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Como a pandemia vai afetar as eleições em São Paulo?

Esperava-se, até o início do ano, que as eleições municipais de 2020 carregassem em sua narrativa um resquício do confronto que marcou o pleito de dois anos atrás – o Fla-Flu ideológico entre esquerda e direita, que fez de Jair Bolsonaro o antagonista mais proeminente contra o Partido dos Trabalhadores. A pandemia de coronavírus, no entanto, surgiu para embaralhar as cartas e tornar os prognósticos políticos praticamente impossíveis.

No caso específico de São Paulo, por exemplo, as pesquisas têm grande tradição de apontar vencedores que nunca se sentaram na cadeira de prefeito. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que o diga. Todas as pesquisas o apontavam vários pontos à frente de Jânio Quadros em 1985. FHC até deixou-se fotografar na cadeira de Mário Covas, o prefeito da época. Só que o vencedor foi Jânio. Na eleição seguinte, Luiza Erundina levou a disputa pelo PT. Mas as pesquisas (até então, não havia segundo turno) mostravam a liderança folgada de Paulo Maluf. No último pleito municipal, as previsões se mostraram totalmente infundadas. Em novembro de 2015, um ano antes de abertas as urnas, o DataFolha cravou que o segundo turno seria entre o apresentador de TV José Luiz Datena e o deputado federal Celso Russomano. Deu João Doria. No primeiro turno.

Portanto, fazer qualquer exercício de futurologia, agora, é algo arriscadíssimo. Mas é possível, sem compromisso, avaliar as chances de cada um dos principais nomes. O cenário foi virado do avesso com o surgimento do coronavírus. Como ficam as candidaturas nesse novo quadro?

Em primeiro lugar, há os bolsonaristas e os anti-bolsonaristas. A esses grupos, some-se os eleitores de direita e de esquerda (podem parecer grupos iguais, mas não são. Há direitistas que, hoje, são contra o presidente Jair Bolsonaro, mas não há um esquerdista fã do presidente). Temos também aqueles que são a favor do governador João Doria e os que são contrários (de novo, há entre os do contra esquerdistas que também não apoiam Bolsonaro). Por fim, a pandemia colocou no ar outra disputa de extremos: os que defendem o isolamento social e aqueles que desejam o final da quarentena para a reabertura de empresas e do comércio. São essas forças que vão atuar junto ao eleitorado e influenciar o voto.

O prefeito Bruno Covas, que tenta a reeleição, enfrenta uma situação delicada: passa por um tratamento de câncer. Para alguns, sua candidatura é uma incógnita, embora Covas garanta que vá entrar na disputa. Neste caso, as variáveis que atuam no sentido contrário são os bolsonaristas, aqueles que não gostam do governador Doria, uma parte da esquerda e os que defendem o retorno imediato da atividade econômica (o prefeito patrocina a tese de fechar o comércio durante a pandemia).

Sempre se fala na candidatura de José Luiz Datena. E, na hora H, o apresentador desiste de concorrer. Esse ano será um repeteco das ocasiões anteriores? Provavelmente. Mas vamos imaginar que ele se candidate. Teria o apoio de bolsonaristas, dos eleitores anti-Doria e de segmentos da direita. Poderia, em tese, se mostrar um candidato forte, mas ainda não se sabe como seria o seu comportamento numa campanha política. Trata-se de algo muito diferente do ofício de comunicador.

Outro nome veterano nessa disputa é Celso Russomano, que já foi apelidado de “cavalo paraguaio” pela rapidez com a qual sobe nas pesquisas e acaba perdendo fôlego conforme a campanha chega ao final. Desta vez, ele conta com uma certa neutralidade em relação aos grupos de eleitores, embora sofra uma rejeição certeira dos eleitores de esquerda.

Falando em esquerda, o candidato mais forte deste grupo deve ser o ex-governador Márcio França.  Ele teve quase 60 % dos votos em favor de sua reeleição na capital (João Doria foi eleito com votos no interior). Mas esses sufrágios eram pró-França ou anti-Doria? Dois anos atrás, os paulistanos ainda estavam revoltados com a promessa descumprida do então prefeito de não abandonar o cargo para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes. Portanto, uma parte considerável deste eleitorado pode não repetir o voto em França em 2020. Mas, se ele chegar ao segundo turno, terá chances concretas de ser confirmado.

Não se pode descartar ainda o nome a ser lançado pelo Partido dos Trabalhadores – ou melhor, aquele que receberá o apoio de Luís Inácio Lula da Silva. Embora tenha sido preso sob pesadas acusações de corrupção, Lula ainda é uma referência política e sua chancela rende votos – embora cause, igualmente, a repulsa de boa parte do eleitorado.

Candidata declarada à prefeitura, a deputada Joice Hasselmann tem chances de ser eleita, embora a briga com o Bolsonaro tenha tirado dela um bom naco dos seguidores fiéis do presidente. Ao contrário de outros políticos, no entanto, Joice seria eleita para o Congresso com expressiva votação com Bolsonaro ou sem ele – a sua atuação como comentarista política e alinhamento com o eleitorado de direita seriam suficientes para garantir sua diplomação como deputada. A pergunta que fica é: como reagirão os bolsonaristas diante de sua candidatura à prefeitura?

Essa pergunta nos leva a outra indagação: quem será o candidato de Bolsonaro à prefeitura de São Paulo? Ainda não se sabe. Mas trata-se de um apoio nada desprezível, que pode levar o escolhido ao segundo turno da maior cidade brasileira.

Por fim, há um nome que corre por fora e tem a grande vantagem de quase não ter rejeições, embora seja desconhecido do grande público. Estamos falando do médico oftalmologista Cláudio Lottenberg, recém-filiado ao DEM. Ele ainda não se decidiu candidato. Mas tem a seu favor o seu histórico de autoridade em saúde pública e sua atuação no combate ao coronavírus, como presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein. Lottenberg já foi convidado a ser companheiro de chapa de Joice, como seu vice. Mas, ainda no ano passado, preferiu declinar. O panorama da saúde pública, no entanto, o transformou num cobiçado ativo político. Portanto, é um nome a se acompanhar.

Como se vê, são inúmeros candidatos, cada um com suas vantagens e problemas. O problema deste tipo de eleição é que torna a passagem para o segundo turno uma verdadeira roleta. Tome-se como exemplo a eleição presidencial de 1989. Havia 22 postulantes. O adversário de Fernando Collor na etapa final das eleições só foi conhecido no dia em que as urnas foram abertas: Lula foi quem ganhou o direito de disputar o cargo de mandatário da Nação.  Com uma dianteira de 0,67% dos votos em relação a Leonel Brizola. Com uma disputa embolada e os ânimos acirrados pela pandemia, tudo pode acontecer na passagem do primeiro para o segundo turno. Depois do estresse provocado pela pandemia, as emoções em torno das eleições prometem deixar o eleitorado em estado de suspense – até porque a campanha e o pleito em si podem ser adiados em função do combate ao coronavírus.

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Comentários

Uma resposta

  1. MONICA, o querido Aluízio esqueceu de comentar do meu amigo e candidato Filipe Sabbara – que me parece tem a simpatia do governo e pode sim ser apoiado – honesto, jovem e capaz

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