí se percebe o quanto estamos defasados. Em uma crise hídrica como a que se abate agora, pedir aos consumidores urbanos que não demorem no banho é um paliativo cínico.

Lições do cinema e da literatura

Em 15 de outubro, quando ventos de mais de 90 km/h carregaram uma muralha de poeira sobre Campo Grande, a capital do Mato Grosso do Sul, o temor foi geral. Só houve registro parecido nos últimos tempos no período posterior às queimadas desenfreadas no Pantanal, no ano passado. E não foi coincidência. A temperatura da cidade estava em 33° antes da ventania, baixando para 18º logo após. O episódio assustou quem mora na cidade e tirou o sono de quem vive da terra.

Os Joad, família retratada em “As vinhas da ira”, filme de 1940 baseado no livro homônimo de John Steinbeck, narra ficcionalmente as consequências do desastre ambiental que provocou os dust bowls durante a Grande Depressão

Felizmente, o cenário de tragédia humanitária retratado em “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, e “O Quinze”, de Raquel de Queiroz, é tão distante quanto distópico no Centro-Sul do Brasil. Se tudo der errado, antes veríamos uma situação vagamente parecida com a de “As vinhas da ira”, de John Steinbeck, que mostra os efeitos socioeconômicos da seca e do descuido ambiental na vida de uma família rural empobrecida no meio de uma crise econômica – para quem não tem paciência com filme antigo, vale a minissérie documental “Dust bowl” (2012), de Ken Burns – em inglês no YouTube. Mas há esperança. E bastante. Se no final dos anos 1930 foi possível recuperar parte das terras perdidas no Oklahoma e Texas com os conhecimentos disponíveis então e em uma região com uma oferta de água bem menor, dá para resolver a questão por aqui. Qualquer possibilidade de desenvolvimento que não contemple preservar e ampliar a oferta de água doce será um convite à pobreza.

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