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Até quando o obscurantismo vai estar entre nós?

Ontem, relembrei em minha coluna em MONEY REPORT uma frase do escritor Nelson Rodrigues que sou obrigado a reprisar: “A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza”. Essa máxima me veio à cabeça ao ler uma entrevista feita pelo jornalista Paulo Sampaio e publicada no UOL. O personagem em questão era um dos líderes da carreata que assolou São Paulo no final de semana.

Antes de mais nada, um aviso: embora ruidosa, criando uma concentração um tanto perigosa de pessoas e complicando o trânsito da cidade, a caravana é um instrumento democrático. Quem quiser protestar contra João Doria, Rodrigo Maia ou o isolamento social tem todo o direito de se manifestar.

Minha birra não é contra o protesto em si. É pela negação da realidade e a pregação do obscurantismo. Voltemos à entrevista conduzida por Paulo Sampaio (já sei, o UOL é da Folha de S. Paulo e visceralmente contra o presidente Jair Bolsonaro. Mas estamos falando de um pingue-pongue. São perguntas e respostas, que o jornalista deve ter gravado. Portanto, sem chance de distorções, especialmente porque o autor da reportagem tem pelo menos trinta anos de profissão).

Uma das convicções deste comandante do protesto: não existe coronavírus. Todas as vítimas contabilizadas (são 1 015 só no Estado de São Paulo) são decorrentes de um surto de H1N1.Diz ele: “Tudo isso é uma fraude montada para atender os interesses dos corruptos. Você sabe quanto está custando o hospital de campanha do Doria, no Pacaembu? R$ 300 milhões. Sabe quanto custou aquele que o Bolsonaro construiu em Goiás? R$ 10 milhões. O que está matando o povo é o vírus da corrupção”.

Negar a realidade de uma forma tão veemente me fez lembrar o verso de uma canção dos Beatles, “Strawberry Fields Forever”. A letra de John Lennon (considerado um perigoso comunista por alguns) diz: “Living is easy with eyes closed” (“Viver é fácil com os olhos fechados”). Aos fatos: há inúmeras diferenças entre o presente vírus e aquele que se espalhou pelo mundo mais de dez anos atrás, a começar pelo grau exponencial de contaminação do corona e de sua imprevisibilidade, que faz vítimas além do chamado grupo de risco. Finalmente, um lembrete que destrói essa teoria da conspiração: existem vacinas contra o H1N1 – e só isso seria suficiente para diminuir um placar de vítimas que ainda está longe de acabar.

Questionado pelo jornalista se o problema era a corrupção, por que então havia mortes pelo mundo inteiro? A resposta: “Começou na China. Você acredita naqueles vídeos que andaram passando, de chineses agonizando por causa do tal vírus? Aquelas pessoas estavam desmaiando é de fome”.

Por fim, em sua visão sobre a ditadura militar, nunca houve tortura. E o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi acusado até de supliciar uma mãe em frente a um filho, era alguém preocupado com a integridade física dos presos políticos. Segue a declaração: “Isso que dizem do Ustra tem a ver com uma c… que fizeram na época. O Ustra tinha muito cuidado com os presos políticos, buscava proteger as vidas deles. Não os colocava na mesma cela, para ele não se matarem. Na hora do banho de sol, por exemplo, mandava sempre dois presos de compleição física parecida. Nunca um forte e um fraco, para eles não se matarem”. O presidente Bolsonaro, em seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, afirmou algo que parece o oposto do que disse o líder das carreatas do final de semana: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (…), o meu voto é sim”.

O universo paralelo em que vivem esses personagens é algo que provoca a cizânia e discussões intermináveis. Mortes por H1N1? A corrupção está por trás da pandemia? Brilhante Ustra era um anjo de candura? Até quando teremos de conviver com essa maluquice generalizada, que acaba sendo tolerada por gente honesta e de bem só porque esses doidos estão contra o PT? Conservadorismo e direita são uma coisa. Obscurantismo e insanidade são outra, completamente diferente. Não vamos misturar as duas coisas. Esse tipo de receita nunca dá certo.

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