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Exame negativo: mais uma trolagem de Bolsonaro com a imprensa?

Exame negativo: mais uma trolagem de Bolsonaro com a imprensa?

Muitas vezes me pego pensando sobre o comportamento de Jair Bolsonaro: será que o presidente faz algumas coisas com o único intuito de trolar a imprensa? O caso do episódio envolvendo os exames de Covid-19 fez-me revisitar este pensamento.

Numa coluna anterior, há vários dias (estamos prestes a completar dois meses seguidos de isolamento aqui em São Paulo), fiz um comentário que muitos julgaram arriscado – o de que tinha certeza sobre a veracidade do resultado negativo do teste do mandatário. Minha assertividade vinha da não da palavra de Bolsonaro, mas da origem do exame, o laboratório Sabin, que foi cofundado pela bioquímica Janete Vaz, em quem deposito total confiança. Por isso, afirmava com desenvoltura que Janete jamais compactuaria com uma fraude – mesmo que, eventualmente, uma poderosa autoridade federal pedisse algo de gênero.

Bolsonaro resistiu o quanto pôde. Liberou os resultados apenas sob fórceps. A ordem, vinda do Supremo Tribunal Federal, o deixou sem opção: era revelar os resultados ou revelar. A explicação que corre pelas redações, ainda sem fontes oficiais, é que o presidente não se sentia confortável de ter usado pseudônimo e não queria divulgar ao público dados como seus números de RG e CPF.

A demora em mostrar os resultados atiçou desconfianças e gerou algumas teorias conspiratórias. Se o presidente não divulgou os exames é porque foi infectado, dizia uma delas. Bolsonaro esteve nos Estados Unidos com várias pessoas que se contaminaram, logo é óbvio que ele pegou o coronavírus, afirmava outra corrente de conspiradores.

Bem, todos estavam errados. O presidente não tem anticorpos contra o coronavírus.

Quando se pensa na aparente hesitação de Bolsonaro em revelar a comprovação do resultado negativo chega-se à conclusão de que o presidente pode ter trolado a imprensa. Esta não seria a primeira vez que o presidente tem este comportamento. O Planalto já soltou alguns boatos de demissão de ministros (Abraham Weintraub, da Educação, é um nome que volta e meia surge como vítima de uma exoneração) para, no dia seguinte, no cercadinho do Palácio do Alvorada, Bolsonaro desmentir tudo e ainda usar uma de suas expressões favoritas: “fake news”.

Pregar peças na imprensa não é privilégio da direita. Enquanto foi prefeito de São Paulo, Fernando Haddad gostava deste tipo de chiste. Em 2016, ele era criticado diariamente pelo então comentarista da rádio Jovem Pan, Marco Antônio Villa, por trabalhar pouco. A fonte das achincalhes era a agenda do alcaide, que é divulgada aos jornalistas sempre aos finais da tarde.

Haddad, então, teve a ideia de criar e divulgar, através de sua assessoria de imprensa, uma agenda falsa de seus compromissos públicos. Na lista de afazeres do dia, estava escrito: “A partir de 8h30 – Despachos internos”. Não deu outra. Villa o atacou pela manhã e, à tarde, Haddad revelou o trote e soltou fortes cutucadas ao comentarista. Vila, enfurecido, respondeu via Twitter. Em meio a uma chuva de críticas, escreveu (com razão, aliás): “A prefeitura é local para brincadeira?”.

Evidentemente, o presidente não realizou uma pegadinha tão elaborada – se é que elaborou. Mas percebe-se em Bolsonaro reações que modulam entre a revolta e a satisfação quando Bolsonaro flagra jornalistas em algum erro de avaliação ou informação errada. Talvez sua intenção seja a de pregar peças em quem ganha a vida relatando a vida alheia. Talvez não.

Uma coisa, porém, é certa: a batalha que enfrenta com os veículos de comunicação chegou a um ponto alto e nada indica que esteja longe de acabar. O presidente e muitos seguidores vivem dizendo que jornais, revistas e emissoras de TV só batem nele porque não recebem mais verbas oficiais. Mas talvez a fonte de todos os problemas de relacionamento não seja o dinheiro, como quer acreditar o Planalto e sua Secretaria de Comunicação. Muitas vezes, os jornalistas querem apenas duas coisas: notícias e um tratamento digno.

Hoje, muitos bolsonaristas acusam profissionais de imprensa de docilidade em relação ao Partido dos Trabalhadores – mas o fato é que Lula foi bombardeado sem dó a partir de 2004, quando o escândalo Waldomiro Diniz, publicado por mim na revista Época, levou todo o jornalismo brasileiro a revirar a vida de petistas e de seus apoiadores. Foi deste processo que surgiram várias reportagens contra Roberto Jefferson. Uma delas foi uma capa que editei, na qual se comprovava que o então parlamentar possuía rádios no Rio de Janeiro registradas em nome de um laranja (Durval Monteiro, sorveteiro em Cabo Frio,). Foi por conta desta matéria que Jefferson achou estar no meio de uma operação orquestrada pelo Grupo Globo (uma tremenda balela) e resolveu dar uma entrevista na qual denunciou o Mensalão. Mas tarde, ele seria condenado por receber propina do PT.

No meio do ataque que a imprensa exercia sobre o então presidente, Lula se queixava de tudo: dos jornalistas e de seus veículos, além de brigar com um deles, o correspondente do New York Times, Larry Rohter. Mas, com frequência, seu núcleo duro botava os pés pelas mãos e acaba piorando as crises que enfrentava. Isso pode ser visto nesta reportagem de capa, de maio de 2004, da revista Época:

Capa da revista Época de maio de 2004

Na semana em que tal matéria foi publicada, o então senador Antônio Carlos Magalhães, telefonou-me. Até então, ele não havia percebido a sucessão de trapalhadas cometidas pelo Planalto (Briga com New York Times, Waldomiro Diniz, polêmicas em torno do salário mínimo, expulsão dos radicais do PT e uma briga pública com Benedita da Silva) e resolvera comentar a situação. ACM, conhecido pela alcunha de Toninho Malvadeza, era um político sagaz e inteligente. Além disso, entendia a natureza humana como poucos.

Senador Antônio Carlos Magalhães, falecido em 2007

Perguntei a ele, no meio da conversa, qual era a explicação sobre os problemas de Lula em relação à imprensa. Com a sinceridade de sempre, Antônio Carlos deu sua opinião, que citava algo raramente comentado no mercado jornalístico, a corrupção de veículos e jornalistas (como em todas as profissões, é algo que existe, embora raro nas grandes empresas de comunicação). “Há jornalistas que gostam de notícia, outros de prestígio e alguns de dinheiro”, afirmou ACM. “Até aí, tudo bem. Mas você não pode dar dinheiro para quem quer notícia, notícia para quem quer prestígio e prestígio para quem quer dinheiro”. Segundo ele, as dificuldades de Lula decorriam desta falta de sensibilidade.

O problema de Bolsonaro e de sua equipe é de outra natureza: achar que todos os veículos, sem exceção, só querem o dinheiro do governo. Diante desta visão um tanto obtusa, talvez a melhor solução seja mesmo partir para a trolagem pura e simples.

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