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Ciro Nogueira terá carta branca na Casa Civil?

Ciro Nogueira é quase uma unanimidade quando o assunto é capacidade de costura política. Habilidoso e bom negociador, ele deve ser o melhor ministro da Casa Civil do presidente Jair Bolsonaro. Mas, nos últimos dias, uma pergunta começou a incomodar os observadores da cena brasiliense: terá Ciro carta branca para atuar como quiser?

De um lado, é muito provável ele que tenha bastante liberdade no terreno da negociação de cargos e verbas – o famoso toma-lá-dá-cá tão criticado na campanha bolsonarista de 2018. Afinal, o ministro é um representante do Centrão dentro do governo, cuja missão é aplacar a sede deste mesmo grupo político em troca de apoio no Congresso.

Será, portanto, um diálogo entre amigos. E os dois lados estão absolutamente alinhados em relação ao que fazer: cargos e verbas de um lado, votos aprovando PECs e PLs de outro. Em relação a este tópico, é de se esperar que não haja nenhum tipo de desentendimento entre a Casa Civil e o núcleo que cerca o presidente.

Mas algumas ambições do grupo que apoia Ciro podem criar turbulência no dia a dia da Casa Civil.

Um dos desejos do Centrão é reduzir ainda mais a influência de Paulo Guedes na economia e recriar o Ministério do Planejamento fora da esfera de influência do antigo “Posto Ipiranga”. Guedes já andou refutando essa ideia por aí. Além disso, os deputados centristas sonham com outro revival: trazer de volta o Ministério dos Esportes. O Ministro da Economia também é contrário a esse movimento. Há, nestas duas searas, motivos de sobra para contendas e instabilidades internas.

Os colegas de Ciro viam ministros e assessores do chamado grupo ideológico dentro do governo como fontes de eterno conflito – e conseguiram se livrar de vários elementos dessa turma ao longo do último ano. Agora, alguns centristas começam a dizer que gostariam também de reduzir a influência dos militares dentro do Palácio do Planalto. Essa, sem dúvida, será uma tarefa mais difícil. Até agora, os militares demitidos ou remanejados foram vítimas mais da própria incapacidade (Eduardo Pazuello na Saúde e Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil) do que das críticas do Centrão.

Bolsonaro, quando deputado, era do Centrão e membro do chamado Baixo Clero. Portanto, deverá ouvir o que desejam esses parlamentares. Mas, ao mesmo tempo, o presidente sempre teve generais e coronéis entre seus amigos fiéis. Ou seja, qualquer movimento desastrado para diminuir o prestígio militar pode ser mal interpretado e gerar mal-estar.

É de Ciro também a missão para encontrar um partido para Bolsonaro. Parece loucura, mas estamos em agosto, a menos de um ano e meio das eleições e o presidente ainda não está filiado a um partido político – condição sine qua non para disputar o pleito.

Aqui está um ponto delicado. Bolsonaro e seus filhos têm colocado condições bastante draconianas para que a família se filie a um determinado grupo partidário. Nesta toada, já falaram com algumas agremiações e nada. A ida de Ciro ao governo fez surgir dois boatos. O primeiro seria de que o presidente se filiaria ao Progressistas, sigla de Ciro. O segundo foi que haveria uma megafusão entre PP, PSL e DEM, seguida da filiação do presidente Bolsonaro ao partido resultante da união.

O grande problema para que uma das duas possibilidade se concretize é o conjunto de exigências feitas pela família Bolsonaro para pousar em um ninho político. O presidente e seus filhos brigaram com o PSL porque desejavam ter controle absoluto da sigla. Não conseguiram e resolveram sair. Essa mesma imposição já foi feita para outros dirigentes partidários – e, até agora, nada feito. Se essas condições não foram aceitas no passado por partido menores, por que seriam agora por uma agremiação tamanho família, resultado da união de três partidos? Muito difícil.

Por fim, Ciro também pode ser vítima de dois fenômenos que atingiram alguns de seus colegas. O primeiro é o da contaminação. Muitos ministros começam seu trabalho de forma discreta e ponderada. Mas, em algum momento, acabam replicando o comportamento agressivo do presidente, comprando brigas desnecessárias e abraçando bandeiras ideológicas.

Além disso, tivemos alguns ministros que se apagaram ao longo da administração, deixaram suas convicções de lado e perderam o viço. O titular da Economia é um desses. Começou como superministro e hoje corre o risco de perder o segundo naco significativo de poder. Uma comparação entre Ciro e Guedes mostra que o ministro da Casa Civil tem muito mais jogo de cintura e capacidade de o da Economia. Por isso, não se espera que a luz de Ciro se diminua. Mas haverá muita gente tentando queimar seu filme junto ao presidente, que pode ter a colaboração involuntária dos ambiciosos centristas que não sabem se controlar.

Essas considerações podem ser intriga dos opositores? Sim, é possível. Mas a estabilidade de um governo depende basicamente do comportamento do presidente da República e de seu núcleo principal de colaboradores. Se o mandatário sofre de incontinência verbal ou uma disposição incansável para o conflito, a possibilidade de um desequilíbrio está sempre rondando na esquina. Será que isso vai acontecer novamente, desta vez com Ciro? A reposta deve surgir em breve – seja para um lado como para outro.

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