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Datafolha mostra que maioria é contra a renúncia de Bolsonaro

Essa história é uma velha conhecida. Alguém se apaixona por uma pessoa, com seus defeitos e qualidades. Com o tempo, o lado ruim do outro passa a incomodar – e vem a vontade irresistível de tentar moldar a personalidade alheia. Este é daqueles enredos que nunca termina bem. Ou a pessoa não quer mudar ou, a contragosto, finge que mudou. E o resultado final é quase sempre a separação.

A política muitas vezes repete a lógica de um relacionamento amoroso. Tome-se o exemplo de muitos eleitores insatisfeitos com o PT que votaram em Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Hoje, muitos criticam o presidente. Esse julgamento pode ser visto nas pesquisas de opinião que mostram o declínio da popularidade de Bolsonaro, que diminuiu com o comportamento do mandatário durante a eclosão da pandemia de coronavírus no Brasil. Um exemplo disso está na manchete da Folha de S. Paulo deste domingo, dia 5 de abril, que traz os resultados do último estudo do Instituto Datafolha.

Nesta enquete, 59 % se opõem a uma eventual renúncia do presidente da República. Mas 37 % são favoráveis. É possível imaginar que muitos dos que anseiam pela saída de Bolsonaro sejam brasileiros alinhados à esquerda. Mas, neste grupo, também há os de direita e ainda aqueles que votaram no então candidato do PSL em 2018.

Muitos desses eleitores – que talvez poderiam ser classificados como bolsonaristas Nutella –, já nos primeiros anos do mandato, começaram a se espantar com o comportamento do presidente. Entende-se: Bolsonaro tem traços fortes de teimosia, embarca com facilidade em fake news que refletem suas crenças e briga com facilidade, inclusive com seus aliados. Esta conduta afasta muitos. Mas é o caso de se perguntar: por que o espanto?

O presidente não enganou ninguém. Sempre se comportou assim durante seus 28 anos de Congresso e, até a facada que o retirou da campanha, agiu como o Bolsonaro de sempre, com lacradas ácidas e fustigando adversários com comentários fulminantes. O chamado “mito” foi criado em cima dessas atitudes. E é esse mesmo personagem que aparece diariamente na porta do Alvorada, quando distribui alfinetadas, geralmente dirigidas à imprensa, diante de uma plateia embevecida.

Assim como um enamorado que deseja modificar a personalidade do ser amado, o eleitor moderado se revolta com as atitudes do presidente. Repito a pergunta: por que o espanto? Esse é o velho Bolsonaro de guerra. Um candidato que nunca criou uma versão “paz e amor” de si mesmo. Que escolheu um ministério sem nenhuma composição política e sem ligar para o que o Congresso pensava de suas indicações.

O comportamento irritadiço e briguento sempre acompanhou o presidente desde o tempo de deputado. A inclinação para fazer comentários politicamente incorretos idem. Uma leitura peculiar dos acontecimentos históricos também. Pela terceira vez: por que o espanto?

Pode-se não gostar de Bolsonaro. É permitido ainda se decepcionar com aquele que recebeu seu voto em 2018. Mas estamos numa democracia. Não se rifa alguém que ganhou o mandato por um comportamento belicoso ou comentários inapropriados. Para que isso ocorra, é preciso um motivo minimamente plausível, como seria o caso das pedaladas fiscais de Dilma Rousseff.

Temos o presidente mais preparado de todos os tempos? Provavelmente não. Mas Bolsonaro foi eleito e montou um ministério, em sua maioria, com nomes competentes (embora muitas vezes acabe criando caso com seus auxiliares diretos. Foi assim como Sergio Moro, com Paulo Guedes e agora ocorre com Luiz Henrique Mandetta). Estamos em uma crise inédita, que pode jogar o país numa espiral recessiva. Ou provocar um número alto de mortes. A solução para o impasse não aparecerá facilmente. Mas a chave para o enigma só surgirá com paciência, diálogo e entendimento. Todos precisam contribuir com sua parcela de tolerância.

A pesquisa do Datafolha mostra que o Brasil continua rachado ao meio. Perguntados se o presidente tem condições de liderar o país, 52 % dos entrevistados disseram que sim e 44% que não. Não deixa de ser irônico, apesar de trágico: num momento em que mais precisamos de união, estamos divididos – e vivendo um estágio psicológico que mistura depressão, ansiedade e raiva. Um coquetel explosivo que precisamos evitar a qualquer custo.

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