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Mandetta, que também é político, não se compôs; Teich, que só é médico, se alinhou

Luiz Henrique Mandetta era um híbrido de médico e político quando foi indicado ao Ministério da Saúde. Apesar de ter vivido alguns anos no Congresso Nacional, mostrou-se um ministro sem jogo de cintura quando se viu entre suas convicções técnicas e as preocupações do presidente Jair Bolsonaro com a economia durante a pandemia. Pode-se ponderar em favor de Mandetta que Bolsonaro não é um Fernando Henrique Cardoso no tratamento diário com seus auxiliares mais próximos e que conviver com o presidente requer doses maciças de diplomacia. Mas isso era jogo jogado. Todos que aceitaram o convite para dar expediente da Esplanada dos Ministérios sabiam muito bem qual era o comportamento do mandatário e seu estilo de governar. Portanto, a Mandetta não se permite dizer que foi surpreendido com o conflito que se estabeleceu nos últimos dias.

Nelson Teich, por outro lado, tem credenciais técnicas e boa formação, incluindo até um curso de extensão na Universidade de Harvard. É um médico respeitado e de perfil científico. Mas Teich, aparentemente, entrou nessa missão imbuído de um espírito político que falou a Mandetta.

Não deixa de ser irônico: Mandetta, com passado no Congresso, não foi político. Teich, que viveu sua carreira em hospitais e nas universidades, conseguiu se compor com o presidente. Um exemplo disso foi a primeira live em conjunto com o presidente. Bolsonaro insistiu no uso da cloroquina; o novo ministro, com a fala mansa, disse que era necessária cautela para o uso indiscriminado da droga.

Não se pode dizer que o novo ministro vá liberar geral. Pelo contrário. Ele descartou essa possibilidade no futuro próximo. Apenas ponderou, com sabedoria, que a saúde e a economia não são temas com interesses opostos. Mostrou que vai usar sua sensibilidade e seu conhecimento científico para encontrar soluções para o problema.

Teich já deu uma pista sobre suas prioridades: a testagem maciça para mapear de fato a situação real da população brasileira em relação ao coronavírus. Com uma noção melhor do número daqueles que já estão imunes à pandemia, um relaxamento parcial e gradual da quarentena pode ser planejado.

O planejamento para a diminuição das regras de isolamento social é mais que necessário. A população dos grandes centros urbanos está dando mostras de que a quarentena começa a ser desrespeitada pela sociedade. Depois de alguns dias em que o isolamento voltou a subir em São Paulo, a cidade, no dia de ontem, mostrava até pontos de trânsito na zona sul – um indício claro de que há um contingente razoável de pessoas circulando.

Havia uma enorme preocupação de que Mandetta fosse substituído por alguém que desprezasse o perigo que a pandemia representa, como por exemplo o ex-ministro Osmar Terra. O respeito que Nelson Teich desfruta da comunidade médica e suas primeiras palavras em público trazem um conforto a quem via a saída de Mandetta com preocupação.

Agora, resta saber a capacidade de Teich de se manter em sintonia com o presidente apesar de não concordar integralmente com suas opiniões sobre a estratégia de combate ao corona. Há um alinhamento total, o ministro disse. Sabe-se, no entanto, que isso não é verdade. Artigos publicados por Teich no LinkedIn mostram que ele apoiava integralmente a estratégia de isolamento social de Mandetta para combater o estrangulamento do sistema de saúde – a principal causa da quarentena. Teich terá de manter a flexibilidade que mostrou ter neste início de gestão para tocar sua estratégia e, ao mesmo tempo, domar a ansiedade de Bolsonaro. Este jogo de cintura talvez traga uma lufada de tranquilidade nas relações entre Planalto e Ministério, algo importantíssimo para que a equipe da Saúde faça seu trabalho com foco e dedicação.

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