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Bolsonaro pensa na reeleição desde o início do mandato

Nem bem havia se mudado para o Palácio do Alvorada, em 2019, o presidente Jair Bolsonaro já falava em reeleição. Em fevereiro daquele ano, a imprensa registrava isso com base em relatos de terceiros. Desde junho, no entanto, Bolsonaro abriu o jogo. “Se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos”, afirmou o presidente após um ato religioso que reuniu milhares de fiéis em São Paulo.

Antecipar processos eleitorais faz parte do estilo do presidente. Ele iniciou sua campanha quatro anos antes da eleição e imprimiu maiores esforços faltando cerca de dezoito meses para o pleito. Agora, vê-se a mesmíssima trajetória. Ele convocou manifestações para o dia 1º de maio, anteontem comandou uma longa procissão de motociclistas em Brasília e já chamou sua base de apoiadores para outro ato público no dia 15. É de se esperar que, daqui para frente, tenhamos pelo menos um evento desse tipo por mês.

Muitos analistas estranharam quando Bolsonaro assumiu o poder e continuou atirando contra seus inimigos de campanha, como a esquerda e os representantes do que chamava de a “velha política”. Qualquer outro presidente passaria a régua no passado e iniciaria um novo ciclo. Mas, hoje, percebe-se que o presidente não enxergou apenas um mandato de quatro anos quando se lançou candidato. Para ele, teve início em 2019 um período de oito anos com um referendo no meio.

Para viabilizar essa estratégia, o presidente foi escolhendo adversários e promovendo brigas em série. Apenas quando se viu diante de um cenário mais complicado (quando Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flávio, foi preso) é que abraçou o Centrão e o transformou em sua base de apoio político, concedendo verbas e cargos – exatamente como seus antecessores fizeram, um método constantemente criticado por Bolsonaro durante a campanha.

Ao escolher os centristas como aliados, o presidente poupou este grupo de seus ataques. Mas continuou a ocupar a ribalta política com uma metralhadora giratória. O motivo era simples: esticar o espírito da campanha ao máximo e alongar o confronto com a esquerda. Com isso, o mandatário emergiria como o candidato natural para combater o esquerdismo, hoje representado pela candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Bolsonaro está seguindo um roteiro traçado desde seu primeiro dia no Planalto. Mas, neste meio-tempo, tivermos uma mudança significativa no panorama mundial – a pandemia. No ano passado, a transformação no cenário fez uma vítima próxima do presidente: Donald Trump, que era visto como um trunfo pelo núcleo duro do poder em Brasília.

Com a ascensão de Joe Biden, foi possível perceber que um estilo agressivo e negacionista, como o de Trump e de Bolsonaro, poderia ser visto de forma negativa pelos eleitores. Nos EUA, Trump foi despachado. E, no Brasil, o presidente enfrenta nas pesquisas uma rejeição enorme. No último estudo realizado pela revista Exame e pelo instituto Idea Big Data, 52 % dos eleitores afirmam que Bolsonaro não merece ser reeleito.

Esse resultado, no entanto, é reflexo de um momento e pode mudar em um eventual segundo turno no ano que vem – especialmente se o oponente for Lula. A rejeição a Bolsonaro tem suas raízes na economia, que ainda está longe de se recuperar dos efeitos perversos da recessão pandêmica, e no discurso negacionista do presidente (que, ao ver o estrago feito em sua imagem, passou a defender publicamente a compra de vacinas).

Bolsonaro pretende mostrar apoio popular para questionar as pesquisas que atestam sua desaprovação e provocar um questionamento naqueles que estão criticando sua postura. A foto com ele liderando um comboio gigantesco de motociclistas, presente em toda a imprensa e fartamente publicada nas redes sociais, tem esse objetivo. O mesmo deve ocorrer com as manifestações do dia 15 e em concentrações futuras.

É preciso registrar que, apesar da alta rejeição, o presidente ainda conta com o apoio de pouco mais de 30 % da população – um número que pode colocá-lo tranquilamente no segundo turno e que proporciona um contingente enorme de militantes que podem posar para fotos imponentes.

Mas precisamos lembrar que estamos quase no meio de maio e o presidente continua sem partido político. O Planalto parece não dar muita importância a isso e se baseia na eleição de 2018, quando Bolsonaro usou uma legenda nanica para chegar ao poder. Muitos analistas, entretanto, afirmam que a próxima eleição será diferente por vários motivos e que é necessário ter um partido de abrangência nacional.

Por que o pleito de 2022 será diferente?

A primeira diferença é que agora todos sabem pilotar as redes sociais e mostrar apoio. O segundo ponto é que Bolsonaro vem de um desgaste natural de quatro anos no poder e já não pode usar o discurso de ser um “outsider”. Por fim, temos uma pandemia que mexeu com a população, que hoje se mostra preocupada com as bravatas do presidente sobre o coronavírus.

Ao mesmo tempo, Lula, seu grande oponente, também sofre de alta rejeição. E ainda não surgiu um terceiro nome que possa ser uma alternativa aos extremos. A conclusão que chegamos ao enxergar este cenário é uma só: a eleição está aberta e seu desfecho será imprevisível.

“Muitos são teimosos em perseguir o caminho que escolheram, mas poucos usam a teimosia para atingir um objetivo”, dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O presidente está sendo teimoso apenas em repetir uma trilha que considera vencedora, apesar das mudanças das circunstâncias políticas? Ou compreende como ninguém os anseios da população e esse movimento não é captado pelas pesquisas?

Bolsonaro tem grande capacidade de entender a parcela mais conservadora da população brasileira. Mas erra ao acreditar que ela é a esmagadora maioria do eleitorado nacional. Como em 2018, vai precisar do apoio dos moderados para vencer – mas precisa calibrar cuidadosamente seus movimentos. Se fizer um discurso ponderado demais, vai desagradar seus seguidores fiéis. E, simultaneamente, corre o risco de não sensibilizar os eleitores de centro. Qual será seu caminho? Tudo indica que ele vai se manter na rota atual, agradando apenas sua base e esperando por um confronto com a esquerda no segundo turno para receber votos úteis dos antipetistas.

O problema é que, em política, nem tudo acontece como planejamos. A aposta de Bolsonaro é alta e arriscada.

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