Recentemente, aprendi um termo novo, que já é usado há muito pela mocidade – o adjetivo “biscoiteiro” =, derivado do substantivo “biscoitagem”. O biscoteiro é aquele que joga para a torcida nas redes sociais e produz seus posts para ganhar confetes (a chamada biscoitagem é o ato em si). A gíria surgiu por conta dos cachorros que fazem tudo o quanto é truque para ganhar um biscoito de recompensa, assim como aqueles que postam vídeos ou mensagens à caça de cumprimentos. Em inglês, há um termo para esse ato – “fishing compliments” ou pescando elogios, em português.
Essa imagem me veio à cabeça depois ver os recentes vídeos de Olavo de Carvalho e de Silas Malafaia. Olavo, em sua encenação de rompimento com o presidente Jair Bolsonaro, mostrou uma indignação típica de quem só vê saída para o Brasil no endurecimento político e no rompimento dos pilares democráticos. Seus seguidores têm a mesma visão radical – a de que Bolsonaro ouve o que têm a dizer generais ponderados, por isso, deixou de embarcar na aventura enlouquecida de decretar algum tipo de golpe militar. De tempos em tempos, o escritor faz vídeos ou posts – sempre com termos chulos – com um único propósito: agitar a militância.
Esse é o mesmo propósito que move o pastor Silas Malafaia em várias de suas incursões nas redes sociais. O discurso é pensado para atingir os valores de sua base, sempre em defesa do presidente Bolsonaro. Aliás, foi para defender o mandatário que Malafaia atacou ontem Olavo de Carvalho. O tom de voz geralmente temperado com nuances de raiva e assertividade traz aquilo que a militância mais quer – uma esculhambação em cima daqueles que são inimigos do governo, da religião e do conservadorismo. Nada contra ser governista, religioso ou conservador. Mas as regras de convivência com aqueles que pensam diferente precisam respeitar os limites da tolerância, artigo escasso no meio digital.
Por fim, o epicentro da recente discórdia entre Olavo e Malafaia – Bolsonaro – também age de forma parecida. Os passeios de domingo refletem a necessidade que o presidente tem de ser idolatrado e ver suas posições apoiadas. Muitas de suas “lives” e pequenos discursos na porta do Palácio do Alvorada mostram que é preciso oferecer munição quase que diária à militância, sempre no tom que a plateia mais gosta – o da “lacrada” com sarcasmo ou agressividade.
A obsessão pela adulação de seguidores pode fazer o biscoiteiro perder a espontaneidade, tamanha é a necessidade de lisonja. As redes sociais têm esse efeito secundário: tornar aqueles que estão embaixo do holofote viciados em elogios. Com o tempo, os posts passam a ser planejados, antes de mais nada, sob a ótica de um filtro especial – a busca por temas e “lacres” que vão agradar a plateia virtual, no melhor estilo “o rabo balança o cachorro”.
É por isso que muitos criticam a superexposição de políticos, blogueiros e influenciadores pelas redes. Num mundo de aparências, praticamente tudo pode ser discutido rapidamente, sem profundidade, dando aos seguidores apenas aquilo que eles queiram ler ou interagir. Nesse universo da biscoitagem, inexiste o diálogo e o debate. Apenas uma bajulação mútua: dos seguidores em relação ao personagem que se expõe e vice-e-versa.
Nada indica que isso vá acabar, muito pelo contrário. As redes sociais estão apenas no início de sua vida útil e vão ainda se tornar uma parte ainda maior de nossa vida quando os mecanismos de inteligência artificial atingirem um estágio ligeiramente superior ao de hoje. Como iremos combater a superficialidade dentro deste panorama? Impossível. O político do futuro, pelo jeito, será aquele que saberá se comunicar digitalmente com o público e ter a capacidade de antever o conteúdo que seus eleitores querem consumir. Para evitar que esse quadro perpetue a mediocridade é preciso estimular os grandes quadros da sociedade a entrar na política. Fazer com que aquele estudante brilhante considere uma carreira no Legislativo. Ou que um empresário que se aposentou se candidate a algum cargo eletivo para dedicar sua sabedoria e capacidade ao bem público. Apenas com talentos de verdade e nobres intenções é que iremos combater desonestidade, pequenez e superficialidade – os três grandes males que assolam o nosso cenário político de hoje.
