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O debate dos vices de ontem não se compara ao de 1988

Ontem foi o debate dos candidatos a vice-presidente para a próxima eleição dos Estados Unidos. Embora não tenha sido tão ruim quando ao embate entre Donald Trump e Joe Biden, a batalha verbal que envolveu Mike Pence e Kamala Harris também não foi das melhores, mas se mostrou bem mais civilizada do que a dos cabeças de chapa (Pence interrompeu Harris 16 vezes, enquanto a senadora fez o mesmo com o vice-presidente em nove ocasiões, um índice bem menor do que ocorreu na semana passada). Do lado republicano, tivemos um discurso um tanto agressivo; já a candidata democrata se mostrou um pouco mais centrada. A linguagem corporal dos dois refletiu esse comportamento: Pence muito tenso (a ponto de nem tentar afastar uma mosca que se abrigou em seu cabelo e lá ficou por mais de um minuto) e Harris arriscando alguns sorrisos aqui e ali.

Apesar da maior capacidade de empatia demonstrada pela senadora democrata, uma pergunta de Pence ficou sem resposta – se Joe Biden, em caso de vitória, vai querer ampliar o número de juízes da Suprema Corte para diluir a importância dos conservadores neste tribunal. Esta é uma questão importante porque vários assuntos debatidos na alta tribuna americana, nos últimos anos, foram julgados pela maioria conservadora. Fala-se muito sobre esse tema na cena política, mas os democratas estão evitando o assunto de uma forma tão explícita que até levanta suspeitas.

Ao assistir a disputa entre Kamala Harris e Mike Pence, lembrei-me do meu debate favorito entre candidatos a vice, ocorrido em 1988 entre os senadores Lloyd Bentsen (partido democrata, vice de Michael Dukakis) e Dan Quayle (republicano, vice de George Bush pai). Os jornalistas presentes, especialmente Tom Brokaw, um dos âncoras históricos da rede NBC, pegaram no pé de Quayle por conta de sua juventude. O republicano tinha na época 41 anos e era considerado inexperiente para a posição.

Outra moderadora do debate, Judy Woodruff, da rede PBS, argumentou que, dado o cenário político americano das últimas décadas, haveria uma chance de 50 % de Dan Quayle se tornar presidente. Brokaw, então, fez a seguinte ponderação: “A razão pela qual estamos aqui nesta noite é porque o senhor não está apenas concorrendo à vice-presidência; o senhor cita a experiência que teve no Congresso, mas certamente deve ter um plano sobre o que fazer caso se torne presidente, como ocorreu com vários vices durante os últimos 25 anos”.

Quayle assumiu um tom compungido e começou a resposta: “Essa é a terceira vez que respondo a essa pergunta e vou tentar respondê-la novamente, da forma mais clara possível, porque a pergunta que você está fazendo é ‘que qualificações eu tenho’ ou ‘o que eu faria neste tipo de situação’?”. Neste momento, sua voz embargou de forma estudada e mandou uma frase que seguramente havia planejado com seus assessores: “Eu tenho mais experiência que muitos outros que encararam a vice-presidência deste país. Eu tenho mais experiência no Congresso do que Jack Kennedy tinha quando ele assumiu a presidência”.

Quayle comparou sua juventude com a de John Fitzgerald Kennedy, um dos presidentes americanos mais carismáticos de todos os tempos, e ainda o chamou pelo apelido (Jack”), tentando criar uma proximidade com JFK, que era democrata.

Foi neste momento que Lloyd Bentsen deu uma resposta antológica a seu oponente.

“Senador, eu trabalhei com Jack Kennedy. Eu conheci Jack Kennedy. Jack Kennedy foi meu amigo. Senador, você não é nenhum Jack Kennedy”, disparou o democrata, deixando Quayle sem palavras.

Lloyd Bentsen tinha 67 anos e involuntariamente inventou algo que seria moda depois de 30 anos – a lacração.

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