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Há certas coisas que um presidente não pode falar

Há certas coisas que um presidente não pode falar

Em evento agropecuário realizado ontem em Sorriso, no Mato Grosso, o presidente Jair Bolsonaro debochou de quem respeitou o isolamento social, elogiando os produtores rurais que continuaram a trabalhar durante a pandemia. “Vocês não pararam durante a pandemia. Vocês não entraram na conversinha mole de ‘fica em casa’. Isso é para os fracos”, disse.

Um dos grandes problemas que enfrentamos nos dias de hoje é justamente lidar com aspectos desconhecidos em relação ao novo coronavírus. E, toda vez, que a humanidade se depara com algo do gênero, prefere pecar pela cautela excessiva. É por isso que muitas pessoas ainda resistem a sair de casa ou têm medo de ser relacionar socialmente.

Uma das consequências mais evidentes da Covid-19 é uma transformação inequívoca nas empresas. As estruturas corporativas passaram a acolher seus funcionários e compreender certas dificuldades que as pessoas possuem neste momento. O presidente, entretanto, ao contrário dos empresários e executivos, mostra-se sarcástico com a dinâmica da pandemia e alfineta quem, cada qual com sua razão, tem receio de ganhar as ruas.

O que leva o presidente a cruzar a linha regulamentar do respeito em relação às famílias dos 135 000 mortos pelo coronavírus apenas para cunhar uma frase de efeito junto a uma plateia de admiradores? Talvez o problema principal seja o de que Bolsonaro, no fundo, se comunica apenas para seus seguidores mais fiéis, acreditando que os incomodados terão de votar nele em 2022 por falta de uma opção melhor.

Isso até pode acontecer. Mas o presidente está embalado pela alta em seus índices de aprovação. Se continuar a soltar essas máximas, contudo, Bolsonaro entrará em um terreno perigoso – o de criar espaço para o surgimento de uma candidatura fundamentada no bom-mocismo e na crítica a essas estocadas que volta e meia o mandatário dá.

Como se sabe, até agora, a oposição não tinha encontrado uma forma de antagonizar verdadeiramente com o presidente, pois ele abraçou até a causa do assistencialismo, uma bandeira da esquerda, sem perder os preceitos de ser um representante da direita. Ao atacar a personalidade e o caráter de Bolsonaro, no entanto, a oposição pode encontrar um caminho, especialmente se a economia não se recuperar até 2022 e os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal coloquem amarras na distribuição de dinheiro público aos mais paupérrimos.

Mas ainda estamos longe desse pleito. Até lá, Bolsonaro pode passar por um grande período de silêncio, como ocorreu recentemente, e tentar mudar a percepção do eleitorado. Será o suficiente para apagar a má impressão dessas frases lamentáveis? Provavelmente não. Mas isso será esquecido rapidamente se, de fato, as demais opções eletivas de 2022 forem fracas ou ligadas à esquerda.

Nada, porém, justifica uma manifestação tão tacanha, descuidada e ofensiva. Há certas coisas que qualquer presidente deveria ser proibido de dizer.

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