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Estados Desunidos da América

A indefinição sobre as eleições americanas deve ser resolvida em breve. Mas, qualquer que seja o resultado – até esta manhã de sexta-feira, 6 de novembro, Joe Biden tinha maiores chances de vencer –, percebe-se que os Estados Unidos estão experimentando um forte sentimento de desunião. Duas linhas políticas, que representam mentalidades e atitudes diferentes, estão em pé de guerra e devem continuar assim por um bom tempo.

Até algum tempo atrás, a maior diferença entre republicanos e democratas estava no plano econômico. Democratas tinham maior foco nos programas sociais e grande tradição em aumentar os impostos, especialmente dos mais ricos. Já os republicanos investiam menos em iniciativas assistenciais, fiscalizavam mais as contas públicas e tinham horror a aumentar impostos. Desde os atentados de 11 de setembro, no entanto, essas diferenças no plano econômico ficaram um tanto difusas – embora Donald Trump tenha reduzido o imposto de renda da camada mais rica da população, esperando que essa medida redundasse em mais investimentos produtivos (até a pandemia, de fato, o país experimentava taxas de pleno emprego).

Hoje, no entanto, o que separa indelevelmente democratas de republicanos – e, por tabela, divide toda a nação americana – é o grau de conservadorismo no campo das ideias, dos conceitos e do comportamento. Republicanos sempre foram mais tradicionalistas que democratas, isso é verdade, mas a distância entre os dois grupos aumentou consideravelmente nos últimos anos.

Se o cidadão tiver resistências à presença de imigrantes no país, preconceitos de maneira geral e um forte sentimento anticomunista (mesmo que os representantes da Foice e do Martelo praticamente inexistam nas plagas do Tio Sam), suas chances de apoiar o partido republicano serão enormes – e, neste caso, o trumpismo acabou arrematando corações e mentes deste perfil de eleitor. Se a natureza do indivíduo for mais condescendente com a imigração, simpática às minorias e não se importar muito com o comunismo alheio, provavelmente essa pessoa votará nos democratas (o ícone deste eleitorado é o ex-presidente Barack Obama e, no futuro, talvez Kamala Harris ocupe esse espaço).

Essas diferenças entre democratas e republicanos, quando colocadas no tabuleiro de debates, dificilmente são discutidas de uma forma totalmente racional. Some-se a isso o fato de que as discussões através das redes sociais são bastante passionais e intolerantes. A soma dos dois fatores é um estado de permanente conflito, especialmente porque o país possui raros campos de consenso.

É verdade que uma parte de quem votou nos democratas em 2020 teve uma atitude que refletiu mais a rejeição a Donald Trump do que o apoio a Joe Biden. Ou seja, são eleitores que não têm exatamente uma forte identificação com os azuis, mas rejeitam a figura do atual presidente e fizeram qualquer negócio para se livrar de Trump.

Não se pode dizer que os Estados Unidos, apesar do nome que batiza a nação, seja necessariamente um país que prima pela coesão. Diferenças de pensamento talvez tenham sido deixadas de lado apenas na fundação da pátria, especialmente nos primórdios da independência. Mas logo surgiram e foram escancaradas no século 19, quando eclodiu a Guerra Civil. Mais do que uma cizânia entre Norte e Sul, o desentendimento tinha como epicentro o regime escravocrata. Contra o sistema escravagista estavam os republicanos do Norte e a favor os democratas do Sul. Como se sabe, os nortistas ganharam a contenda e libertaram os escravos (neste processo, muitos sulistas deixaram o país e emigraram para outra nação cuja economia ainda girava em torno dos escravos. O nome dessa terra? Brasil).

Geralmente, os desentendimentos nos EUA se acentuam em tempos de guerra. O conflito do Vietnã, por exemplo, colocou manifestantes nas ruas e provocou um profundo choque de gerações nos anos 1960. No início da década seguinte, porém, boa parte dos adultos tinha aderido à bandeira pacifista e pressionava o governo, então comandado por Richard Nixon, a desistir da Guerra. A retirada das tropas americanas, porém, só se daria com a assinatura de Gerald Ford, que assumiu a Casa Branca após a renúncia de Nixon.

Hoje, no entanto, não se vê jovens contra adultos. As visões políticas e comportamentais extrapolam as barreiras da idade. Há adolescentes republicanos e idosos democratas – e o contrário também. Entre a maioria desses 320 milhões de cidadãos dos EUA, há uma coisa em comum: a intolerância ao discutir os rumos do país, como se o monopólio da verdade fosse apenas azul ou vermelho. Uma pena. Trata-se da maior democracia do planeta e deveria privilegiar o livre debate de ideias. Mas, em vez de se observar um embate de opiniões, percebe-se com frequência um pugilato de conceitos inflexíveis. O que os Estados Unidos (e o resto do mundo) precisam é de líderes que consigam tirar a raiva do discurso popular e espalhar magnanimidade dentro da sociedade. Sem partidarismos ou personalismos – pois a verdade está sempre na transparência e o progresso na genuína troca de ideias.

P. S.: Evidentemente, há exceções na regra que diz serem os democratas perdulários no que tange o dinheiro público. Bill Clinton, por exemplo, registrou superávit fiscal em seus três últimos anos de administração. E o que dizer de John Fitzgerald Kennedy? Melhor deixar o diálogo abaixo mostrar o que pensava o então deputado Kennedy em 1950. O futuro presidente, numa sessão da Câmara, questionou John Rooney, seu colega de partido e de bancada (Harry Truman, democrata, era o mandatário):

– Gostaria de perguntar: não acha mais perigoso encaramos um déficit de US$ 6 bilhões nas contas públicas, num ano próspero como este, do que um corte de 10 % nessas verbas? Não vejo como possamos ter déficit todo ano. Seria muito melhor cortar 10 % em alguns itens do orçamento.

– Não acho viáveis novos cortes, pois estes recursos se destinam a um serviço vital no Departamento de Estado.

– Não considera o deputado Rooney que um item muito importante na Guerra Fria é a estabilidade econômica de nosso país, para termos recursos em caso de um conflito armado?

John Rooney ficou sem resposta. Mas não houve corte no orçamento e Truman teve a verba que desejava.

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