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E se o governo Bolsonaro fosse uma empresa?

Imagine uma empresa cujo CEO entra em conflito aberto com o Conselho de Administração e as agências reguladoras.  De quebra, diretores fazem críticas abertas ao principal cliente da companhia e amigos da chefia criam confusões sem parar com fornecedores e com a imprensa. Mas, pelo menos, o CFO é quem segura as pontas, pois se trata de alguém apreciado pelos bancos, credores e acionistas.

Transportada para o setor público, respeitadas as devidas diferenças entre os mundos estatal e privado, essa seria uma metáfora bastante razoável para o governo Jair Bolsonaro. O presidente cria caso frequentemente com os poderes moderadores (Legislativo e o Judiciário) e com boa parte do eleitorado. Ministros criticam a China, o maior parceiro comercial do país, Olavo de Carvalho cutuca os militares e os blogueiros extremistas atacam instituições – e todos, em uníssono, bombardeiam a imprensa. Em compensação, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é bem visto por banqueiros, empresários e um naco significativo da sociedade.

Uma receita de fracasso na iniciativa privada não chega a inviabilizar totalmente o Executivo de imediato, mas vai fechando portas e dinamitando pontes. E, agora, com quase um ano e meio de mandato, o presidente Bolsonaro parece perceber que não pode administrar o país de conflito em conflito – especialmente com a confusão gerada com a prisão de Fabricio Queiroz, ex-assessor de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro.

Ontem, Bolsonaro hasteou a bandeira branca: “E nós, em paz e harmonia, com bom entendimento entre os Poderes, todos focados realmente no bem-estar da nossa população e nos anseios da mesma temos certeza que colocaremos o Brasil no local de destaque que ele bem merece”, disse o presidente na cerimônia de estreia do canal Agro+, da grupo Band.

Como se trata de Jair Bolsonaro, ninguém sabe quanto o tempo esse armistício pode durar – se é que existe de fato é uma proposta de paz ou apenas um balão de ensaio. Muitos observadores de Brasília, porém, acreditam que o governo está mesmo procurando uma estrada menos sinuosa e esburacada para seguir em frente.

Uma pacificação em relação aos demais poderes seria o caminho natural para quem selou – e está cumprindo – um acordo com o Centrão, garantindo base parlamentar sólida, e chamou um político apaziguador para ocupar o Ministério das Comunicações (a pasta, a partir da nomeação de Fábio Faria, ganha também o comando da Secom, que detém a verba publicitária do governo).

Muitos, no entanto, estão céticos. Bolsonaro terá mudado? Na semana que passou, presenciamos o mandatário fazendo um esforço sobre-humano para se controlar durante o vídeo gravado com o demissionário Abraham Weintraub e, mais tarde, numa “live” para comentar a prisão de Queiroz. Na verdade, Bolsonaro se segurou tanto que ficou duro feito um manequim quando o ex-ministro pediu um abraço, protagonizando uma cena divertida, daquelas que geram imediatamente dezenas de memes.

Daqui para frente, a bola está com o Congresso e com o Supremo Tribunal Federal. Essas casas vão aceitar de bom grado o aceno? Ontem, os gestos foram recebidos com uma certa frieza. É como diz a sabedoria popular: aquele que bate, esquece rápido; o que apanha mantém a surra na memória. Talvez seja necessário um certo tempo para que os inimigos de ontem se tornem os aliados de amanhã.

Mas, lembrem-se: no mundo da política, mágoas foram feitas para ser esquecidas. O líder comunista Luiz Carlos Prestes fez um aliança com Getúlio Vargas, que anos antes havia despachado sua mulher, Olga Benário, para ser morta num campo de concentração nazista; Luiz Inácio Lula da Silva foi fustigado à exaustão por Fernando Collor nas eleições de 1989, mas os dois seriam aliados em 2002, quando o petista foi candidato e derrotou José Serra. Em 1967, os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubistchek se uniram a Carlos Lacerda para costurar uma oposição ao regime militar.

De todos os políticos que passaram pelo Planalto, dois tiveram grandes dificuldades de estabelecer pontes e perdoar antigos adversários. Um exemplo foi Dilma Rousseff, que sofreu um processo de impeachment. Outro foi alguém que chegou ao poder por conta de um impedimento – o mineiro Itamar Franco, que conseguiu a proeza de ter acabado com a inflação, visto o Brasil conquistar a Copa do Mundo e feito seu sucessor. São verdadeiras façanhas para quem era intransigente e não gostava de perdoar ninguém. Sobre ele, dizia Tancredo Neves: “Itamar guarda o rancor na geladeira”.

Se Bolsonaro continuar disposto a estabelecer a paz entre os poderes, poderá sonhar até com a retomada das reformas que o Brasil tanto necessita. Mas se o caso Queiroz, temperado com a entrada em campo do advogado Frederick Wassef, trouxer surpresas desagradáveis, toda a boa vontade do Planalto em relação ao Congresso e ao STF terá sido em vão. E o país voltará a sentir os solavancos de outra crise política. Agora, só resta à sociedade esperar os próximos movimentos do Ministério Público e da Polícia Federal para saber se respira aliviada ou arregala novamente os olhos.

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