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O perigo da unanimidade burra em tempos de pandemia

Há muitos anos, o escritor Nelson Rodrigues vaticinou: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. O dramaturgo, nascido no Recife e radicado no Rio de Janeiro, morreu muito tempo antes da era das redes sociais. Apesar disso, a máxima de sua autoria pode ser aplicada diretamente ao comportamento das pessoas nos dias de hoje, especialmente em relação aos grupos de WhatsApp que debatem a crise do coronavírus.

A mecânica das redes sociais é parecida no mundo inteiro. Um grupo é formado e há uma interação forte no início. Todos estão ansiosos para dar sua opinião e interagir com seus colegas. Rapidamente, porém, as diferenças de pensamento surgem. E são formados dois grupos em evidência – aqueles que antagonizam as opiniões. A grande maioria, no entanto, assiste o duelo verbal em silêncio. Muitos torcem para um dos lados. Outros não concordam com nenhum dos argumentos e ficam do lado da briga.

Com o tempo, um lado vai ganhando a discussão. E os derrotados vão partindo, sejam eles ativistas ou calados. Uns poucos desafiadores ficam. Mas vai se formando um consenso em torno de uma ideia. É esse tipo de unanimidade que tomou conta da rede social. Há pouquíssimo debate em torno de conceitos. A rede, assim, se transformou num amontoado de vários consensos.

Em tempos de pandemia provocada por um vírus novo, do qual pouco se sabe, discutir ideias num ambiente em que não há renovação de opiniões e dados inéditos pode ser perigoso. Por não conhecermos a fundo o aspecto técnico do processo de contaminação que nos assola, precisamos ter a humildade de tentar aprender mais com os outros. Isso se faz com paciência, respeito e curiosidade – três qualidades que parecem estar em falta na atualidade.

Quando ficamos em nosso mundinho digital, conversando sempre com as mesmas pessoas, flertamos perigosamente com a unanimidade que reduz a inteligência de todos. Sem debate, não há desafio e o resultado é nefasto: a estagnação de ideias. Nos dias de hoje, entretanto, não podemos ficar parados. Precisamos do oxigênio do conhecimento e do raciocínio, pois precisamos encontrar soluções diferentes – daquele tipo que se convencionou chamar de “fora da caixa”. Somente assim poderemos reativar a economia, proteger vidas e evitar o colapso do sistema de saúde.

Se ficarmos falando apenas com o espelho, não chegaremos a nenhum lugar.

É preciso entender uma coisa: aquele que pensa diferente de nós também é afetado pela crise e quer sair dela. Vamos entender a lógica que está por trás do pensamento de nossos antagonistas. E ver se existe alguma conexão entre o que pensamos e o que eles pensam. O objetivo é comum: superar esse desafio inédito. Já é um começo. Vamos deixar a soberba – um dos pecados capitais – de lado e fingir que nosso oponente é o professor daquela matéria que odiamos. Apesar de não gostar daquilo que ouvimos, precisamos entendê-lo para passar na prova. Está em nossa pauta um dos testes mais difíceis impostos à humanidade. Vamos tratar de passar nessa prova – e com louvor.

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